envelheço ao/no galope

Leitura inacabada: dispersa, frouxa e livre em ritmo próprio. Associações brincam/gritam e escutam desparelhas, únicas, nossas. Leitura que se alarga com palavras coladas ao texto: diferentes. Onde estou? O que faço nesta cidade sem mar, sem estrelas. Luto. Estranhamente recomeço menina: novo o teu abraço, o brinquedo, as crianças que fomos dedilham o piano na casa de Dona Ondina. Elizabeth solene e séria. Tu desconfiado. E me descobres solta. Estranha irreverência: a velhice permite. E lá estás menino quieto, risonho. O que achas deste texto sem contexto arrancado assim da insônia?

P.S. Síndrome deste envelhecer: doença. Sempre a envelheço ao/no galope.

Morri tantas vezes antes de morrer – morri sempre que o amor parava, e o amor estava sempre a parar dentro de mim. Parava e crescia, comia tudo o que eu sabia. Eu imaginava frases novas como barragens contra essas vagas que me levavam. Mas as barragens caíam, eu voltava morta à praia, renascia a tremer de frio, na noite marítima. Então construía de novo minha barragem, agarrava-me aos meus mortos passados, presentes e futuros, envelhecia e renascia, engelhada e Sôfrega. Falava.Falava incansavelmente do que sabia e do que desconhecia, esperava que me mandassem calar para ouvir apenas o vento das palavras definitivas dançando como uma louca descabelada nesse opaco interior do meu corpo. Onde está agora o amigo imaginário da minha infância solitária? Morava-me no fígado, nos pulmões, no estômago e no sangue. O caos era temporário, porque esse amigo imaginário existia, conferindo realidade à minha vida. Há tão pouca realidade numa vida – bocados desgarrados da história, pedras voando pelo ar, chocando-se na estratosfera, curto-circuitando os nossos propósitos.  Amava esse curto-circuito, provocava-o. Para que a perfeição pudesse atingir-se como um só jacto de riso – louca brincadeira de um Deus trocista e permissivo. Ah, os jovens só pensam em sexo, dizem os que só pensam em sexo, já não sabem amar, dizem os que já esqueceram os nomes dos que amaram, os que só amaram nomes, os que só. Tu não estás só – não me sentes, real amiga imaginária? Distribui a dor que te deixei pelos famintos de dor, meu querido, pelos que não experimentaram ainda a mobilização do sofrimento. Faz-me existir nesse trabalho de conferir beleza aos dias póstumos. Havia uma criança abandonada chorando por detrás de uma porta, no centro da nossa cidade.” (p.54) Inês Pedrosa Fazes-me falta

E eu não consigo dormir, ainda não.

 Li mais um pouco/outro pedaço. Avanço neste Portugal. Não é o nosso Portugal. Numa divagação perdida num desfazer vazio lá de dentro, penso. Como se tudo que eu carregasse agora estivesse preso numa lembrança pequena de menina. Pedaço inexplicável onde a vida grudou um ímã; atraiu o encontro. Súbito, eu me sinto estranha. Força definitiva – tátil. Cautela. O que estamos, nós dois, a fazer? Tu na tua vida presa, e eu na minha escondida. Quando poderemos sair/estar soltos e inteiros? Fazes-me pensar na surpresa que somos tu e eu para nós dois. Nicho perfeito, associações esquisitas. Traçar a ideia de desencontro encontrado: no jogo das palavras não escritas, fechadas. E eu que aqui me escondo, fujo e apareço. Tu dizes. Sinto um frio gelado enquanto os olhos se fecham e a noite avança. É fácil e possível o momento.  No outro, tropeço nas menores contagens de fonemas, e vou vagando nas notas musicais que estouram.  Onde estou? Estou feliz, em casa. Na minha Porto Alegre, alegre. Volto para a cama e vou brincar de fechar os olhos.  Comi tantas / muitas vezes, muitas vezes avancei na geladeira, assim não emagreço, mas já é amanhã. Elizabeth M.B. Mattos – Porto Alegre – 2005

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