na esquina da rua da Praia, Andradas, eu te conto a história esquecida

Desde cedo quero/preciso escrever. Penso no dia, no inverno. Na tua vaidade. Na narrativa. Depois, na roupa a ser lavada, na poeira, no passeio necessário. Em em outro livro de Simenon! Nunca releio, e agora esta coceira com os psicológicos do criador do Comissário Maigret. Leio na contra capa:

São obras em que ele se volta para problemas de solidão, da incomunicabilidade, do medo, da opressão e alienação que caracterizam a época em que vivemos. Quando André Gide, um dos ‘maiores a literatura francesa’ tomou conhecimento desses romances, não se conteve e declarou: ‘ Se Balzac tivesse nascido no século XX e na Bélgica, certamente se chamaria Georges Simenon.'” 

Estou revisitando os volumes guardados. Leitura apressada, doida / maluca. Intercalada com o Guimarães Rosa. Atrapalhada com o Kafka em Cartas a Milena (correspondência, missivas, incompreensões, e o meu tema). Não dos livros policiais. Acho que acabarei sendo/ será, serei?  Desde ontem fixada no feijão preto, no bom caldo. Desde cedo  penso / construo a narrativa sigilosa da tua história. Aperto a tecla da vaidade, da obsessão, e do equívoco. Penso no homem alto, cheio de voltas, de escolhas curiosas e conquistador elaborado, e quase corriqueiro. Imagem colada a de professor. Eloquente, embora tenha história comprida,às vezes arrastada / infindável e enfiada em ponderação interna, psicológica filosófica, ou não. Apenas narrativa. Espanto se chama sigilo,  palavra voa, corre, ou se espicaça. Não se vive atrás de biombos, nem de aparas, somos a platéia, ou o palco… Eu me pergunto se te salvas, ou se te entendes em espraiados  amores dito fiéis e comprometidos. Ironizo. Explicar ironia não é possível, deixa de ser ironia.

SIMENONNNNNNN

Sempre a beleza: enfeitiça, corrompe e cria equívocos.

Quando converso / menciono citações, evidências mapeadas por mim, ou por um livro, tu te surpreendes. Eu me salvo na releitura a sublinhar o que não digo pessoalmente. Assim, permaneço agarrada neste e naquele autor, nesta ou naquela lembrança, como a conversa apressada pela rua que tivemos: eu voltar a Torres, e tu comprares o livro-presente para tua filha aniversariante. Esta é a história / ou a estória que não escrevemos, sequer sentimos, tão longe de um e de outro era do que se chama comunhão / entendimento. Narrativas diferentes. Monólogos.

George Simenon

Damos excessiva importância à beleza. Quase sempre é ela quem decide nossa escolha. Mas quanto tempo dura? E quantos anos nos sobram para viver depois?” (p. 95) Ainda existem aveleiras -, F. Perret-Latour diz:  O que Simenon nos apresenta neste romance, com força e originalidade extremas, é o comportamento de uma humanidade tal qual ela é, sem dúvida tal qual será cada vez mais, num mundo de simples apetites e de apetites simples. Isso, porém, ocorreria fatalmente, se já não existissem aveleiras, árvores que F. Perret-Latour (personagem principal do romance) redescobre durante um breve passeio ao campo…

[…] A velhice é o espaço que nos separa tenuemente da morte: mas dispomos da escolha, durante breves minutos, entre nos imobilizar pouco a pouco para lhe dar lugar em nossa vida, ou ainda ao contrário, ainda confiar em alguma coisa verde…” Robert Kanters

As citações presentes ou indicações para leituras em tua vasta e magnífica biblioteca: de nada valeria. Os fantasmas te acolherão. E o beijo que eu te dei (confesso), espontâneo, volta. O que eu lembro? Não ganhei / nem recebi um beijo, apenas, deixei cair um beijo. Incomunicabilidade. Não importa a beleza da juventude, nem a da velha senhora, nem a espontaneidade com que recebi tuas inúmeras cartas explicativas. Tua exposição. O encontro importa mesmo na singeleza de uma troca de olhar. Se maquiavélicos ou mirabolantes encontros futuros foram planejados!? Não participei. Tu ficaste a imaginar e querias materializar. Que susto levei quando tu te apresentaste como ele… E como eu poderia saber que a viagem não era visual, mas intencional. Eu sou uma caixa de surpresas e cheia de voltas como o rio Camaquã (risos), acertei?

