atropelada

Tens razão: atropelada pelo susto, apavorada, sem saber exatamente se deveria ser este ou aquele o caminho, esvaziada, sem pensar. Escrevi no plural, mas acabo de colocar na primeira pessoa. Estou / não é estamos. Apavorada ou apavorados. O esquisito desta angustia se tranca no medo. Imagino o quanto! (explicas na carta) estejas a trabalhar mais, muito mais do que antes, e sem hora, ora! Pessoas presas em caixa (imaginária ou real / obedecendo ou desobedecendo as ordens da pandemia) sem tempo, e o tempo…, dizem que tudo deve voltar ao normal, recomeçar, ou sei lá… Deve ser. Não é a primeira guerra, nem a segunda, mas a terceira guerra mundial. A superfície se altera, e também a profundeza. Qualquer foto, nenhuma foto capta a completo, e tu és boa em fotografar! Em fazer escorregar para as sombras o essencial e apontar…Sabes. Eu ando em desatino / flutuo. Acho / penso / imagino. Ao te escrever vou divagando sobre sensações porque acredito: voaremos, as duas, mais e mais longe a encontrar soluções. Estou perdida. Não porque a pandemia chegou, mas porque envelheço, e envelhecendo (feliz porque existo, mas triste por ter que aceitar, existe um fim) sinto os limites, as perdas, o não feito, e o tanto que poderia ser sentido, tocado e não será. As perdas do possível amado, a finitude de estar sem ter, e ao mesmo tempo com a lucidez alucinante de que ter nada significa se não somos… E este emaranhado de sentimentos e sensações balançam entre alegria e raiva, e noite no meio de um dia ensolarado. Ainda me engasga a vontade de ter um livro físico entre as mãos e dizer que fui eu que escrevi. Vontade de desenhar freneticamente os limites do que vejo fazendo o vulto / a coisa / o objeto, ou a ideia transbordar. Como percebes, quando eu te escrevo estou / fico / eu me atiro em alto mar. Segue o Amoras, tropeçando, e menos preso ao meu compromisso de alimentar com aveia, água e misturas verdes, ou frutas, ou espiadas os textos… O que posso te contar? Os dias passam rápido se venço as manhãs, e o susto me assusta ao entardecer. Eu, de natureza alegre e forte, tropeço durante a noite. Tenho / penso no passado sem nostalgia. Posse e desapego. Desinteresse. Revejo velhos textos e me surpreendo com a energia daquela pessoa que eu já fui… Persigo o impossível. Que se tornou impossível porque alimentado pela imediata tristeza de vazio. Ninguém virá, os amigos se foram, e estamos todos enjaulados. Deve ser isso o nada: ninguém virá para encantar, ou atravessar o perfume, não consigo encontrar o quintal, ou plantar jasmins, ou assistir um filme, acompanhar um jogo, acreditar que somos atletas.  E tenho tantas estranhas e fantásticas estórias para te contar! Esta distinção existe? História ou estória? De certo como o pronome “a gente” (agora usual), a gente espera / diz / faz / viu / quer saber, como a televisão apregoa. E a Lya Luft pacientemente explica que é casual o uso. Eu respondo, o francês, tem on dit…, e já me canso de pensar, e me coroo como a chata, a ignorante, a inquieta. Nós definimos quem somos, e tudo o mais é fantasia, carnaval, externo, não é nosso. Haja batalha! Sabes que me aborrece pensar que não me dei conta do tempo de apreender e fazer com atenção. Se volto atrás eu percebo o quanto fui ‘passagem’ em tudo… Sobreviver sem meta. Tenho um amigo que se dedicou ao esporte, negligenciou (diz ele) outras coisas, fez apressado a vida e / mas jogou com paixão. O jogo. Como eu o compreendo! E invejo. Atropelo enquanto te escrevo. Enfim! Acho nossas cartas essenciais. Sem medo. Eu me dou conta que quando te escrevo não sinto medo. Estou destemperada. Não tenho te escrito regularmente. Lembras? Eram duas ou três ou até quatro cartas. Agora vai este teclar num jato, verdade, mas esporádico. Vou retomar/preciso. Preciso deixar de ter medo. Deve ser ainda o medo, minha amiga. Que vocês estejam bem. Corajosos e fortes neste Rio de Janeiro que amo, tanto e tanto.

mesa um linda

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