seis ondas

Das leituras presas, escondidas no recente encontro de eu ser eu, hoje. Sensação / lucidez / encanto / certeza esquisita. Sentir o balanço da rede, naquelas leituras apressadas. Livro devorado, substituído. Foi na casa de veraneio da Ieda e do João Franco. Numa daquelas tardes delícia! O pai e a mãe, o rio Mampituba e eu. O Nelson deveria estar, frequentou a mesma biblioteca, não esqueci do menino. Coisas da memória! Assim foi com Cabeças Trocadas de Thomas Mann. Daquela coleção da Edição da Livraria do Globo – Porto Alegre – 1945

” – Aqui parecemos estar além das seis ondas da fome e da sede, da velhice e da morte, do sofrimento e da ilusão – disse Shridaman. – Que paz imensa! É como se fôssemos removidos do incessante redemoinho da vida para o centro imóvel onde se pode respirar profundamente. Escuta, como é quieto aqui! Digo’ quieto’ porque exclamamos ‘quieto’! quando queremos escutar e só se pode escuta onde há quietude. Pois esta nos permite ouvir tudo que não seja inteiramente mudo, de modo que o silêncio nos fala como no sonho e nós o escutamos também como se estivéssemos sonhando. – O que tu dizes é bem verdade – concordou Nanda. – No clamor do mercado não se escuta; isso só é possível onde há quietude na qual todavia há algo que escutar. Inteiramente desprovido de som e saturado de silêncio, somente o Nirvana. Por isso ninguém poderia chamá – lo de quieto, nem de acolhedor.” (p.22-23)

Hoje a leitura vai ser nova. Não posso reler, nem os preferidos, tanto a conhecer, o não lido! Não volto ao amado (passado) tantos novos amores! O precioso, o intenso  ser descoberto, o novo amor. Esquisita vida, esta vida de memória! Com a lembrança chega /  desperta  a urgência do hoje, do agora  da sétima onda, da última ventania. Do amigo que te agarra e sacode para dizer: ‘Acorda! Sempre estiveste lá, não abandona teu reinado…’ E eu não disse nada, e porque não disseste nada…, distraída! Eduardo Alves da Costa o poeta gravou/imprimiu este pensar, o que me impressiona, desta memória, poema lindíssimo!

“Na primeira noite eles se aproximaram e colheram uma flor de nosso jardim, e não dissemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e nada dizemos. Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba – nos a lua e, conhecendo nosso medo, arranca – nos a voz da garganta.  E porque não dissemos nada já não podemos dizer nada”. 

Ninguém esquece estes versos. Lamento, não posso voltar, nem sorrir. E não digo nada.  Não posso nem pegar pela mão o sonho, nem acordar do pesadelo. Esquisita esta vida! O desvendado engodo, o verdadeiro cinzento do nevoeiro: os peixes salvos pela chuvarada! Ninguém fez nada. E o inverno caminha rápido / apressado, como o degelo do Alasca. Logo estaremos outra vez no sol das piscinas, escaldando os pés nas lajotas quentes do verão. E o mar… Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2019 – Torres –

“Dizem que em algum lugar parece que no Brasil, existe um homem feliz.” Maiakovski – 1913

 

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