esburacar o pensamento

Amigo querido, meu amigo silencioso: escrevo, escrevo espero. Talvez resolvas diferente, em sentido contrário a todas as determinações, e venhas logo me ver. Será manso, alegre e intenso. Tanto tempo! Como te digo/explico ao telefone, pode ser amorosamente silencioso. Penso que posso viajar, conhecer a China, ou a Índia. Voltar a Bretanha e entender Portugal, terra de meu avô. Talvez ficar na África, se queres. Continentes, países, pequenas cidades. Ou entrar em museus: conversar com a loucura da beleza, e bicicletar na Holanda.

Não Van Gogh não era louco, insiste Artaud neste texto inspirado, ou então ele o era no sentido desta autêntica alienação que a sociedade ignora, sociedade que confunde escrita com texto (em que qualquer coisa escrita é corpo, desenho, teatro), ela que tacha de loucura as visões exorbitadas de seus artistas e sufoca seus gritos no  ‘papel impresso’:’ Foi assim que calaram Baudelaire, Edgar Poe, Gérard de Nerval e o impensável conde de Lautréamont, março de 1946). Ora, ele afirma, a poesia de todos esses alienados, desses ‘suicidas da sociedade’, é verdadeira. Eles vão além de escavar a língua, eles  esburacam o pensamento; eles inventam a escrita de insurreição das profundezas do espírito, uma linguagem de deslumbramento dos sentidos que pulveriza literalmente os fundamentos de nossas lógicas: ‘aquele que tinha algo a dizer como Nietzsche bramou,/não construiu um sistema,/é inútil dizer que existe isso e aquilo, pois isso não ultrapassa o papel impresso’ (Histoire vécue d’Arnaud-Mômo, novembro de 1946). Os pintores de que Artaud gosta, como Balthus, Lucas de Leyde, Picasso, Masson, Dubuffet ou Van Gogh, sabem também que toda a pintura é uma fulminação do pensamento, uma perfuração do olhar, ‘dilaceramento sonoro’ (La Mise em scène et la métaphysique,1931. Ao comentar seus próprios desenhos, ele escreveu, em 1946:’ Quero dizer que temos uma espécie de película sobre os olhos e, portanto, nossa visão ocular atual é deformada, oprimida, reprimida, invertida e sufocada por algumas malversações sobre o princípio da nossa caixa craniana, como sobre a arquitetura dentária de nosso ser, […] E Van Gogh, o louco superlúcido, tem o olhar de Nietzsche, ‘este olhar que desnuda a alma’ […] Antonin Artaud Van Gogh O Suicida da Sociedade – tradução de Ferreira Gullar – Editora José Olympio – 2007

“Um dia ou outro eu acredito /eu creio que encontrarão um jeito/uma forma de fazer uma exposição minha em um café” Vincent

Não farei estes caminhos, dou passos pequenos e vou ao teu encontro para segurar (tímida) tua mão. Não escreverei aquelas histórias proibidas, nem inventarei soluções posto que não consigo equacionar o tempo, e tenho, cuidadosamente, enterrado a memória. Assim mesmo lembro do teu jeito tímido, generoso e laborioso com que agarras este hoje. Coloquei os pastéis no forno, preparei um carreteiro, vais gostar. A salada escolhida para divertir teus olhos, e as maçãs, polidas. Morangos e cerejas naturais entre as folhas. Consegui calar os livros, esconder os papéis, e deixar os lápis sossegados. Bom esperar! Afinal, como já foi escrito, as palavras servem para voar dentro dos textos, e os textos se escrevem com a lucidez louca do desejo. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

capa do livro

2 comentários sobre “esburacar o pensamento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s