a esperar na penumbra

O rosto contraído, fechado, colado na vidraça como se esperasse desde muito, muito tempo. A casa na penumbra. A noite de lua acesa. Seu rostinho redondo se abre num sorriso. Cheguei tarde, outra vez: as pastas, sacolas despencam para o tapete. Ela corre ao meu encontro. Não fala. Cansada, quieta. Sinto angústia no silêncio. Arrisco uma pergunta, duas. Lacônicas respostas.

O apartamento iluminado pela luz da Praça das Nações. As plantas abertas nas cestas, perto da porta-janela da sacada. Respiro. Sinto as mãos molhadas e quentes. Seus dedos apertam meu braço. E o rosto aflito, com lágrimas, afunda no meu peito. Continua, inquieta, dolorida a minha menina. Tão menina! E eu!! Eu!!! Egoísta.

_” Tudo flui, dizia Heráclito. Tudo está em movimento e nada dura para sempre. Por esta razão, não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Isto porque quando entro pela segunda vez no rio, tanto eu como ele já estamos mudados”.

Minha voz aberta, e eu leio para ela. Seus olhos entram pela minha pele… Canção de ninar, o som monótono da minha voz. Ler, nesta hora de dormir, ler como mergulhar uma na outra, nosso código. Aquietamos a rotina. Ainda não sei o que aconteceu. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – ainda na Garagem de Arte – ano em que as Torres Gêmeas foram derrubadas em Nova York.

 

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