cartas cartas cartas carta cartas

DUAS CARTAS E FRAGMENTOS: 1970,1980 e 1990.

Querida Elizabeth

            Recebi a tua carta. Vejo-te a beira do mar. Enche, pois, a tua mão de mar enche, e os teus olhos de luz.

            Na minha lembrança, tu és uma presença.

            Eu perdi o jeito de correr pelas praias e de me misturar com os peixes.

            Faz isso por mim.

            De Torres guardo este fragmento, por certo o mais agreste, o mais autêntico.

(na carta, a que eu guardo comigo, tem um desenho, um rabisco dele – caso aches interessante ter uma fotocópia eu posso mandar – está emoldurada….)

            Ao pé do penhasco, o mar enrola-se como uma grande cobra verde. Ao longe ele é sereno. A distância dá placidez as coisas.

            Tenho produzido pouco ou nada. Espero melhores dias.

            Mando-te a minha saudade que é muita.

            Afetuosamente, o Iberê

            Rio, 28 – 1 – 75.

(na carta, a que eu guardo comigo, tem um desenho, um rabisco dele – está emoldurada….)

Porto Alegre, 14 – 5 – 84

(…) estou com tendinite, inflamação dos tendões da mão, segundo diagnóstico do neurologista e demais especialistas que me examinaram. Para recuperar o movimento do polegar (mão esquerda), faço, diariamente, ionização, infra-vermelho e ultra-som, além da medicação específica. O tratamento dura um mês, no mínimo. Isso impede que me afaste, no momento, de Porto Alegre, salvo se for para onde possa continuar o tratamento com a mesma eficiência e regularidade. Foi por este motivo, e pelo mundaréu de água – que fez da sanga rio, do rio fez mar -, que não fui a Santa Maria[1], onde deveria assistir a inauguração da minha exposição (Coleção da Maria), na Universidade. Talvez compareça ao encerramento se as águas e a saúde deixarem. Como já deves ter percebido, estou preocupadíssimo com este problema da mão. Sabes bem o que elas representam para mim.

                                                                       —

            Também tenho imensa vontade de te ver, de te ouvir, de te falar. Não concebo que isso não seja possível numa das tuas vindas aqui. Tu se me afigura uma princesa aprisionada num castelo[2] de mentira. Não vê nesta expressão outra coisa senão o carinho deste teu velho amigo. É que te vejo num corre-corre sem descanso. Espero que estejas contente, pois […]

[…] quando o trabalho não é gratificante consome-se a vida sem viver. Sou muito cioso do meu tempo, porque este é a duração da vida. Jamais entendi os que procuram passar o tempo, sem se aperceberem que estão gastando o que jamais se repõe. É vero que a maioria é programada como robô. São sonâmbulos, apenas tateiam o mundo. Quero ser lúcido, mesmo na desgraça. Para dormir, temos a eternidade…

            Quero saber o que pensas do que digo. […]

(15-5-84).

            Minha exposição em Porto Alegre, em setembro, inclui retratos, nova faceta da minha obra. (15-5-84)

            Agora pinto manequins, manequins da Rua da Praia, como eu os chamo. Eles me dão toda a dimensão da vacuidade em que vivemos nesta sociedade de consumo. Eles são vazios, ocos, apenas vestem. Entretanto significam porque são simulacros, modelos de uma vida irreal que coexiste com o real, como um mundo paralelo. É por isto, […], que há tantas mulheres andando por aí com um tope de fita no cocuruto. Elas se identificam com certa personagem da novela.

(12-1-86)

            Estou pintando quadros de grandes formatos com a intenção de expô-los em Porto Alegre, Rio e São Paulo, simultaneamente.

            O primeiro da série Fantasmagoria 180 X 213 está reproduzido na revista Galeria, junto da apresentação tem um belo texto de Ronaldo Brito.

 (6-10-86)

(…) “quando o trabalho não é gratificante consome-se a vida sem viver. Sou muito cioso do meu tempo, porque este é a duração da vida. Jamais entendi os que procuram passar o tempo, sem se aperceberem que estão gastando o que jamais se repõe. É vero que a maioria é programada como robô. São sonâmbulos, apenas tateiam o mundo. Quero ser lúcido, mesmo na desgraça. Para dormir, temos a eternidade…”.

[…] Continuo trabalhando muito, adoidado. Não raro atravesso a noite, pintando, pintando. Agora pinto manequins, manequins da Rua da Praia, como eu os chamo. Eles me dão toda a dimensão da vacuidade em que vivemos nesta sociedade de consumo. Eles são vazios, ocos, apenas vestem. Entretanto significam porque são simulacros, modelos de uma vida irreal que coexiste com o real, como um mundo paralelo. É por isto, […], que há tantas mulheres andando por aí com um tope de fita no cocuruto. Elas se identificam com certa personagem da novela.

(12-1-86)

Porto Alegre, 12 – 3 – 90.

            Beth, minha amiga.

            Teu silêncio sempre me inquieta. Enviei-te uma longa carta, ilustrada. Espero que a tenhas recebido. Agora, envio-te este bilhete para ser lembrado.

            Hoje chove barbaridade, talvez não possa ir ao correio. Essa noite caiu um temporal, o céu ficou um só clarão. Os trovões ribombavam como se costumava dizer nas redações do tempo de colégio. Pensei até que o mundo fosse acabar.

            Há uma grande expectativa e muita esperança na iminente mudança do governo. Eu apenas assisto jamais me empolguei com política.

            Continuo na minha saga. Neste deserto, avanço no escuro, com os olhos da intuição.

            Deves estar muito atarefada com o início das aulas. Isso é bom.

            Querida amiga: sempre te recordo com carinho

 o Iberê.


[1] Coleção que pertence hoje a Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, RS.

[2] Este desenho, da princesa no castelo também foi feito, mas desapareceu com algumas cartas, e outros desenhos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s