Conceito de Arte

Forma e cor, vida interrompida. Beleza dos ovos de codornas. Prisão, exílio. Sacrifício. O olhar aprisiona a beleza, conceitos engessam, limitam. O lápis desenha no papel o curso, mas não explica: o colorido da terra me atrai. Vontade de pintar, colorir, registrar o olhar sem palavra. Não o que estou vendo, mas o que se esconde atrás do olhar, do pensamento, da risca fundamental. Atrás das fatias oferecidas pela vida. Afinal! Estou viva. A memória vai redefinir escolhas escolhidas, pontuais. E também aqueles pedaços fisgados… Penso na mãe e no pai. Ela desenhou, poetou, avançou e dirigiu o foco, atuou na vida das filhas, tomou decisões. Ele me quis perto, na mansidão do olhar, nos segredos entregues, e nas leituras de história/filosofia a dividir. Escuto o pedido dele, que eu fosse a Torres,, por um fim de semana, por uma semana… um par de dias. Submissa ao casamento, obediente ou aprisionada. Não fui. Ele morreu após cirurgia, assim, às vésperas de ir pra casa. E não seria Torres…ele deixa o sonho para trás, também o lugar da liberdade, da autonomia. Está tudo definido. Há mistério desvendável neste morte sadia. E eu me pergunto: o que, o que exatamente, ele queria ter me contado? Aquelas tesouras guardadas… Os embriões. Na outra vida estarei presa nos nossos olhos inquietos, esticarei a mão, e respirarei outro tempo de amar.

Para definir Arte seria preciso definir Vida; o mesmo é dizer que é impossível definir Arte. Todos os esforços neste sentido tem conduzido, invariavelmente, a resultados nulos: fracasso confessado por muitos filósofos da estética. Recordemos que, no próprio campo das matemáticas, que é um terreno muito mais favorável, os mais competentes geômetras discutem ainda hoje sobre o sentido e o significado da definição – fato que, seja dito de passagem, nos conduz ao regressus ad infinitum. Os esforços heroicos realizados por Peano e outros para definir o número (um) são célebres; e os comentários de H. Poincaré a respeito desta definição, não menos célebres. Já, de resto, dizia Pascal, a respeito da definição de tempo, que nada há mais frouxo do que os discursos daqueles que querem definir estas palavras primitivas;…e por que tentá-lo, pois que todos os homens concebem o que querem dizer, ao falar do tempo, sem que seja preciso designá-lo mais? as definições, diz Pascal, são apenas feitas para designar as coisas que nomeamos, e não para mostrar delas a natureza.” (p.9-10) Abel Salazar O QUE É ARTE?

Coisas que nomeamos: e eu penso. Vida nominada e numerada, nem sempre precisa: memória caprichosa, voluntariosa. Escorrego presa ao invisível alegre: felicidade. A lembrança específica empurra a memória, impulsiona: trabalha como o mar-, fluxo e refluxo. As datas seguram, um ano, um mês definido por estações, por dia e noite ou vão redesenhando…

O meu olhar busca o detalhe, quer encontrar a força escondida. Procura alguma coisa que movimente a estagnada certeza de tempo a passar, a passar, e a voltar. Caminhar guloso, insaciável. Rápido e (incrível!) indefinido. Faz muito/tanto/ indescritível vontade violenta de sair/viajar. Viajar ou me perder para voltar renovada… Ir ao encontro de. (Não sei exatamente o que vou procurar, voltar a França?). Anotar o olhar. Observar. Fazer uma mala/valise. Ir ao extraordinário desencontro de mim mesma. Quebrar esta quietude. Visitar filhos, caminhar, voltar, ou ir…Talvez ao Canadá ou a Petersburgo. Reencontrar o Marco. Conhecer a Itália. Marco Frignani, onde estás? Descobrir/reencontrar os olhos azuis. Na Austrália, no Canadá? Por onde ele andará/viverá… O que importa agora/dentro de mim a certeza, não sei. Não sei. Larguei o possível. Era possível. Mas eu já “envelhecia” ao galope, prematuramente. Como entregar ao seu futuro a vida pronta como a minha vida, já riscada por um traço definido: ainda poderia escolher novas cores, nuances: marrom, verde, vermelho, laranja, e bastante amarelo, poderia fugir da linha, e encontrar o risco. Desfrutar juntos do imponderável. É o medo. O medo de ser responsável. Como posso não falar italiano? Tantos anos de certeza pacífica! Lembrei das flores a me esperar em casa depois da cerimônia da formatura do meu curso de Letras. Flores e telefonemas, e possibilidade. Ir ao seu encontro em São Paulo. E fomos, Sonia e eu, ao mercado das flores, a noite paulistana iluminada. Estivemos juntos sem estar. A minha decisão amarrada. Os presentes surpreendiam na delicadeza, como as cerejas vindas direto de Modena, o meu medo rígido arrancou a ternura. Bandeja de cerejas frescas. E o urso branco? Entreguei para as crianças: Montevidéu, Buenos Aires. Endereços misturados. Mistério alegre dos endereços: rua Prudente de Morais , Ipanema, frente ao mar…, rua Viúva Lacerda, Humaitá e o Cristo Redentor. Márcia lembra deste tempo das saias ciganas: mimos delicados/sofisticados/imprevisíveis e naturais. Procuro encontrar o ângulo da beleza. E vou/irei ao México. O que tenho de mais belo foi/é sua escolha. Irei a Itália. Irei a Holanda e terei tulipas.Voltarei a Montevidéu a visitar nossa morada em Carrasco. Lembro das colegiais com suas bicicletas, Cronope, a grande praça das delícias. Pocitos com bons restaurantes. Aquela entrada triunfante no restaurante Floreal em Punta del Este. A loucura das motos possantes.Voltarei a Buenos Aires, nos mesmos hotéis, entrarei nas confeitarias e nas livrarias. Irei a Bariloche, no inverno e no verão. E não estaremos juntos. Aquelas despedidas esquisitas que a vida oferece, e, depois de entrar e sair das histórias faço um recorte tecnicolor.

Pessoas certas, pelos caminhos perfeitos. E agora, a pensar! Como nos conhecemos? Meus amigos da Aliança Francesa Aldinha e Ronaldo, Olívia e Paulinho, o encontraram/conheceram na estação de inverno de Chamonix, França ou Itália? Todos cariocas, na volta a festa/jantar de confraternização, e eu fui incluída. Sim, eu não pude ir. Trabalhava no Colégio da Providência, em Laranjeiras, mas ainda estudava, concluía meu curso, não tinha como fazer esta viagem… Penso a felicidade, a leveza! Grudada na retina, pronta. Fui/sou insaciável, quero mais e tudo. Os livros roubam a alma, e perco o limite, a linha do finito: nunca o suficiente. Este plural vai a me consumir aos poucos. Lembro quando Marco me trouxe uma coleção de autores importantes. O cuidado. Ainda não li todos. Não fui ao México. E não passei por todos os nossos sonhos. Elizabeth M.B. Mattos (era/assinava, naquele tempo, Elizabeth Menna Barreto Moog / trocar o nome com os casamentos) – setembro de 2020 – Torres

Marco, eu e Pedro em Ipanema

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