Confusão ao abrir a porta Carta Três (3)

Este tempo aberto, meu, possessivo. Sempre tempo. Droga! Aquilo que adquiro se desfaz, quero mais, quero outro, quero tudo. Droga! Materializa. O tempo de querer resultou numa infinidade de contratempos, desencontros e equívocos.  Já nesta carta voltaria… Alguém mencionou Messalina! Fiquei quieta. Não escorreguei na casca de banana da calçada. Nem fiz tanta coisa que pensei querer fazer, reservei tudo para os cadernos pra depois… Ninguém entende nada. A vida tem que correr nos trilhos que estão ali, desvios não….Claro! Sim. Desvios que estejam em trilhos! Putz! Difícil pensar. Ler também confunde. Atrasa o processo, escurece por dentro e, paradoxalmente, estou numa clareira evidente, aberta. Esqueci de te contar do livro de J. M. Coetzee (ainda). Leio aos solavancos. Já te contei da precisão e deste jeito perfeito, adequado de escrever o essencial sem adjetivar e se pavonear. Dizer. Esta aula não termina. Estou quase a desesperar no tempo. Escrever sem ler, ler para escrever. Ficar e sair andando a fazer. Difícil! Por que volto sempre ao que eu leio? Porque não aprendi a nadar, nem andar de bicicleta, nem caminhar, muito menos sei usar o patinete. Estou sempre sentada esperando para nascer. E nascer não chega. Quanta preparação! Não desisto. Voltei para te contar de Robert Walser e da loucura dele.  Elias Canetti escreve: “Eu me pergunto, se entre todos os que constroem uma vida acadêmica confortável, segura e regular a partir da existência de um escritor que viveu na miséria e no desespero, existe um único que sinta vergonha de si mesmo.” Mecanismos internos é o nome do livro de Coetzee. Sei que estás a me achar confusa, irritante, aleatória ou dispersiva. Aiiii! Ai! Sou tudo isso. É a tal da bolha! Não sei arquitetar porque não sou arquiteta, advogar, o mesmo. Construir, não fiz engenharia. Administrar! Ufa! Não conheço os números. E a vida passando. E não li. E não conheço a Suiça nem Walser. Beth Mattos – janeiro de 2020 – desculpa! Esta carta se perdeu nela mesma. Amanhã eu te conto o que me aconteceu quando abri a porta.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s