intensidade possível em fatias

1.

Sendo primavera a beleza explode. Depois a ventania carrega pétalas e esparrama pelo gramado. Corre de lá para cá, mas, assim mesmo fica mais tempo imóvel do que o esperado. Eu me pergunto do pensamento: desdobrado em quantas intensidades possíveis? Cabelos embaraçados pelo vento! O avental, como se fosse possível proteger o vestido quadriculado em dois tons de sol, vejo a barra branca que bate nas suas canelas, inútil. Está descalça, e os pés embarrados… Talvez esta menina seja eu mesma, desconcertada com sentimentos embaralhados.

2.

Onde está a fronteira entre sonho e memória? Alguns autores conseguem desenrolar a história/a narrativa dentro da reflexão/ideia/ pensamento como se nada estivesse emaranhado por uma trama. Segue-se o fio e as ponderações na história ela mesma. Yukio Mishima, um mestre.

No passado, Honda gostava de falar sobre os dias que vivera com Kiyoaki.” (p.10) Cavalo Selvagem

No passado o amor pode ser uma tarde no escuro da matinê, um pacote de balas Jujuba. Caminhar até o domingo a conversar conversa: aula de história, recreio da quarta-feira. Músicas. Nossa última reunião dançante. Jogo de vôlei, joelhos esfolados. “Mas à medida que o homem envelhece, a lembrança da sua juventude começa a agir como uma verdadeira imunização contra futuras experiências.” (p.10) Envelheço sob protesto, agarrada em boas memórias. Escondo as péssimas. No balanço semanal, mensal desta contabilidade, concluo: sempre estou na linha de batalha. Acredito, nem sei o porquê acredito, esta solidão devastadora aperta, nunca se desfaz, alimenta (eu suponho). Estar com o outro, na minha vida, foi acreditar em soluções, não no amor. Ah! Como eu me sinto, especialmente, cruel. A voz da comunhão abafada na sobrevivência me julga/aponta como uma pessoa má. Quero estar no éden, ou naquele lugar que se nomina paraíso, mas arder no inferno parece o normal. Desencontros essenciais à massa do bolo, não importa se é de chocolate, nozes ou morangos. O prazer se esconde em detalhes insignificantes! Ou nas frestas do sol, do vento, da chuva…Ou seja, se esconde na respiração. Não é tangível, nem claro, nem tátil: sobreviver. O esforço de saltar/sair da caixa em que me acomodei, onde escondi as vergonhas… Peço ao diabo a tampa e lhe rogo: use pregos. Não adianta a solução. Eu uso a imaginação, músculos, a reza. O tempo se alonga. Gosto da vida do jeito desencontrado que se apresenta. […] “imunização contra futuras experiências” escreve Mishima. Crescer na caixa traz/faz/ dá sérias lesões, deformações precisas, e até conceitos de defesa. Então, eu vou ser feliz do jeito que eu sou. E a eternidade estará amarrada no momento, neste hoje de primavera, de flores fotografadas, de mar, de pedras, de mar, de luz, de pedras, e afinal, de amor. Fico a ler Mishima com um prazer doente de tanto prazer, tanto transbordamento: […]” – uma idade em que a pessoa se sente estranhamente despreparada para dizer que já viveu, mas reluta em reconhecer a morte da juventude. Uma idade em que o sabor das experiências se torna um pouquinho amargo, e dia a dia se sente menos prazer nas coisas novas: uma idade em que o encanto de cada diversão logo se desvanece. Porém sua devoção ao trabalho o protegia contra as emoções. Honda se apaixonara por sua vocação, estranhamente abstrata.” (p.10, ainda) Yukio Mishima-Cavalo selvagem

3.

