teu sorriso explica

Aprendo, tens razão

terror do homem deve ser apenas ser homem. O mundo / a natureza  conversa, ninguém escuta…

Vejo teu sorriso! Envolvida / embrulhada neste apressado fazer sem fazer, desejo de presença na imaginação do outro…

Somos o que não somos – fingimos ser ou não sentimos. Se eu fosse eu, se tu fosses tu e se ele fosse apenas ele, estaríamos na ciranda da boa política / do bom fazer.

Uma ideia / Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

argila

Presa na argila, ao molde da tua mão: meu corpo a te pensar inquieto. Sedução sem rosto… Desenhas teus desejos, não sou eu, mas ela… Elizabeth M.B. Mattos – vês, sigo a te pensar e o fogo dança! Agosto de 2019 – Torres

modelar sem tocar

Não será / nem seria amor, mas luxo quente de vida. Desta maturidade não me faço presente / não te alcanço.  Eu me escondo exposta. Claro e escuro. Como o dia de hoje. São os anos… A responsabilidade pesada de ser eu comigo mesma nos meus limites acanhados, impostos. Preciso me apressar. Depois de conversar contigo… O cinzento do céu e a ventania morna e gelada segura o corpo. Uma chuva de conversa. Agora este desvio. Desejo o teu desejo e acendo, embora apertada nesta caixa. E tu abres a tampa sem pejo, espias, passas o dedo, a mão inteira acarinhas e segues…

Esta agonia sacode as lágrimas secas de tanto tempo represadas. Sinto pena de mim mesma, depois fecho os olhos para dormir outra vez na preguiça do domingo. A pele úmida, e o tempo volta a pedir perdão.

Se o barro se transforma em carne, se o desejo te sacode, e tuas mulheres lânguidas te cercam… Sinto ciúmes.  Eu te prendo, alucinas. É teu corpo, teu poder, tua força teu desejo. Sensual vigor. Luz deste cinzento frio e quente domingo de agosto.

Sou pequena, acanhada. Tu és solar, intenso. Juntos derrubaremos barreiras e nos surpreenderemos velhos nos braços um do outro, e loucamente, absolutamente e insanamente jovens: alquimia. Vou passar o café, sorrir para nós.

Comemos morangos, ameixas e …, sem pressa, usufruiremos da tarde cinzenta. Revezamento. Temos direitos adquiridos, mas não podemos destruir: há que ser igual, tu no teu amor, eu na minha escolha, intocáveis, a desejar o desejo humano de ser quem somos. Ensandecido esvaziamento. Pimenta, óleo das nossas oliveiras, e vento do mesmo mar, vamos nos reconhecer, velhos, mas nem tanto…Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres. Ao escultor, ao pintor, ao homem inquieto. Ao artista.

sacolas e caixas

Aonde seriam depositados quando chegasse… Sacolas, caixas, embalar, selecionar, cuidar. O vapor dos bules de chá, dos biscoitos recheados, e do jejum: mudanças! De casa, de rua, de vida. De estado civil! Tenho idas e vindas excessivas como se volteasse o planeta, ou voasse de um lugar para outro. Não. Não fiz nada disso. Mulher obediente submissa e companheira. Eu ia e vinha com uma facilidade estonteante, e as crianças (sempre tive filhos) testemunhas e parceiros se movimentavam no mesmo ritmo. Penso: primeiro casamento, de 1968 a 1972, grávido subia a serra, descia da serra, e volteava… Tão curto tempo, tão movimentado! Fiquei craque no vamos / ficamos. Iremos, não iremos. Oito anos depois  voltei a ir e vir freneticamente. Trabalhava numa cidade  morava na outra, e ainda as idas a Porto Alegre! Esquecer o Rio de Janeiro! O mar… Eu fiz isso.  Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres a costurar o mapa.

Quando uma mudança é  iminente, o mobiliário torna – se ridículo.  Nesse momento Margaret acordava às noites, perguntando – se onde, onde neste mundo de Deus, elas e todos os seus pertences seriam depositados quando chegasse setembro. Cadeiras, mesas, quadros, livros, que haviam se acumulado sobre elas teriam que rolar novamente para fora como uma avalanche de lixo na qual ela queria dar o empurrão final e enviar, cascateando, mar adentro. Mas havia todos aqueles livros do pai – não os liam nunca, mas haviam pertencido ao pai e tinham que ser guardados. Havia o ‘chiffonier’ de tampo de mármore – a mãe gostara muito dele, embora não pudesse se lembrar por quê. Em torno de cada maçaneta e almofada da casa reuniam – se sentimentos, um sentimento às vezes pessoal, mas com mais frequência uma leve pena pelos mortos, um prolongamento de ritos que bem que poderiam ter terminado na sepultura. Era absurdo quando se pensava nisso. […] Estamos voltando a civilização da bagagem.” (p.160)  E.M. Forster – Hawards End

Não exagero quando digo que durante infindáveis anos eu vivi dentro de caixas.

