engodo, desmonte, sucateamento, imundice igual ao igual
Mês: setembro 2020
POEMA PARA QUEM FICOU
“POEMA PARA QUEM FICOU
Eu sempre estive de partida. / Ensaiei por anos, um pouco/ minha despedida./ Você ficou triste e não entendeu./ Nunca soube que eu me preparava/ para alçar o voo que tanto queria./ Ficou me esperando sem que eu pedisse./ Pensou numa história que não era a minha/ e ilustrou um texto que nunca escrevemos./ Se hoje me procura você não me encontra/ pois sou diferente do que já vivemos. / Fui me transformando pela vida afora./ Lembro do passado, mas vou caminhando,/ abrindo uma estrada/ e comigo levando/ quem me vê inteira/ quem me sabe forte,/ quem me quer guerreira.” (Carmen Lícia Palazzo)
Poema intenso, preciso. Como gostei! A certeza de que a caminhada importa, e que os registros ficam, o passado soma no presente, e já somos outra…
céu e inferno
O inferno existe. O céu azul e, infinitamente, generoso, ilusão. Aprisionado e encurralado o homem não desiste, mas morre a gritar/protestar. Por um momento a ilusão da vitória, por um momento, apenas um momento. Contante ameaça. Se chego/entro no jardim, não encontro margaridas. As rosas sangram os dedos, e, as frutas a se deteriorar.
Na política, no poder, na ambição mal cheirosa, a guerra continua… Se houve roubo, desvio, imundice, Água Sanitária resolve: o banheiro branco, desinfetado…, mas só por um momento. O Diabo espia /prepara a volta. As condenações podem ser anuladas / o céu da tempestade oscila, os raios não racham a terra. Susto! Alívio! Susto outra vez. O desgoverno, e o bolo de chocolate. Os ratos tomam conta, afinal os gatos dormem. Casas vazias.
Preciso comer, preciso precisar, abaixo a guarda…. E, tudo volta a ser como antes. Desânimo com o desgoverno. Será que houve algum tipo de limpeza, ou vitória? Tantos anos! Tão frágil e complicado este governar/ordenar/ dividir/ distribuir e cavar. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2020 – Torres

do sonho pesadelo, para a vida
do sonho pesadelo, para a vida

terapia
A possibilidade de remexer nestes sentimentos já estraçalhados, destas constantes fugas, deste desespero colado na pele pode ser a dor daquele vazio tão mencionado, tão sem sentido porque inútil, e a enorme grandeza do nada. Todos estes anos e outros passados e futuros anos terão o mesmo efeito degradante de inferno. Existe um tempo colorido, os pintores sabem descrever o que as palavras não dizem quando usam cinza, preto, marrom, e aquele escuro infinito de onde surge uma nesga de cor / luz, o grito corre para aliviar o aperto de tanto tempo apertado. E a ideia de liberdade se ludibria com uma prisão maior, a gentileza e excessivos maneirismos. Quando posso respirar, e o ar corresponde aos pulmões eu estou apenas comigo mesma. A claustrofobia chega com as portas e as janelas trancadas, mas também com os olhares e as vozes: pessoas, pessoas, e pessoas. Gente. Elizabeth M.B. Mattos – gosto de 2020 – Torres
A noite se acomoda melhor no meu dia / os sons invertidos numa brincadeira de ser eu.
pesadelo
Uma lembrança lembrança ruim atropela outra, como se tudo fosse de um horror absoluto, sufocante. Como pude não ser o suficientemente lúcida? Segui a perder pedaços, atrás de uma libertação escravizada. Precisei levantar para escrever. A memória pode ser um saco escuro de opressão. A angústia de estar presa, numa sala fechada, sem janelas nem portas. Ainda não estou acorrentada, mas logo estarei. Todos os movimentos são vigiados. E sinto um horror crescente, preciso me livrar do inverno – inferno deste sentimento. Todo o conforto, todas as minhas vontades feitas eram o invólucro. A voz, o olhar pedinte, aquela presença presente, vigilante sempre me oprimiu/oprime e aperta. Acordei deste sonho pesadelo entendo bem como foi, o que me alucinou nesta convivência: sempre a querer que todos da casa corressem, fizessem: a tirania. Precisávamos estar/ser vigilantes, atentos: a lenha empilhada, a casa limpa, os cães silenciosos, os pratos limpos, as camas arrumadas, e as visitas aos borbotões. O lugar certo de cada coisa certa, um pesadelo que se aproxima ao ronco do carro. A hora certa, o vestígio a ser eliminado, todos a correrem para servir. Uma exaustão completa me acompanha, não posso lembrar. A escola o paraíso, a casa o inferno. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2020 – Torres
E nem sempre temos para onde fugir. Um lugar para ser apenas o lugar. Assim mesmo demorei muito/demais para sair. Ainda me assusto com a campainha tocando. E mesmo quando espero alguém, uma ansiedade estranha senta e levanta comigo. O ninguém, o insperado pode ser a surpresa. A opressão diante da possibilidade cordial de alguém a me surpreender. É sempre um fardo a voz, a presença, o outro. Ruído, voz, presença, ou a insistência me sufoca outra vez. Todos os passos, batalhão que me aniquilará. Ainda pesa / oprime/ sufoca e me atinge. Ameaça o som da voz amolecida, do olhar enviesado, da sedução constante: tudo me apavora. Muitos e muitos e muitos anos de terapia não conseguiriam me livrar deste horror!