ferocidade preguiçosa

Eu deveria levar a vida/ o tempo com mais seriedade/empenho. Encarar/olhar/fazer o trabalho. Aceitar a seriedade das horas, e não me deixar levar assim, nauseada pela preguiça deste nada voluntarioso. E fico a conversar/dizer/cavoucar/ pensar nos livros lidos. Mastigar a sopa. Isso. Ou seja, não fazer nada, sequer um projeto. Eu não me levo a sério, mas apenas me identifico… Estes dias mencionei Henry Miller / ora, ora como gosto! Não da pornografia, nem do excesso, mas da coragem, daquele desenfreado modo de escrever. Um voluntarioso  fazer como explica / diz  Georges Perec no seu livro de memórias: W ou a memória da infância (p.54) “Não sei se não tenho nada a dizer, sei que não digo nada; não sei se o que teria a dizer não é dito por ser indizível (o indizível não está escondido na escrita, é aquilo que muito antes a desencadeou); sei que o que digo é branco, é neutro, é signo de uma vez por todas um aniquilamento de uma vez por todas.”

Pronto! Já foi escrito. Ou dito. Este branco passa batido se preparando para ser preenchido por um desenho qualquer, de uma janela qualquer, ou de uma porta, ou mesmo da água do mar/ da lagoa / rio em movimento. Onda, areia! Céus! O desenho com a cor do vento, ou da ventania, se avermelhando e acastanhando, fervendo no amarelo, nos arroxeados da paixão. E estou outra vez lânguida e entregue. Sigo aquele ruído brejeiro que as teclas me proporcionam: o teclado do piano, o som das cordas. E pronto. Escrevi. Pois é, eu não ia mencionar Perec, coisas do acaso. Ao acaso este livro voltou às minhas mãos. Preguiçosa abri o livro:a preguiça já agarrei/tomei emprestada do Miller, verás. E lá estava escrito:

É isso o que digo, é isso o que escrevo e é somente isso o que se encontra nas palavras que traço e nas linhas que  essas palavras desenham e nos brancos que o intervalo dessas linhas deixa aparecer: por mais que eu persiga meus lapsos ou passe duas horas matutando sobre o comprimento do capote de meu pai ou busque em minhas frases, para evidentemente logo encontrar as ressonâncias miúdas do Édipo ou da castração, sempre irei encontrar, em minha própria repetição, apenas o último reflexo de uma fala ausente na escrita, o escândalo do silêncio deles e do meu silêncio; não escrevo para dizer que não direi nada, não escrevo para dizer que não tenho nada a dizer. “[…] da mesma citada página 54, do livro mencionado. Folheando ao caso, voltando ao que assinalei, relendo anotações daquela específica leitura / daquele ano. Eu me vejo, idiotamente, repetindo, misturado o mesmo, com o mesmo. É como contar uma mentira tantas, e tantas vezes, que ela respira, sai andando com autonomia. E assumi o teu lugar. Ali naquele discurso, nestas palavras, neste vazio de não conseguir ir adiante. Claro! George Perec segue, consegue/ escreve / vai adiante: tem obra, plano e trabalho. Uma artimanha, armadilha este texto. Pausa. Dos que tem muito a dizer e contestam, escandalizam, afrontam, reclamam, descrevem e retratam, desenham, pintam o tempo de desenhar. E tudo começou com o livro do Henry Miller: Dias de Chichy uma Noite em Newhaven. Ele escreve / descreve / sente e se derrama maravilhosamente / escandalosamente bem. Em Miller as palavras são coloridas, não há espaço, mas suor, tensão, tesão e envolvimento. Como o Henry Miller dos Trópicos (leitura necessária) para não citar o trem inteiro, ficar apenas na locomotiva.

Conversávamos muito sobre coisa nenhuma. Ela nunca dizia nada que se aproveitasse. Não tinha aspirações, sonhos, desejos. Era alegre como uma vaca, obediente como uma escreva, encantadora como uma boneca. Não era estúpida – era burra. […] Nys, ao contrário, não era nada burra. Preguiçosa sim. Preguiçosa como o pecado.Tudo o que Nys dizia era interessante, mesmo quando sobre coisa alguma. Saber falar bem sobre coisa alguma é uma qualidade talvez superior a falar pouco com grande inteligência. Na verdade, essa habilidade parece – me de primeira ordem. Contribui para a alegria da vida, enquanto que a conversa extremamente culta contribui para diminuir a nossa força de enfrentar a vida, tornando estéril, fútil sem sentido prático aquilo que é simples.” (p.43) Edição da LPM

Eu me apaixono pela irreverencia, pelo esforço. Capacidade de pulsar a vida. Coisas de confissão. Escândalo por estar o tempo todo despido, teclando, em volta de mulheres a pensar sexo, e assim mesmo escrevendo, teclando com ferocidade, bebendo também, e se desesperando quando a máquina de escrever acaba penhorada. Escrever é vício. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

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