Parte um (do possível)

Parte 1

Se existem histórias possíveis, devo poder saber contar, ou será mesmo impossível dizer?

Faz tanto tempo que sinto falta de alguém a me ajudar na limpeza. Outra vez, vidros limpos, louça brilhando, armários em ordem, e o prazer, líquido prazer de encontrar. Este caos de sempre, estas pilhas intermináveis de livros, estas roupas perdidas, e a música a fugir. Como posso seguir assim? Oxalá os gramados, as árvores, os cães me chamassem para as envidraçadas casas de campo. Desconforto de caixas empilhadas. Eu sufoco, e não consigo organizar nem fazer acontecer um corpo feliz e, outra vez, gestos de vida. Confundo o amanhecer com o começo, mas já é noite antes da manhã terminar. E as tardes gritam pelo sono da noite, o sono se acovarda tão fácil! Tenho saudade daquelas tardes preguiçosas e dos travesseiros alegres: dormir era viver. Volto correndo para o colégio. As horas certas, a rotina daqueles dias protegidos. Ah! Se soubéssemos! Se eu pudesse imaginar como cada pedacinho daquelas tardes, daquelas manhãs com missa e café com leite me fariam falta! Altiva. Doce, alegre porque feliz. Não, não estou te dizendo de tristeza, infelicidade, ou qualquer falta que me faça falta. Estou bem. Não, também não é nostalgia, talvez lucidez. Clareza. Cheguei e não posso dizer nada. Na verdade, as verdades são mentirosas. Camuflar tem gosto/cheiro/intenção de mundo perfeito, de encontro certo, de fantasia. Carnaval de alegria a saltar e a pular, cantar sem pensar em nada, apenas sentir. Beth Mattos em maio de 2020 – Torres

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