solidariedade

Querida Beth

Agradeço a tua solidariedade de amiga. Tenho sofrido muito. Certo setor da imprensa, por razões obscuras, adulteram os fatos com o evidente propósito de colocar a opinião pública contra mim. Felizmente a verdade triunfou na sentença do juiz. Espero que os desembargadores a confirmem. Irei para o Sul tão logo tudo acabe. Eu me alegro com a tua felicidade. Tu a mereces. Abraços para todos.  Afetuosamente, o Iberê  

Rio, 6 – 4 – 81

Antes, muito tempo antes. Em 1975 a correspondência. Nos tornamos amigos: estranho o percurso pelo teclado a procurar cartas datilografadas, armazenadas. Hoje, na minha fantasia, desejei secretária,  funcionária, um alguém que me ajudasse nesta ordenação misteriosa da correspondência. Das fotografias e até da memória. Dos velhos textos que transbordam alinhavados, mal escritos, gaguejantes. Quando Luiza nasceu Iberê foi ao hospital me visitar. Antes do sempre, amigo. E a história com F.T. se agarra na despedida agônica, como se ele me oferecesse um amigo. Estes elos misteriosos entre pessoas. Cartas. Muitas se perderam ou desapareceram. Ciúme, mal-entendido. Eu confiava. Considero correspondência inviolável. Os tempos mudaram. O poder, a posse deforma. Os códigos são outros. Espiar, remexer. Não estamos sozinhos. Constantemente, vigiados. Tenho mágoas / queixas, não arrependimentos. Das mágoas, a alegria me salvou. Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2019 – Torres – houve um tempo de que acreditei, todos nós acreditamos. Tempo de incerteza, o de hoje.

George  Orwell –  1984 – Livro a ser relido.

Era um dia frio e ensolarado de abril, e os relógios batiam treze horas. Winston Smith, queixo enfiado no peito no esforço de esquivar-se do vento cruel, passou depressa pelas portas de vidro das Mansões Victory, mas não tão depressa que evitasse a entrada de uma lufada de poeira arenosa junto com ele.” 

O solitário Winston Smith, alocado no Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, é um dos funcionários responsáveis pela propaganda e pela reescrita do passado. Esta é a história impressionante que nós já esquecemos.  A escrita do passado e a escrita do futuro. E eu me perco entre / nos papéis. Nas estantes a procurar livros perdidos / espicaçados na memória gasta e desorganizada, a minha. Antes marcados por um lugar x ou lugar y da memória. Os que devem ser relidos, mas também os esquecidos a espera. Livros! Quantos caberão na mala? Quais devo carregar, e os esquecidos, voltarão? Estou tragicamente nostálgica. Nada voltará, ninguém. Apenas uma voz na linha telefônica a dizer: Eu faria tudo diferente. Quero o nosso tempo de volta. É um grito azul perdido em Porto Alegre, eu tenho saudade do Rio de Janeiro.

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