olhos bem abertos

jnela da Claudia LINDO ENTARDECER

Amanheceu fresco depois daquele calor de quarenta graus que não
acontecia há vinte anos.
Na casa sinto-me bem. Desliguei o telefone com vagar. Guardei os óculos. Bati a porta e sai.

Carreguei a sacola: dois lápis, (o) bloco, três livros de poemas, não que eu gostasse de poemas. Levava poemas por decidir que não mais leria revistas, jornais, romances, (olhares?!) ou contos. Leria hoje poemas. Na outra abertura da (mala-) sacola coloquei uma saia frouxa, duas calcinhas, nenhum soutien; peguei uma toalha, pequena, a escova de dente, pasta e fio dental, uma calça quadriculada, duas camisetas, um casaco curto, quente. A manta de cobrir e o travesseiro.
Olhei a casa outra vez, (pela última?). E pela (através) do vidro da porta (porta de vidro janela grande, aquela porta-janela maior) que se esparramava nas dobras pela sacada larga. Ah! Não entendi o que exatamente se esparrama! O gramado?) Bonito aquilo. Olhei, olhos abertos para ver,
olhei e vi o verde inteiro. A piscina, as cadeiras brancas volteando as duas mesas, canteiros.
Bonito aquilo, O jardim quintal de uma casa (Estava) nos altos de Porto Alegre, Zona Sul. A rede que se (prendia) estendida nos ganchos atravessava um espaço largo, e (naquela) na corda espichada eu vi a roupa da casa, (de ninguém? ou) podia ser), uma peça de cada um, calça de pijama, cuecas, camisa, um vestido leve de cigana, uma toalha quadriculada. Roupa em varal conta história.
Olhei para a mesa redonda, a máquina de escrever pequena, papéis, livros
empilhados e comecei a rir. Riso frouxo. Todos tinham morrido de rir! Em que sentido? Tão rápido!  Ri bem alto até as lágrimas escorrerem e se misturarem com a histeria da euforia. E (então eu) vi por entre as árvores (eu vi) o mar, o meu mar: que estava lá, trazendo o cheiro e o sal, o gosto e o frescor.  Parecia distante.

Não. Estava perto, e me pertencia. Eu tinha o/um mar, sempre estive dentro do mar e o mar dentro de mim. Descansei o olhar. As duas mãos moveram-se
e segurei sacola, bolsa, travesseiro e coberta. Dei as costas, desci a escada e bati a porta, é do início / já tinha batido a porta, depois do telefonema.

Os cães latiram, e se sacudiram festejando. Tranquei o portão, joguei
a chave na caixa de correspondência e
comecei a voltar pra casa.

O tempo de voltar para casa nunca é bem traçado. É uma volta que se refaz a cada saída.  Eterno Retorno, o mito. Subimos e descemos indefinidas
e inúmeras vezes cabeça vazia? Obstruída. Cansada. Festejada de nada.
braços cansados. Sentido nenhum. O pelicano nos pica o coração ou puxa as
entranhas, não sentimos. O picar dói tantas e repetidas vezes que não é mais dor. Não sentimos, não sinto.
Continuado prazer de sangrar. Continuada
caminhada. Continuada vida-morta. E tanta vida! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

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