quando leio Elizabeth

Bule de Chá parece ser um ponto da minha relação… Eu gosto e ela não gosta.  Normal!!  A vida vai se amansando e vamos tocando as obrigações contra o tempo e escolhendo qual nós vamos eliminar da nossa extensa lista…

Li o seu texto e cada vez que leio a Elizabeth fico pensando que o seu texto reflete a sua vida mesmo.  Transitas pelas coisas e fazeres, tanto na rua quanto no seu quarto, mas fazes de tudo um pouco, mas não terminas nada. Talvez para poderes voltar àquela coisa ou fazer, para pegar um pouquinho de cada coisa sem perder as outras. Segues floreando a vida em pedaços e partes nem sempre contínuas. Acho que sou muito parecido contigo. Não tomes como crítica, mas tome.  Lendo os seus textos me parecem sempre os mesmos. Mudas o local, os detalhes, mas a história é sempre a mesma. Retalhos. Minha vida parece estar bem parecida com isso.  Giro, giro, giro e estou no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, enfrentando os mesmos problemas de sempre. Acho que não mudamos e temos a ilusão de achar que mudamos. No fim somos nós mesmos.

Tens razão neste ir e vir ficando no mesmo lugar… Detalhes de um grande vazio? Um ponto, um texto. E todos juntos, a vida. Variante ou limitado?  Uma tela preta, um ponto branco, pode ser nada e um imenso e novo olhar de dentro para fora, a explosão…, ou o começo. Bule de chá vermelho pintado/imaginado/idealizado, ou descrito. O começo. E nada. Tens razão. Parece ruim, mas nem tanto… É o olhar sob o objeto, sob o texto, ou perdido. Algumas afirmações na entrevista de Philip Roth com O’ Brien me fizeram pensar, e te escrever. A leitura dá estas voltas, instiga, desafia. Como ir ao baile de fantasia todos os anos com a mesma fantasia, mas nunca será a mesma sendo. O livro. Imaginas ir ao mesmo baile (anual) trocas a fantasia, o autor. Nós diferentes e os mesmos. Que bom teres escrito! Hoje vi o filme francês Entre os Muros da Escola: impressionante. Voltei (entrar na história/estar no meio da emoção/ doer junto faz parte) estupefata! A imigração, a integração. Eu na vida do outro, o outra na minha vida: explosão. Adaptação cruel, necessária, a única possível? Violenta, palavra certa. Todas as adaptações se assemelham… Como a banal relação de homem e mulher: nem sempre falamos/dizemos/temos a mesma língua, o mesmo manejo, somos do mesmo quarteirão, mas nós nos desejamos. A comunicação atrelada aos princípios: há que encontrar o ponto comum para saltar/começar e recomeçar. Adaptar, retomar referências: vencer barreiras, às vezes, intransponíveis como mostra o filme, (serão?), e também soluções e leveza ao final da batalha.

Não somos diferentes. Tu e eu nos sentimos menores porque não temos o resultado em cifras, o dinheiro importa sempre. Sabes o que encontrei dentro do livro GOG de Givanni Papini?  Nove mil cruzeiros. Dinheiro de aulas particulares – Santa Cruz do Sul. Acuada pelo casamento falido, trabalhava para poder ir embora. Guardei dinheiro dentro do livro, certeza de que não esqueceria. Paguei um preço para sair desta relação. E o dinheiro, não sei quanto seria hoje. E a contabilização? Perdi, foi complicado, mas decidi que irei em frente: deixei enterrado naquela casa juventude, alegria. Levei comigo coragem. Não sei quanto em valor perdi, quantos reais… Torres esperava por mim: caverna, refúgio, ar e terra, mar. E o quanto tenho deixado para trás? Consegui sair da casa, daquela vida. Um preço. Sempre etiquetando. Tens razão, eu estou sempre a me colocar na liquidação. Os outros são/tem os melhores resultados. Repenso a vida e na outra vida: carros, casa, restaurantes, etiquetas. Eu sigo entre o quarto e o quarto. Não contabilizo mais, ou ainda… Assim mesmo, ao te escrever, eu me sinto ótima. Por quê? 

Amanhece. Penso.. As pessoas que admiro tem melhores preços, lucros. E talvez sejam melhores do que eu, ou não. Mais felizes…  Como escreves: No fim somos nós mesmos. E diferentes. Não sei se melhor ou pior. Apenas diferente. E sem dinheiro ( seguido arrepio, parece que não saio do lugar. Vive-se a supervalorização do dinheiro como medida de boa vida. Pensa. Se morássemos numa cidade de pescadores ou uma ilha: pescaríamos, entraríamos no mar, dormiríamos na rede. Seria como o homem que ascende o farol… Morar no farol poderia ser iluminar? E acordaríamos com o sol, dormiríamos com a noite… Parece igual, mas não é… Outras pessoas atravessam ruas, enfrentam o trânsito, comem, às pressas, olham e conversam com as mesmas pessoas, equacionam e resolvem outros problemas, nós pescamos o peixe. Para eles não basta o peixe, querem o peixe limpo, cozido… Trabalham de sol a sol para comerem o mesmo peixe. Dificuldades e escolhas diferentes. A grande história, o grande romance, o sucesso ou o fracasso na ponta/ no meio/ no fim da vida… Adaptação sufoca. Somos todos sobreviventes. E sabemos que não tem pote de ouro pra pegar no fim da rua, não na nossa rua…Todos os dias já, já dia vencido. O tempo atropela… Ainda não compreendi a diferença entre comprar o bule vermelho porque é belo (beleza, aliás, importa e percebo), e ou comprá-lo como utilitário? Ou ainda não comprar, apenas ficar desejando…Esta coisa de não valorizar o fazer, mas o ter/possuir. Não tenho o bule vermelho. Enfrentar os mesmos problemas num tempo determinado de tempo, não toda uma vida do mesmo jeito… seria simplificar demais, a questão do circular. Acorda! As vitrines, não têm todas, os bons produtos, algumas estão vazias (estilo), mas nós nos vemos/olhamos e desejamos a distância. Desejamos porque a vitrine sem mostrar, exibe. Parece, mas não é, para saber/escolher/ querer isto ou aquilo, e mesmo sem precisar queremos. E o que importa? Nos dar conta precisamos apenas saber/conhecer…, pois é. Absurdo, mas antes de ver, saber. Acho que tu tens apreendido muito sobre qualidade. Eu te amo. Como vês pela hora, perdi o sono. O filme me agitou…Tanto quanto o livro do Roth… Um beijo. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

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