Franz  Kafka:

Não, não irei a Viena, exteriormente porque somente seria possível mediante uma mentira, teria que mandar dizer que estou enfermo […]  o telegrama; obrigado, obrigado; retiro todas minhas censuras, embora tampouco fossem censuras, apenas era uma carícia com o dorso da mão, porque já há muito tempo desejo o que não tem. Há um instante veio visitar – me outra vez o poeta-gravador (embora especialmente seja músico), vem a cada instante, hoje trouxe – me duas gravações em madeira (Trotski e uma Anunciação; como vês, seu mundo não é nada reduzido; para sentir – me mais próximo de suas obras estabeleci precipitadamente uma relação entre tu e elas, disse – lhe que mandaria uma a uma amiga em Viena […] (p.99) Cartas a Milena

Não, não irei / não fui / não correspondi ao encontro do teu obstinado encontro conclusivo, e da tua mágoa silenciosa. Nunca senti o homem, (aquele beijo derramado, que eu dei, contou para a mulher a verdade, eras uma ideia, não uma pessoa). Nunca esclarecemos este episódio rapsódia desastrado. A materialidade da história se perdeu. Nada objetiva, nublada. Não vejo o motivo para mágoas, ou, sei lá, qual absurda vaidade masculina te persegue. Depois veio/ se fez a farsa de conversa virtal: eu era eu, e tu imaginação colorida escondida. Consciente tua brincadeira. Ao te relevares (muito tempo depois), e  dizeres,  como defesa, que eu sabia que eras tu… Levei eu o susto, como tinhas certezas desconhecidas! Hipótese estranha para quem não se esconde, ao contrário se fragiliza e desenha e depois me proíbe de publicar…  Esqueceste das inúmeras vezes, caminhando ao teu lado pela calçada da rua Andradas, em que mencionei meu fantasma  que se escondia atrás de um pseudônimo, e nada revelaste, apenas falsas pistas: bom se tivesses sorrido, e dito, sou eu.. Acreditei em ti (o amigo que não eras), e nas mirabolantes hipóteses. Mentias, nesta ocasião, sem nenhuma preocupação com fidelidade. Ser fiel é mais, muito mais do que meia dúzia de palavras…

Michel Krüger:

Desde a chegada de sua carta, venho, contrariamente ao meu hábito e também a um melhor juízo, examinando minha relação com o mundo à minha volta. Até agora eu trabalhei ou vagabundeei, escrevi livros, respondi cartas, ouvi e proferi palestras. Tudo tinha um nome, o qual me bastava repetir para me fazer entender. E, com certeza, os outros me entendiam. A união peculiar de entusiasmo e revolta selvagem com relação ao curso das coisas parecia funcionar. Provavelmente, beneficiei – me do fato de a vida cotidiana cada vez mais complexa ter resultado num empobrecimento interior que beira a imbecilidade, e sobre o qual minhas histórias de aventura exerciam algum fascínio.” (p.127) A ÚLTIMA PÁGINA

Ele escreve o que não consigo te dizer, sou de natureza covarde. Seria uma frontalidade te apequenar, retirar a tua empáfia e creditar na vaidade dos teus equívocos lisonjeada. No entanto, eu me salvo quando escrevo. Mesmo se a história parece incompleta ao leitor: sou uma blogueira, não artista como te asseveras ser. Este, naturalmente, preenche todas as lacunas ao ler. Sigo com Krüger para te confessar, e talvez isso te importe:

” Não é o medo da morte que nos faz pensar na imortalidade, mas  é o desejo ser ser imortal que atiça em nós o medo da morte – dizia Leo com frequência, citando um filósofo austríaco. A consciência da morte, da mortalidade, está no princípio do ato de narrar. Esse era um dos comentários que ele fazia, quando eu não sabia mais o que fazer. Agora eu não sabia mais o que fazer.”

O livro vale cada palavra:  A Última Página

Contar uma história tem este drama que o escritor vive, colocar o ponto final. Deixar de amar o amar, o amor ele mesmo. De chorar a lágrima, de caminhar em direção da verdade. Resvalo nesta incoerência de ser quem não sou… Tu és quem não és. Estranho! Ou acreditar que outro vai ceder a sedução apenas por ceder. Tocar apenas por tocar. Ser quem não é apenas num minuto de tentação, e voltar… Não é assim a vida. O triste, o definitivo, pode ser apenas apenas chafurdar na vaga ideia vaidosa entre escolhas esdrúxulas, incompletas. Lutar para ser. A elegância não está na roupa, mas na forma de levar/vestir/ portar esta ou qualquer roupa. Palavras da estilista Coco Chanel /Gabrielle Bonheur Chanel se a memória não me escapa.

Beth Matos: Houve / tive uma história de amor – lembras? Eu mencionei / contei. E inúmeras vezes eu te pedi / disse / expliquei: apenas, não morras, tens que prometer.  Agora eu me dou conta que não existias, tarde. É verdade. Não existes na ficção, nem na vida real. A morte já estava selada: não adiantou pedir nem suplicar. Tu já estavas morto, ou melhor, não existias. Tinhas um nome fictício. Eras uma máscara, o personagem. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2019 – Torres

 

 

 

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