Os anos de internato acenderam a alma. Obedecer às regras, quarto para guardar intimidade e fantasia. Livros nas estantes. Lápis apontados. Cadernos em ordem. Um lugar para ser eu comigo mesma. Silêncio dos ciprestes, caminhadas, recreios musicais: lembranças se harmonizam. Ainda espero o mestre. Éramos poucas, menos que trinta alunas internas. Madres Agostinianas, para mim, perfeitas. Missa diárias (não era obrigatória), mas me atraia, eu participava. Singela capela. Cantos gregorianos. A comunhão. Estávamos a salvo. O mundo a ser conquistado. Intimidade colorida. Aulas de jardinagem, costura, ou modelagem nos mantinham num fazer contínuo: intimidade ordenada. Almoçava aos domingos em casa. E a rua Vitor Hugo, uma importante viagem ao exterior, sem desiquilibrar a menina. Voltava para o colégio com chocolates Diamante Negro, e a conversa serena do pai. Tocava piano. Depois caminhávamos/passeávamos pelo jardim. Eu me sentia acolhida, feliz, entregue ao ‘melhor dos mundos possíveis’ como diria Pangloss.

4.

Os verões na praia, as possibilidades. Sal ,mar e saúde. Confraternizar: liberdade de ir e vir. Em Torres, o verão sem regras, salvo o almoço. Amigos, o essencial. Levava na minha bagagem a Remington, máquina de escrever portátil, e me pretendia escritora a registrar o veraneio, tardes comigo mesma, a beleza. Destes veraneios todas boas surpresas. Alugávamos um apartamento na própria SAPT, um subir e descer fácil. Houve outros apartamentos, o chalé de madeira na Prainha. Verões no quinto andar, a convite da Magda. Nas chuvaradas as idas e vindas eram de risadas e peripécias, cabelos molhados. O exercício de teclar, a vontade de contar/escrever sobre o mundo me atropela desde sempre. Planos mirabolantes e cheios de uma circunspecção pouco própria para a jovem alegre: música feliz. Palavras encolhidas na caixa da máquina de escrever. A praia respondia/marcava com o dourado do sol. As caminhadas até a beira do rio Mampituba o colorido dos maios a serem exibidos/desfilados: jogos de frescobol, vôlei de praia, e conversas infindáveis a percorrer/ir e vir pelas barracas. De tarde, a praia da Guarita, programa obrigatório. De noite, o cinema, e a dança: o famoso/esperado dia de aniversário da SAPT. Fui coroada rainha. Ivo Rizzo, presidente do clube, direito a faixa, por anos eu a guardei como lembrança. Sem fotos. Elizabeth M.B. Mattos – outubro e 2020 – Torres

É graças a sua memória que as pessoas de idade alcançam um estatuto privilegiado. É o que sucede entre os Miao que vivem em elevada altitude nas florestas e cerrados da China e da Tailândia. Estes povos estavam a caminho de uma cultura bastante desenvolvida mas sua evolução foi interrompida, devido, provavelmente as guerras. A família é de cunho patriarcal: o filho não deixa a casa paterna antes dos 30 anos. Em princípio, o chefe tem direito de vida e de morte sobre todos os membros da família; na prática, são excelentes as relações entre pais e filhos que aconselham reciprocamente. Tem muitos filhos; os avós cuidam dos netos. Crianças, mulheres e pessoas de idade são todos muito bem tratados. Quando uma das últimas se vê só no mundo, tendo sobrevivido a todos os seus descendentes, coloca – se sob a proteção do chefe de uma grande família: é sempre aceita embora represente um encargo. Acredita -se que a alma dos mortos vive na casa e a protege, reencarnando -se nos recém-nascidos. O respeito tributado aos velhos está em relação com o fato de serem eles os transmissores das tradições; sua memória dos antigos mitos lhes vale grande prestígio. São os guias conselheiros da coletividade. As decisões políticas são executadas pelos jovens cuja aprovação se torna, portanto, necessária; mas em geral eles se dobram à vontade dos anciões.”(p.79) Simone de Beauvoir A velhice- realidade incômoda volume 1

3 comentários sobre “intensidade possível em fatias

    • Janice, penso, não sei ao certo, a leitura tem uma certa disciplina interior, um exercício. O tempo, tempo para ler acontece, esta necessária paciência surpreende quando estamos com o livro certo, não qualquer livro. Corre sem pudor atrás do que G O S T A S mesmo, depois me contas.

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