abcde

Fantasia generosa. Paz adocicada consciente, languida. E também terna. Procuro. Argumento discuto e lamento, não sou eu, não sei, esqueço, esqueço, esqueço, esqueço… A memória se atordoa no descaminho. Não vejo nem escuto. Eu me perco. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020- Torres

 

dinheiro

Ando / estou / passo, e me sinto num período de inquietude e de perguntas. Enumero  respostas que se minimizam assoladas pelo calor, por ausência, e de repente. O silêncio  estrangula. Distraída, na jaula da loucura de ser eu mesma abro livros. Deveria ter meus pares, talvez voltar a estudar, ter um grupo de pessoas possíveis… Tenho que me adaptar ao meu mundinho, Porto Alegre não vai me devolver a graça e a força, não trará música. Nem o piano, e os concertos ficarão distantes, e eu direi: não sei. Onde foi que parei?…Sim, no dinheiro.

Diga, por que os escritores escrevem de modo tão superficial sobre o dinheiro? Escreverem a toda hora sobre o amor e a superioridade e o destino, só não falam do dinheiro como , uma especiei de vale que que, no interesses, o produtor coloca nos bolos das roupas dos autores. Na realidade, a angustia que cerca o dinheiro é muito maior  do que admitimos para nós mesmos. Não estou falando da ‘riqueza’ e da ‘pobreza’mas do dinheiro, ou seja, dos conceitos teóricos, mas do dinheiro dos  conceitos teóricos, mas do ‘dinheiro’ e da ‘pobreza'[…]As angústias  diárias da vida ainda assim se reúnem em torno dessas quantias lamentáveis, as tramoias, as fraudes, os pequenos gestos heróicos,as denúncias, os pequenos gestos heródicos, as renúncias no âmbito das possibilidades[…] A literatura fala de sobre economia como ela fosse um armação. Também no sentido mais profundo da palavra… Entretanto na intimidade da riqueza, bem como na pobreza, está o dinheiro, o vínculo dos homens como dinheiro, o oportunismo ou a coragem pessoal em relação ao dinheiro […] (p.158] Sándor Márai – De verdade

…tropeço, sigo, resolvo e o poder cai das minhas mãos como uma bola colorida. Eu a brincar. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020

no trem

O tempo passou/ anda/ escorrega. E aqui estou no trem. Volto ao tempo da ardente paixão. Paixão ardente,  não termina. Não nego saudade. Assombração. Saudade tenho da vida ela mesma, parte deste processo. Tempo dolorido ou florido: tempo. Tenho pernas e asas, caminho a voejar. A ladeira da memória. Olhar e voltar. O roteiro da viagem impossível será agarrar o tempo, reinventar (vou brincar) o vento. Sabes o que estou a imaginar? Olhar no olhar, não falar. Serei/sou, outra vez, ideia/sonho/ esperança. Não escrevo. O livro se diz página, e se mostra vivo. Na história se eterniza: cheiro, linha, peso, cor, identidade. O mistério. Ou tela aquosa: cor rouca? Eu me perco na procura, no caminho distraído… Não tenho o essencial, perdi a alma. Beth Mattos – Torres 2020

o ponto

Não posso voltar, a decisão do agora/ do hoje/ do momento se esparrama definitiva. Então, o dia estufa e explode com sua cor própria. Não estou no campo de guerra / estou na guerra. Caminhar seguir e acertar. Não compreendo o que acontece, mas preciso compreender o que se passa dentro de mim, do meu pequeno território. Elizabeth M.B. Mattos – 2020 Torres

energia

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O novo e a volta. Pintar a casa, estofar os móveis, trazer flores e vasos. Revirada no que existe, na seleção de ficar / de largar/  de refazer. Não se apegar ou segurar / agarrar. Abrir as mãos, remexer a terra, afofar. Revitalizar / renovar / reavaliar. E pode ser o fetiche. Renascer. Uma criança, a casa nova, a música, a tinta e o perfume da carne, do pão feito em casa, das panquecas. Doar e recomeçar. Escrever pode ser/estar a caminho / arota ou o novo. Viajar e trocar de casa, ir e vir. Sim, não posso apenas ficar… Volto a Porto Alegre e abro as janelas para respirar o impossível, sacudir os tapetes, trocar as cortinas. E chegar em Torres para o mar… A revolução num dia, numa semana: trocar os móveis de lugar, e pendurar os quadros noutras paredes. Escovar todos os livros… Viajar! Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 Torres

Se você está mal de grana esqueça.”e acho que estamos todos mal de grana afinal. a sepultura está sempre lá e nunca poderemos comprar uma sobrevida. morei num lugar certa vez em Atlanta por um dólar e 25 centavos por semana, vivi por um mês com 8 dólares. E escrevia poesia nos cantos dos jornais sujos que encontrei no chão, sem luz, sem aquecimento, não sei o que aconteceu com os jornais, meio que me lembro do que aconteceu comigo. isso é normal, mesmo quando fica anormal.“(p.97) Charles Bukowski Escrever para não Enlouquecer

O livro impresso deste jeito mesmo, ponto sem maiúscula, e o cheiro de novo mostra o recomeço de ser ele mesmo, e a vida a se refazer. Retomar ou ser outra vez, outra vez ainda, mais outra pessoa diferente. Por um momento deixo de ser Eu e confesso: estou tão absolutamente cansada! A cavar buracos, trocar de casa, abrir e fechar as venezianas. pintar as paredes e fazer tudo, e muito, e respirar. Beth Mattos – Torres – Por que estou sempre no mesmo lugar?

outro sono

A bicicleta acompanha os músculos do corpo e a beleza se mistura com a máquina. Posso remendar a história, e seguir o cheiro do amor em fuga… Liquidada/arrasada, por dentro, pesam os braços. E os cães se perderam. Não faz sentido repetir e repetir as histórias desalinhavadas. Estou mesmo deprimida, triste e arrasada. Igual vai ter um dia, mais um dia na quinta – feira… Sendo depois um sábado e o domingo, outra segunda-feira. E vou voltar para a menina que me espera, descansaremos! Outro dia e outro sono. Elizabeth M.B. Mattos. janeiro de 2020 – Torres

solidão

“A Comunicação Muda  – 14 de fevereiro – O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros. Às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão.” (p.411) Clarice Lispector  A Descoberta do Mundo  Editora Nova Fronteira, 1984

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Foto tirada por Ana Moog num almoço de domingo – novembro de 2019 – Restaurante TABERNA – beira da Lagoa do Violão – Torres

 

 

 

 

roupa no varal

Roupa pendurada no varal! A secar… O vento venta nestas roupas exibidas. Venta na janela escancarada: seca roupa molhada pelo mar… Danado deste mar! Toalha felpuda, bermuda, biquíni e verão. Edifício indiscreto. Aberto ao sol, ao vento, encascado… Intimidade vencida, sem vergonha. Roupa pendurada no varal do quintal desta janela sacode colorida. História divertida de verão. Elizabeth M. B. Mattos –  janeiro de 2020 – Torres pela janela, nas calçadas da Lagoa, no amanhecer do sol.

pecado

Existe um pecado maior, grande, enorme, eu diria, contra a possibilidade de, a possibilidade de qualquer coisa… Vaidade. Ninguém é/será/terá/ possui suficiente inteligência, poder, genialidade ou esperteza ou beleza, ou qualquer coisa que supere a grande vaidade. Sucumbe. Morre derretido/apertado pela vaidade (quase sempre cega). Ela se agarra a mil outros pequenos defeitos, humanos defeitos. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres (Claro! posso estar dizendo uma besteira equivocada. Arrisco.)