alma dançando

“Sai de Torres com a alma dançando. Há muito tempo não conversava com esta amiga querida. Mesma sintonia, empatia total. Falamos de ex-amores, filhos, solidão bendita. Vivências corajosas. Tempos duros. Decisões tomadas. Rimos. Nos emocionamos. Rugas e cabelos brancos felizes, lindas as duas, que lemos alguns mesmos livros, ela muitos mais.
Política sem censura, dando o nome aos bois! Nossa memória está viva! Quase dançamos na sala, que não é exatamente uma sala, senão uma biblioteca completamente ativa!! Enfim como ela disse, lavamos a alma! Com água e sabão. Aquele sem aditivo, nem contra indicações!
Conversamos sem cuidados, sem correção e sem pausa para pensar.
Quando me dei conta estava cantarolando as músicas do rádio coisa que não faço há anos!!” Luiza Silla – 10 de agosto de 2019 – Porto Alegre – sábado

Encontro bom! Amizade sem data: o melhor nas reviradas lembranças abraçadas. Tão absolutamente nosso o encontro / visita, e com direito a almoço tarde e entardecer! Sempre escreve assim certeira! Agradeço muito! Especial!

Procurei procurei uma foto que tiramos na festa da Ana Cristina, não encontrei agora, então, coloquei os bombons…

bombommmmmmm

grande enorme Cecília Meireles

IX

“Os teus ouvidos estão enganados.

E os teus olhos.

E as tuas mãos.

E a tua boca mentindo

Enganada pelos teus sentidos.

Faze silêncio no teu corpo.

E escuta – te.

Há uma verdade silenciosa dentro de ti.

A verdade sem palavras.

Que procuras inutilmente,

Há tanto tempo,

Pelo teu corpo, que enlouqueceu.”

Cânticos

O que eu te digo? Nada. Silêncio no teu silêncio, eu te compreendo. Beth Mattos

mimada = amada

Não fui mimada, de certo, em algum momento amada. Antes livre / solta / nem vigiada, mas integrada / pertencente. Dócil. Gentil. Quem conviveu comigo ou repartiu deve saber da menina – criança que eu fui / sou. A escola, as madres, as professoras, quem saberia descrever as franjas e aquele cabelo escorrido? Fico a pensar na música, a mesma. Se tenho filhos e tenho quatro, foram eles mimados, amados? De que jeito especial se sentem desejados, amorosamente aconchegados e  queridos (do verbo querer)? Que sintam! Filhos eu desejei. Eu quis. Livres, empurrados para viver, livres para agarrar galhos floridos,  frutos e defender o fazer de correr brincar aprender, eu os queria corajosos. Na batalha eles e eu, nós. Cada um deve ter ser o seu UM – livre, ou menos livre, dependente e ou independente. Ele mesmo. Se a minha dita geração era assim ou assado, sei lá como desenhar, começo a colorir. Penso em mães presentes ou ausentes. Elas nos definiram, deram o rascunho, fizemos a história. A verdade? Somos todos sobreviventes, uns mais viventes / vivos, outros mais ou menos agentes. Seguro ou inseguro, bonito ou feio, simpático e  ou antipático, eficiente! Sorridente, aborrecido. Com impulso sem impulso. Quem se deixou ficar no costume ou era daquele jeito, igual / ficou. Ou seguiu com o alfinete de fralda preso na saia da mãe, da tia, na fralda da camisa do pai, do tio, do irmão ou da irmã, da tia emprestada, da madrinha, da madrasta. Ah! Que tanta vida a ser contada! Quanta calçada! Misterioso quintal! E as escolas em manhãs enormes e tardes estudiosas, ou mal humoradas! Sim! Mimada fui, ou não fui? Não sei. Numa casa cheia de adultos, poucos brinquedos e tantos afazeres, tanta liberdade! Acho que a lição era mesmo a liberdade! Ou casar. Ter marido importava, estudar também era coisa séria. Apreendi olhando! Casei cedo / mas separei cedo / trabalhei cedo / dancei e dancei! Fui mimada pelos amigos e pelos verões em Torres. Quem não foi? FOMOS! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

limpo, lindo

Consegui esvazia a xícara, a caixa, a memória inteira: esquecer o caminho de voltar / estar / ou me deixar ficar. Hoje (enquanto me explicavas) desejei tudo outra vez, e o peso de ser eu comigo ficou enorme! Preciso de outras vidas, tantas vidas para ser apenas a mulher certa para o teu abraço! Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres o frio está caminhando, indo e voltando, as janelas estão abertas e o mundo limpo, lindo!

quanto sol!

A receita era/ é boa, quase perfeita: exata, sem surpresas, previsível. O lugar mais seguro  do mundo no meu caso foi a maternidade. Não desafiei nem testei meus limites. Acho que a resposta seria esta. E quando o sol é tanto eu acho mais fácil dizer cantar dançar e ser mulher! Se o abraço não chega e a voz não alcança, o olhar se assusta com o tato. O que faço para te reter? Nada. Eu me afasto. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2019

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lendo e relendo:  ler e ler e a envelhecer, não é escolha, mas a vida como ela é…

invisível

O invisível esclarece e tonteia. Faz o caminho. Difícil entender a guerra que esperneia e se faz necessária. Não importa o sol, no meio do sol eles querem decidir o lado negro e abusivo. Evidente: eu não quero, eu não sei, eu não posso, eu explico eu digo eu me escondo, mas a bomba cai nas minhas mãos, eu preciso gritar! Viver não me deixa descansar. Outra vez na frente da batalha. Afinal fazer tudo errado deve ser mesmo o certo… Quem precisa aprender? E.M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres