monstros gigantescos

Tento explicar-lhe que não existe diferença alguma entre crianças e adultos, já que os adultos são crianças obrigadas a viver fantasias de adultos. Para mim, o ser humano é uma criação indescritível, tal qual um pensamento incompreensível. E no ser humano existe tudo, do mais alto ao mais baixo, precisamente como na vida. O ser humano é a imagem de Deus e em Deus tudo existe, tudo, como se fossem forças enormes. E assim se criaram os diabos e os santos, os professores e os feiticeiros, os artistas e os destruidores. Tudo existe, lado a lado, penetrando-se mutuamente. E como se fossem monstros gigantescos que a toda hora se transformam, entende o que eu quero dizer? Da mesma maneira deve existir também uma quantidade ilimitada de realidade. Não apenas aquela realidade que entendemos com nossos sentidos obtusos, mas sim um montão de realidades girando à volta umas das outras, por dentro e por fora. Claro que é apenas o medo e o pretensioso bom-senso que nos fazem acreditar em fronteiras. Não existem fronteiras. Não existem, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos. É a angustia que fixa as fronteiras, você também não acha? […] É evidente que as pessoas ficaram com medo, desesperadas, exatamente como ficam quase sempre aterrorizadas e tentam fugir quando um grande sentimento as subjuga. Isso apesar de passarem o tempo todo se arruinando com saudades de seus sentimentos ressequidos e mortos.” (p.55-56) Ingmar Bergman Sonata do outono

O que deveria mesmo importar? O amanhecer sonolento nesta ventania torrense. As calçadas povoadas e a caminhada festiva que faço com a Ônix. As vozes misturadas dos filhos a conversar. Estas viagens telefônicas que me alegram e misturam realidade virtual com a real. Em que estado estou? Com quem estou? As fotos se misturam e cada um deles me visita de jeito completo e ao mesmo tempo fatiado. Fico a imaginar como será me deslocar de lá para cá nesta coragem renovada de me reinventar. Não. Verdade seja confirmada, eu nunca deveria ter me casado, nem com um nem com outro, porque minha alma esteve sempre amarrada na árvore do meu quintal, se a casa da Vitor Hugo não tivesse desaparecido da minha vida, eu estaria por lá a cavoucar os canteiros como minha irmã Suzana fazia para revirar os canteiros, estaria com os cães, estaria conversando com os fantasmas numa dança ininterrupta. A vida tem certas alavancas misteriosos, e somos lançados de um lado para outro a fazer voltas mirabolantes. Que Rio de Janeiro era aquele que me esperava maternal, instrutor e balizador, como cheguei a Santa Cruz do Sul, depois de me demorar em Montevidéu naquela paz de beleza certa a bicicletar, e voar. O grande equívoco de uma maternidade galopante que deveria fazer parar a roda, mas não conseguiu. Os sonhos saltavam pela janela, a inquietude me dominava, e as loucuras incertas de ser eu comigo deformavam o protótipo bem-comportado da menina gaúcha, agora deslocada, eu me transformava todos os dias. Não existe realidade possível. Existe uma mistura diabólica. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2020 – Torres

Pedro e Cláudia neste domingo de outubro
Marina Pfeifer linda!
…tempo da Garagem de Arte
Luiza na beleza de ser ela hoje: outubro de 2020 – Recife
a mãe saindo de Guaíba para se casar

2 comentários sobre “monstros gigantescos

  1. Beth, que textos e reflexões maravilhosos!
    Sim, de alguma forma conseguimos nos “visitar”, e em alguns destes momentos ter encontros emocionais verdadeiros.

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