coisas que te digo já não importam

As coisas que te digo já não importam: nem o teu nome, nem o que eu sinto, nem este verão atrasado, sem pequena memória, nenhuma lembrança. Alerta preguiçoso. Já não me interesso pelo teu lugar, nem pelo meu. Nem pelos cães, nem pelo arvoredo. Nem quero te dizer daquilo ou do outro, esqueci tudo. Inclusive a vontade de ler, de pensar, ou que te amo, não sei. Terminou sem começar. Esqueci o que pretendia dizer. Camisa puída, urgência, ou café, sem passado, nem presente, nada interessa. Nem as palavras, nem o vento, nem o sol.

Pela fresta da porta vejo/percebo passos, eles passam. Magia de ir e vir.  Nem os dezessete nem os quinze, nem o sonho. Nada importa. A pensar que o que ficou para traz, a dizer sem palavra o que um dia importou, estranho vazio. Não. Estás, estou preenchida e estupefata com a indiferença. A tua. Resiliência. E nem me importa se o sol entra e queima, ou a chuva desmancha e deforma a terra. Barro / argila que o vento incansável modela. E o mar chegou na calçada, no jardim. Estou tão longe e tu estás tão perto! Guardei o suspiro, os teus braços no meu corpo. Quero / desejo que tenhas me guardado no teu desejo. Todo o plural da tua fantasia se derrama na minha. Bebi demais. Dói a cabeça. Perdi a referência da luz, escuro. Anoitece no meu dia. Nem uma taça de vinho. Apenas água. Esquisita química de amor. Teus olhos castanhos, tua pele descuidada, teus desejos ocultos: um jogo. As regras não me deste, então, distraída, e descuidada, assisto o jogo sem entender. As partidas de tênis, os nadadores a se superarem, as goleadas, os lances de encestar, cortar. Eu me entusiasmo com a violência do futebol. Eu não entendo. Uma dança perdida. Areia quente. Sol a queimar, devagar. Entro no mar para esquecer que te espero, mergulho e volto, mergulho. Segues jogando. Não vou te alcançar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2019 – Torres

caderno fotos a bic e o copo

4 comentários sobre “coisas que te digo já não importam

  1. Há momentos que me anuncio. Outros que me deixo ficar perdido em tuas palavras. Não. Palavras não. Algo mais do que elas. São nossos pequenos rituais estes os de manifestar em abstrações o que os sentimentos e as pequenas realidades nos dizem. Vãos ensaios de toda a beleza e a falta dela. Mas insistimos. Somos assim. Decerto que somos. Nos esquecemos e nos encontramos perdidos entre as linhas de parágrafos para muitos inúteis. Sabemos que não o são. Somos almas encarceradas dizendo o que nem pretendíamos. Fazemos de nós os múltiplos dos outros e esperamos. Sentados. Quietos. Me dependuro no alambrado da escola antiga e olho o céu tíbio a escurecer. Lembrar para quê, não é mesmo? Só nos resta ser. Ser o momento e não percebê-lo.

    • Escreves e avanças e eu estou contigo, tanto quanto estás comigo. Saímos os dois a caminhar bem cedo! Então vou dizendo o que não diria noutro momento, tens razão! Céus! Sinto medo.

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