John Donne

Poucas pessoas souberam escrever a ideia de humanidade partilhada como John Donne o fez nos idos do século XVI. Diz-nos Donne:

Excerto “meditação XVII”

“Nenhum homem é uma ilha, inteiramente isolado, todo homem é um pedaço de um continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntai: Por quem os sinos dobram; eles dobram por vós”

O destaque importa mais do que qualquer outra palavra. o que acontece no mundo / com o mundo/ com todos IMPORTA. Mais do que nunca as palavras de DONNE crescem! Beth Mattos

A beleza pode ser um peso no tempo de terminar, morrer/ fazer a passagem / terminar o contrato. Ninguém envelhece bonito. Envelhecemos. Ponto final, um limite. Um enfrentamento. Sim. Posso guardar alegria, coragem, orgulho, determinação. Mas a verdade simples e cruel, duríssima e certa/igual, envelheço. Bom, quem sabe ter saúde alegra / ameniza o envelhecer: tranquiliza e dá independência… Não importa, envelheço. Os detalhes deste envelhecer no olhar embaciado dos filhos apressados. Sim. A cada um dia, dois ou três vida  fica menos viver. A cada um seu encantamento, mas sua arrastada despedida. Nada substituí a energia vital de ser pessoa. Não apenas mãe,  nem avó,  nem tia, nem querida ou boa amiga. Envelhecer é  mesmo um ponto final. O ideal, talvez seja/é o temperamento distraído de respirar. Sem fotos. Sem espelho. questionamentos. Sem conclusões. Uma droga esta coisa terminal de envelhecer, esta é a questão. É terminal. Bom não podemos ser eternos. Talvez resolva pensar, ou ter palavra. Ou ter lembrança  ou ter passado…Ou chegar no alto de produzir, do fazer. E a beleza se empacota sozinha, com autonomia. Ou se coloca na terra para brotar.  Flores embelezam. Perfumam e… Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

possibilidades perdidas / desejos ocultos

Felizes. O trabalho abençoa. Rotina organizada. Cheiro de felicidade, um baile de máscaras. Juventude.

[…] “assomavam de volta à realidade as figuras anuviadas do baile de máscaras; o melancólico desconhecido e os dominós vermelhos; aqueles acontecimentos insignificantes viam – se de súbito, mágica e dolorosamente, banhados pela enganosa aparência das possibilidades perdidas. Perguntas inocentes , mas perscrutadoras, respostas astuciosas e ambíguas eram trocadas; a nenhum dos dois escapava que o outro não fazia uso de toda a honestidade, de modo que ambos se sentiam dispostos a pequenas vinganças. Exageravam a atração que sobre eles haviam exercido os desconhecidos parceiros de baile, zombavam da realidade ciumenta que o outro deixava transparecer, negando a sua própria.(p.9-10)

[…] “Em cada criatura – creia-me, ainda que possa parecer banal -, em cada criatura que julguei amar, estava apenas e sempre procurando você. Sei disso melhor do que você é capaz de compreender, Albertine.” (p.15)

Conversas perigosas e apaixonados. NA D A, e toda amorosidade se transforma em angústia, raiva, desprezo ou dor. Um nada e a cabeça se movimenta tormentos do passado. Inomináveis. E que agora já nem importam. Embora deseje falar / dizer junto, voltar no tempo para ter certeza disso ou daquilo, alguma coisa, ou nada vai mudar…, apenas apaziguar. Ou tirar, definitivamente, a paz da harmonia que o desconhecido possibilita / o tal limbo…, nem Céu, nem Inferno.

— desde a conversa noturna com Albertine, ele se afastava cada vez mais do território familiar da sua existência rumo a um outro mundo qualquer, distante e estranho.” (p.37)

Acordado de um sonho, por exemplo. Claro, nós nos lembramos… Certamente, há também os sonhos que esquecemos por completo, dos quais nada permanece além de um estranho estado de espírito, um misterioso atordoamento. Ou lembramo-nos somente mais tarde, muito mais tarde, e então nem mais sabemos se vivemos de fato a situação ou apenas a sonhamos. Só que… Só que…” (p.102) Arthur Schnitzler Breve romance de sonho

O sonho não fica preso entre os dedos da mão, escorrega inquieto para as dores do corpo. Insônia, ou perguntas idiotas. O que será do Brasil? Da Amazônia, do Pantanal, da estabilidade, ou do amanhã? Por qual desvio… Estados Unidos ou China. O que serei? Não compreendo nem falo mandarim, e o inglês afasta o espanhol, o francês e o russo. Desligo as notícias, esqueço avaliações, e não penso mais que aos vinte anos, sem saber, minimamente, de mim mesma a vida tinha o risco indefinido da maternidade, de todas as decisões do que seria ser Eu. Saberei conduzir / acertar e mirar o melhor? Ainda vale a dor/a pena? O que será/seria o bom caminho? Não estou em lugar nenhum… Choramingar não resolve nada. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres

humor debilitado

Entre o sol e o humor debilitado, ou péssimo, talvez depredativo humor. Não existe posição categórica. A certeza incerta.  Oscilo. Recados mentais, será que existem? Sonhos elucidativos? Onde se esconde o perigo? No silêncio ou na conversa? Posições / ideias arrojadas fraquejam. Escolhas erradas.  O que significa conviver? Concordar? O jogo não tem regras, ou sou eu que desconheço o manual. E se elas existissem, as regras, seria justo este ir e vir da vida, assim, sem saber exatamente do que se trata? Escorrego a pensar imobilizada, não penso. Estamos no melhor lugar do mundo, ou no pior? Estranhamento. Um dia depois do outro… E.M.B. Mattos – novembro de 2020 – Ainda em Torres.

colorido amigo

Preciso me aconchegar no bom sentimento, agarrar a lembrança festiva, acreditar no colorido amigo e agradecer. Esquisita tristeza pesada, inexplicável. Certo! Vou voltar pra alegria, e pra beleza quente do verão. Este frio está mesmo fora do lugar. Beth Mattos – novembro de 2020

Foto de Ana Moog

chocolate com torradas

Inconveniente lua cheia / iluminada e exibida entra a me acordar sem dizer nada, estar por estar… Também nem sei se quero escutar! Não tenho palavra, mas frio neste novembro que aponta. Abraço meu casaco azul e me reconheço confortável entre lençóis. Acerto o dia de silêncio e conciliação. Empurro o inconveniente espinhento excesso de voz. Tão diferente este verão ruidoso! Espero seriedade diante da pandemia. Não importa este amontoado fazer e estar e receber. Guloso sol risonho! Eu rabugenta, neurastênica e sonolenta. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2020 – Torres -, …e penso nos ausentes amados, esforço, silêncio. Pai mãe, e a tia Joana a me olharam espantados neste verão de tanta gente! Não, nada se parece com os sonhos de verão de outros tempos, teríamos que descobrir o silêncio da saúde no quintal da casa na rua Vitor Hugo 229. Jacarandás. Férias de noites longas com lua e estrelas, horários virados de preguiça… Vamos confabular, as frutas perfumam a cozinha, sinto o cheiro de chocolate com torradas.