saudade crônica

Filhota querida, penso todos os dias em prolongar a conversa interrompida/sempre interrompida. Sacudida por mal humores, desencontros, ciumeiras ou coisas que  o verão nos trás…Atravesso um momento carregado de vida, pleno, ou consciente, eu diria. Assumida nos meus descaminhos. Assustada com as descobertas das minhas susceptibilidades, e mesmo dificuldade com as pessoas. Perdi a doçura de moça, a tranquilidade foi junto. Deixei de ser passiva, agarrei um ciúme crônico, pesado, não só do  Magro, mas de tudo o que é meu (posse), até os espaços…Sei que entendes bem destas coisas. Custo a admitir que és parecida comigo. Eu nos julgava livres, independentes. Descobri que estou amarrada  nas pessoas de jeito/forma definitiva. Sinto saudades crônicas. Eu acho… L. e eu vivemos uma nova e reinventada vida, mais mansa, tranquila, mas também preocupante, dou aula todas as noites (ganho bem), mas ela fica sozinha em casa. Esqueci/esqueço de pedir ao P. que telefone/ligue algumas vezes. A Juliana tem subido para brincar, fico apreensiva, mas vou me sujeitando aos novos fatos. Não será a solidão mais doentia e triste? Preciso trabalhar. Vale mais a cabeça da minha filha / alegria do que os meus melindres, eu acho. E com as novas teorias surgiu um novo gato, macho, branco e preto, amoroso e dengoso, mas fez  ‘cacas’  lá em baixo da minha cama, bem escondidas, porque eu eu o deixei trancado ( na aflição de fechar o meu quarto contra elos e invasão…surpresa!!!, merecida, é claro.) E agora tudo culpa. Sentimos tanta culpa por não termos sido perfeitos/corretos, ótimos e tudo o mais. é assim com vocês,  cassa a mãe que consiga fazer e ser como deve ser. Eu sempre agiganto as culpas, mesmo as das separações! Parece que não lutei, que desisti na primeira volta. Pessoas são complicadas! E nem disso, nem daquilo me curei. Agora tem o Magro na minha vida, um amor, um amor tardio completo!Transbordo na vontade de ser mulher, mas morro enciumada e me calo, e não atendo ao telefone, e faço um silêncio de morte. Faço mal para ele e para mim, para nós. Rompi num susto! E quero que tudo mude, que ele volte, esquecer, recomeçar. Não sei quando nem como, mas quero que venha inteiro….E tudo é fantasia. Jamais somos inteiros, somos e recebemos pedaços. O inteiro tem que eu, ser ele,…cada um o inteiro (cuida filha!) Não somos inteiros para o outro, e recebemos pedaços. Pedaços. Inteiros precisamos ser para nós mesmos, e como é difícil! Como é difícil este domínio! Se eu paro/interrompo este processo eu me dou conta que a Beth Mattos é a metade da Elizabeth , que um dia foi Elizabeth Menna Barreto Moog. Eu já fui Moog, e depois Domingues, e sempre eu. Complicado isso de trocar os nomes ao casar. E por isso participo emocionalmente da vida de Geraldo. Eu o compreendo Acompanho, guardei e apertei o amor no meu coração por ele, pela vida dela e gosto da Laura porque a laura faz bem e preenche o mundo dele, mesmo ele sendo tão esquivo e reticente comigo, tão apenas e só ele, e vocês. É o pai mais paizão que eu já conheci. Em algumas coias parece com o meu pai no jeito reto e sério de ver a vida, e tanta amorosidade! E algumas mágoas e rancores bem definidos também. Sei lá como te explicar. Fantasiamos. Nós mulheres procuramos o pai em todos os nossos homens amados / como as homens procuram as mães nas igualdades ou nas diferenças definitivas do que não desejam, não querem. Depende do amor que recebemos ou do sofrimento que passamos.  Uma medida. ( 20 de março – quarta feira)

Filha amada, ainda não terminei, aliás, acho que nem comecei pois quero resolver contigo coisas práticas como a ida da tua cama e algumas coisas mais que estejas precisando na casa nova. Pensei no teu cabide, tuas roupas de cama, e talvez os livros que possas precisar para o curso. Aproveitarei a ida para mandar coisas mais pesadas como tua máquina de tricotar, por exemplo. Pensei em te mandar os tecidos para fazeres as cortinas. Faz tudo bonito. O que estás precisando? Se achares que posso fazer alguma coisa, pede.  Quanto ao Darcy Ribeiro já tenho alguns livros, mas não todos. É maravilhoso. Gruimarães Rosa, Graciliano Ramos, e mesmo alguns livros do Érico (devem ter dedicatórias em primeiras edições), os últimos… Procura Fernando Pessoa, livros do Borges. OU a biblioteca já foi? E as estantes? Teu pai escolheu algum tapete? Já estou divagando! Eu adoro estantes. Fica apenas com o essencial. E te desfaz do que não precisas e não aceita.  F. deve estar passando pelo Rio de Janeiro nos próximos dias, exausto, tem viajado muito nas últimas semanas, mas é isso tudo que o mantem vivo e ativo, inteiro. Adoro aquele Magro, mas estou bem recolhida, escaldada, e eu diria que o silêncio também mata. O amor ilumina, mas arranca pedaços também. Pensaste numa terapia? OU é caro demais? Entendi que não vens nesta Páscoa. Eu não sei o que farei. Por enquanto espero o Pedro. Será que ele virá? Rezo para que esteja bem amparado e tudo corra bem. Tão especial este filho! continua desenhando e pintado? Por que não entra para o Belas Artes logo de uma vez. Querida, escreverei/ terminarei depois. Deixei a Luiza no dentista e vou buscá – la. Consegui que o Théo ficasse lá no Bruno, adoram gatos. Enfim, a vida continua igual: rodeada de castelhanos e ônibus acordam a casa  na madrugada. Quanto barulho! Que gritaria! Te amo te amo te amo, escreve te cuida, te cuida. Quinta-feira – 21 de março de 1996

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s