amenidades e queixas

  1. Maridos se misturam no enredo da história, aos pedaços espalhados pela dinamite, pela guerra. Quero fugir do óbvio, não posso: educada para casar e ter filhos e estar entre o quintal e o jardim, ou chás programados. Cabeleireiro e o costureiro. E ser bonita. Se a meta parece restrita e a cabeça se inclina, a vida se impõe. Das escolas, todas acidentais, do internato a autonomia e a liberdade. Esdrúxula observação. Regras definidas: liberdade. Apreendi a administrar ansiedade e solidão armazenadas na rotina, aplacadas pela ida a capela (missa) diária, não imposta, mas eletiva. O dormitório possibilitava cantinhos pessoais. Podíamos ir para casa aos domingos, almoçar. Poucas internas porto-alegrenses. Eu era exceção. Destes / nestes anos de internato nada guardei da casa ou de meu pai e da minha mãe, muito pouco das irmãs. Toda a memória atraca em períodos curtos de ser criança, depois a jovem dos bailes, num ano a tentativa de trabalhar e escrever. Na verdade, não me ajustei… Deste período a fantasia: casa, família e amigos. Nunca perdi veraneios em Torres, alguns no apartamento da SAPT com os Franciosi. Depois daquele noivado interrompido houve tanta pressa para entregar o pacote. Minha mãe me apresentou para o G. que lhe parecia um marido adequado e em seis meses num verão muito quente nos casamos. Resposta apressada ao abandono do primeiro noivo. E logo vieram os filhos. Os três num espaço mínimo possível e este baile terminou antes dos meus 24 anos. A presença materna e o poder manipularam decisões e interesses possíveis. Sempre supervisionada como se fosse uma boneca de vitrine. Segui meus estudos de francês e li muitos, muitos, muitos livros. E nunca estudei com método. De natureza preguiçosa alimentava sonhos como fugas passivas e derramadas. E os veraneios se transformaram em colônia de férias para minhas crianças.
  2. Tudo que fosse ligado à  vida porto-alegrense assustava e surpreendia. De certa forma, no emocional, os meus mecanismos internos rejeitavam a história gaúcha de casar e ser feliz, fui infeliz. Idealizava relações com pessoas diferentes, nada que lembrasse a moça dos bailes, aquela devidamente enterrada e amordaçada por mim mesma. Na memória da Vitor Hugo a fonte, ou a raiz. Reabastecer a palavra saudade. Quantas outras memórias se escondem no poder de mãe. Que bom ser amorosa ou generosa. O relato é pacote opressor, culpado carimbado na figura materna. Paternidade provedora e funcional. Irmandade distante. A crueza da analise atravessa permissividade e lacuna. Atravessa o desencanto dos meus relacionamentos truncados despedaçados, salvo com meu segundo marido. Exceção. Foi provedor, acolhedor, bom homem, bom pai para meus filhos que receberam apoio, abastança disciplina e carinho. Os quatro se dão as mãos. Quando quis me separar e consegui (problemas internos e apenas meus), Jô (minha penúltima filha) queria seguir morando com ele, ficar em Santa Cruz do Sul. Esdrúxulo, mas verdadeiro. A mais velha estava na Alemanha e o meu filho já tinha voltado para o Rio de Janeiro. Aconteceu Torres. Por que me separei? Concluo que não sou talhada para fazer dupla, tenho no sangue a liberdade, ou a dor profunda de ter sido sempre, em última análise, eu comigo mesma. Autonomia estranhada, medrosa e inquieta. Más lembranças do primeiro marido. Nenhuma relação com os Moog que foram em muitos, ou quase todos aspectos, cruéis com a minha assustadora juventude e não esqueço. Apreendi a reconhecer pedras. Não vitrines, nem o mais ou menos. Insegurança e estabilidade se apoiam no trabalho. Nada de regalias, muito menos freios. No afeto, na vida, no dia a dia, quero o limpo, o honesto, o eu, sempre o eu. A minha mãe morreu quando a minha quarta filha nasceu, assim, tomei, pela primeira vez, decisões por minha escolha e cabeça. O pai esperou mais três anos e também se foi…  Neste momento terminou a explicação ou reverência. Amadurecimento consciente, ancora necessária. Da família o colorido dos sobrinhos e a coragem dos meus filhos, e agora dos meus netos. Torres aquece o tempo, e respirar, ler, escrever, e lançar pontes, nova etapa.
  3. Amores amados acontecem. Desastrosos tanto quanto intensos. Outro capítulo delicado. E a formação e os estudos seguiram. Passadas (de passos) mais firmes. Incertezas ficaram seguras. Os livros assumiram lugar importante. Importantíssimo. E a irmã acolheu, e os acertos e as últimas decisões me trouxeram de volta para Torres. E a crueza e a dor de julgamentos se amenizaram… Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

 

2 comentários sobre “amenidades e queixas

  1. QUERIDA NOVA AMIGA, COMO ME TOCOU ESTAS LINHAS LIDAS. PARECE QUE DESCREVIA ALGO QUE GUARDO NO PORÃO DA ALMA – E VENS E DESNUDA TODAS AS REGRAS IMPOSTAS E, NUM DETERNUVADO TEMPO, COLOCADAS POR TERRA, PQ TEMOS ESTA TEIMOSIA E RACIOCÍNIO LIBERTO DE DAR UM BASTA. NUNCA FALTA DE AMOR, MAS COMO ELE FOI DITO E NÃO DEMONSTRADO COMO MERECÍAMOS. BRINDASTE COM ALGUNS PARÁGRAFOS ESTA SEDE DE ENTENDIMENTO, DE EXPOSIÇÃO, QUE ALIVIA A INQUIETUDE, AINDA, DESCONHECIDA. ÉRAMOS TANTOS E, NUM DETERMINADO MOMENTO, ÉRAMOS APENAS A SOLIDÃO NO REFLEXO DO ESPELHO. ADOREI, ME VEM AOS OLHOS DESCRIÇÕES INTERNAS QUE CARREGAMOS POR TODA VIDA. UM BJ QUERIDA. AGORA SIM, O DOMINGO FOI PROVEITOSO…

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