Não te acovarda! Parece impossível

Amanhecer agitado. Pandemia presente revirando emoções a remexer convicções. Corto / recorto o ciclo de pensar isso e aquilo. Caminho de um lado para outro prisioneira de mim mesma. Bom que chove, mas não é a chuva que me limita. Sou eu mesma. Mergulho / caio / tento/ experimento outra visão. Envelhecer, assumir estes anos que se encurtam, ou seja, programo novos fazeres, agir, rir mais e seguir com a energia misturada entre estupefação e certeza: continuar, não desistir, não me acovardar.

Respirar, respirar. Respirar. Estranho, demoro a processar esta coisa egoísta rígida de negar, negar, negar. Ontem um amor derramado / hoje aquela fome voraz impensada / depois o pedaço da angustia a ser engolido. Ligo o rádio. A música espanta. Olho pro amontoado de livros empoeirados. Quero alguém que me ajude…Socorro! Não sei o que não me deixa sentir o todo…Agradecer a saúde. Os meus. O positivo, o louvor… Rezar. Rezar. Eu ainda tenho fé? Aos pedaços a me estranhar. Abri um livro e encontro uma foto, um telegrama, e datas, e observações, volto no tempo: 1994-1995. Céus! Quanto significa tempo? Palavra esquisita / péssima. Já passou. Tantos encontros mais importantes, intensos ou fortes se fizeram vida. Esquisito choramingar. Por que um pode ser melhor que dois ou o três, ou o nove ou qualquer outro número? Se existe resposta…, e existe. O que importa é agora, o hoje, mas tudo passa pelo beijo, o carinho, o abraço a lembrança. Ou o dia se esfarela naquele zero / nada / vazio / negação. Se esfarela o dia. Deixei tanta coisa desaparecer atrás do meu sonho de escrever, escrever, ler, ler e nada disso se esgota. Fico atrás daquele sonho grande/ pequeno / espaçoso / constrangedor de te amar sem poder te tocar! No percurso a necessidade básica de empurrar os dias e responder aos sentires de tantos pequenos e amontoados amores. Amassar pétalas de margarida despetalada. Curioso estes esfacelamentos, prazeres e desvios. Que inveja tenho daqueles que entram/aceitam/vivem o inteiro, o completo. Conscientes por terem escolhido e saído do jardim depois de escolher a flor preferida: conseguem segurar/agarrar os espinhos da rosa, e com ela, permanecem até ao fim. Eu estou presa no jardim, entre muros tão altos! E sufoco com o perfume. Feneço/envelheço e não quero. Resisto. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – Torres

2.

Complicado sentimento, minha amiga esta coisa bizarra de envelhecer. Não é a pandemia, mas este mal resolvido sentimento de hoje / agora / do tempo/ fato, desencontro com a vida ela mesma. Assim, escrever fica difícil, um emaranhado de mal-estar entre os livros e os papéis, desordem interna. Desorganizo mais e mais a minha vida desorganizando os livros, as estantes, a sala, a cozinha, os quartos, desorganizando meus sentimentos. A precariedade me assusta. E nada me assusta, eu sei. A menina e a jovem amaciada pelos prazeres de uma casa, de uma família em movimento, de um tempo livre nas calçadas. Correrias entre cinamomos a perfumar. Apenas envelhecer dói. Tenho presa na memória a minha mãe altiva / inteligente / viva e corajosa. Ela era fantástica! A beleza se desenhou a sua volta, pelas pinceladas de arte que ela fazia/sabia/definiu e acontecia no cotidiano, entre as paredes da casa da Vitor Hugo -, sempre o melhor. Ontem pensei no meu pai e na vida que eles construíram, especial / fui anotando, semear, afofar, plantar e ver crescer. Um não daria um passo sem o outro. E a minha mãe, mulher definitiva. Forte. Não preciso dizer. Está tudo na biografia dela/ deles. Se eu puder um dia escrever! Mas era ela a poetisa, a artista, dela emanava o desejo de superar. Nos envolvia com o perfume, a doçura agitada e impositiva de que a beleza existe e importa. E tão pouco viver, e tanto o esforço de respirar! Saudade da minha mãe! E do meu pai… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2020 – TORRES

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