VIANNA MOOG

Em que consiste a literatura brasileira?Terá valores estáveis e permanentes capazes de sobreviver às transformações por que o mundo está passando? […]

Em suma: uns mais, outros menos, consciente ou inconscientemente, todos agimos dentro da órbita de nossos núcleos culturais. […] Fora do seu núcleo cultural o escritor, a menos que o traga entranhado na alma, quaisquer que sejam os caminhos que a vida lhe reserve, corre o risco de corromper-se. Conserva a habilidade, extingue-se-lhe, porém, o fogo interior. O homem sem núcleo cultural, como o sem religião e o sem pátria, é uma utopia, quando não é uma indignidade. Ai dos que se deixam moralmente desenraizar, dos que não trazem em suas vestes a poeira imponderável do seu núcleo de província, essa poeira de cultura que não está somente nos livros que lemos, senão também no ar que respiramos, nas imagens que contemplamos, nos tipos humanos com quem convivemos, nas cruzes que velam o sono de nossos mortos sagrados, nos sinos dos campanários de nossas aldeias, nas virtudes e nos defeitos dos lugares de onde partimos. As ideias gerais e universais, certo, são excelentes, mas passada a hora das filosofias e das utopias – e elas passam terrivelmente depressa – sem os denominadores comuns de nossos núcleos culturais, sem o eco dos mundos de nossa formação, ficamos tateando no vácuo, vazios e sem destino.” (p.88) Vianna Moog – Uma interpretação da Literatura Brasileira

Na verdade, estupidamente, tentamos fugir da origem / do embalo da mãe, da calçada, da casa onde nascemos. Escondemos quem somos. Nós nos qualificamos para fugir da cozinha, e nos instalarmos, definitivamente, na sala do piano, atrás das obras de arte, dos tapetes persas, dos bons livros e das louças vindas da Índia. A cultivar antúrios e begônias.  A pensar nestas questões.  Apostar neste “levantar acampamento”, sair do interior para a capital, ou se interiorizar, ajuda? Cortar raízes, e podar ramos/galhos desnecessários, renovar. Calar o que não serve. Raramente agregamos. Sociologicamente o Moog  tem razão: não há saída porque seria a inconsistência. O ‘fogo interior’ está neste voltar para casa/ reconhecer as origens e desenvolver / cultivar o jardim. ‘ O ‘fogo interior’ está em descobrir/saber quem somos. Com certeza. Reconhecer o berço e o embalo dos pais/e do país. As linhagens, intelectuais ou sociais, existem, claro! Não há como esconder/nem como escolher, mas conhecer. Ou ‘passar panos quentes’.  A sofisticação está logo ali, na vivência, no abrir dos olhos, no jeito de caminhar, de servir o café, de lavar a roupa. Sutilezas do olhar. Ou ser, para sempre, o estranho do ninho. O imigrante, o emigrante. Não despatriado, estranho, estrangeiro de fala engraçada. Há que se reconhecer… Serei radical na posição? Acho que não. Atravessar um salão, enfrentar um baile, frequentar o mundo, não é fácil, nem generalizado: treino. Escrever um livro não te salva, ajuda. Pintar um quadro não te coloca nas artes, mas dá prazer. Não consigo entender o porquê deste tudo/deste todo. Parece que o vento vai limpar tudo e trazer uma chuvarada grossa. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020.

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