O sol e o peixe /prosas poéticas/ Virgínia Woolf

Somos/estamos mais ou menos perdidos por aí, a querer nos segurar / prender / plantar as raízes em lugar definido. A janela distrai, engraçadas surpresas espiar os vizinhos que se sacodem no/ao sol, também eles procuram, e se refestelam nas conversas. Não saem de pijama nem de camisola. Fazem pose, esperam o tempo passar aproveitam o sol, a chuva, a lagoa, o poder. Casa nos dá privacidade, edifício exige convivência. E este humor tão mal acomodado se enrosca dentro de mim, ora imobiliza, ora sacode. E a leitura se empilha, os textos nos consomem. E os livros não lidos ficam exigentes. E lá se aproxima Virgínia Woolf (A vida e arte – Montaigne). Eu me agito com certezas:

Pois, para além da dificuldade de comunicar aquilo que se é, há a suprema dificuldade de ser aquilo que se é. Esta alma, ou a vida dentro de nós, não combina absolutamente com a vida fora de nós. Se temos a coragem de perguntar – lhe o que ela pensa, ela está sempre dizendo o oposto do que as outras pessoas dizem. Outras pessoas, por exemplo, há muito tempo decidiram que cavalheiros de idade de aspecto enfermiço devem ficar em casa e edificar os restantes com o espetáculo de sua fidelidade conjugal. A alma de Montaigne dizia, ao contrário, que é na velhice que se deve viajar, e o casamento que, sem dúvida, raramente se baseia no amor, está sujeito a se tornar, no fim da vida, um laço formal que é preferível desfazer” (p.15)

E eu fico a me perguntar onde estão minhas verdadeiras e intensas leituras? Num saco de verduras, numa prateleira de compotas, enfiadas num canto do armário, confusas, misturadas. E a música apertada nos discos de vinil ou no rádio, na preguiça de ser diferente, reinventar a forma. Estou pior. Então?! Pelo emprestado, forma, jeito, ritmo, e vontade, desafio. Quero espichar a vontade, esticar a tal alegria corajosa. Troco de país, investigo nacionalidades. Dou risada, escolho ora isso e depois aquilo. Ora, ora… Arrastar o gosto de ser brasileiro por voluntários sem pátria, não se trata de passaporte, mas de história. Envelhecer nos faz perder a identidade, ou encontrar. Arregaço as mangas e recomeço. A bandeira pode ser preta, amarela ou cor-de-rosa, as cores são internas, eu sei. Ando com vontade de sair por aí, claro! Está proibido, então eu quero. Até falar ao telefone, eu quero. Eu quero. Eu quero. Beth Mattos / março 2021 Elizabeth M.B. Mattos – Torres

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