negligente e distraída

Horas, vagares e possibilidades…, sobrando. Escrever e cuidado, tão pouco! Derramar o vinho, o leite, toda a água e esperar. Talvez a chave seja esperar. O outro lado da lua. Há um nonsense nesta epidemia. A reclusão abre as portas para ser Eu, eu com letra maiúscula, escorrego sem interesse. Abro as gavetas a procurar alegria, disposição. Boa vontade, mas um certo desencanto, a frustração se impõe. Será que estou vendo mais do que deveria ver / alucino? Duplico o real? Olhos abertos. As coisas como elas são, ou deveriam ser, mas quero mais. Cansaço localizado na ponto dos pés. Caminhar, caminhar, deixar as pegadas para voltar, tolerar. Estou exausta, mas sequer saí do lugar. Culpo o frio. Este cinzento misturado no céu a desvendar um dia que se esconde gelado. O mistério do inverno se prolonga.

Arranco pedaços da leitura: ” uma das mãos sonhadora em seu colo de estampa colorida” (p.235) Nabokov / Lolita . Especial a roupa descrita desta forma. Depois uma coleção de recortes: lassidão amorosa, na lucidez dos meus ciúmes, fico alguns segundos a pensar no ciúme, sentimento cortado, maligno, e ainda lúcido? Em que momento da vida somos lúcidos? Ao casar? No primeiro baile, ou quando a amiga morre e o amor termina, porque nunca existiu, quando lavamos a louça somos lúcidos, não fazendo amor. Será que a lucidez te agarra quando a desilusão chega? …ensolaradas ninharias, duas palavras fantásticas. ” […] “abarrotado de crianças e do hálito quente das pipocas“. (p.199) Maravilhoso! Sessões de matinée. E constato: não apenas uma ideia, ou um enredo, uma história. Um autor/poeta/escritor nasce de uma semente cuidada. Há que se somar educação, meio, estudo e estudo, conhecimento linguístico de um idioma, dois e três… Então, o que já sabemos surge numa roupagem de purpurina, lantejoula, bordada e rebordada, numa renda feita por mãos mágicas. E das leituras guardadas /absorvidas/ revolvidas… De escrever escrever, não um livro por ano, mas uma vida para o brilho. Uma linha, um acaso depois depois ocasos…, este fazer que se parte dividido, mas uno. Alucinante experiência de encontrar a conjugação sonora de um verbo conjugado em todos os tempos e modos, com a sofisticação peculiar a gramática, ao som música/sonata/melodia de um tempo. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020- Torres

Ainda estes retalhos: “zebras encarnadas” “vozes luminosas” (p.87) ou, ” Embora eu jamais conseguisse me acostumar ao estado de ansiedade constante em que os culpados, os grandes e os mais sensíveis costumam viver, julgava que estava fazendo o melhor possível em matéria de imitação.” Ainda.”[…] “e para baixo na Thayer Street em sua linda bicicleta novinha: pondo-se de pé para pedalar com mais vigor, depois mergulhando de volta numa postura lânguida enquanto a velocidade se esgotava; […] apertando a língua contra um lado do lábio superior enquanto dava impulso com o pé, e novamente lá ia ela, debaixo do sol e das sombras claras.” (p.219) “uma dor surda n própria raiz da minha existência”(p.66), “fim-de-mundo, a solidão, os antigos pastos encharcados“(p.173). Ou “irrupções de flores azuis” (p.183). Ou esta descrição: “tédio desorganizado, queixas intensas e veementes estilo escarrapachado, descuidado”(p.172). “firmeza, à maneira de meninos desordeiros” (p.178) também quero encontrar o “jardim de magnólia“. Vladimir Nabokov – LOLITA – tradução de Sergio Flaksman – posfácio de Martin Amis

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