imagino lembranças, as doloridas e as festivas

Penso em coisas e fatos que aconteceram, e ou deixaram de acontecer… Pedaço amarrado na memória. Nem todas as lembranças são inteiras/completas: nós nos esquecemos, e dentro do esquecimento recriamos. 

Enquanto remexo no tempo procuro definições, esclarecimentos. Procuro paz. Procuro chegar mais perto de ti / talvez eu apenas te afaste / eu te assusto com desesperanças…

Quem das pessoas com quem convivemos foram, realmente, importantes? Ou melhor, quais teriam respostas para nos dar? E nos amaram…

Aconteceu uma coisa boa para mim, não sei se eu cheguei a te contar, tão rápido são nossos encontros! Conversei com o Nonô (Vicente Donário Lopes de Almeida), um pouco antes do transplante, um acaso. Ele foi me ver na galeria Garagem de Arte. Foi engraçado/divertido/curioso. Vi aquele homem bonito, espiando, bem vestido: tudo o que sempre vi nele estava ali. Tudo. Tu compreendes? Fui ao seu encontro, conversamos, saímos juntos e caminhamos até a Hilário Ribeiro, e nos sentamos na murada de um canteiro, continuamos conversando enquanto sua mãe não chegava. Ele esperava alguém… E foi mágico. Tão depressa! Aquela repassada no tempo! Tão importante! Pensei que voltaríamos a nos ver. Eu não o acompanhei até em casa, esperamos alguém chegar, eu voltaria ao trabalho…, deveria ter ido. Deveria ter ficado com eles o tempo que eu tivesse… Por que estamos sempre nos cobrando o que não fizemos? Insistimos. Agarrados no/ao hoje como crustáceos, seguros, nenhuma luz no depois… O cotidiano, o agora é a consciência de sentimentos. Segurança.

Por que ele ficou no tempo? Por que não tivemos tempo? Ele morreria um mês depois. O transplante não foi bem sucedido. As fotos que queríamos ver…., e queríamos voltar a nos ver. O importante conversarmos, e rimos e nos olhamos… Não pude vê-lo outra vez. Estas pessoas, as nossas pessoas, as queridas, e as amadas, começam a tomar outras formas, conseguiremos reencontrá-las? É a magia. Elas definiram coisas / decidiram juntas o destino / as escolhas. Esquisito voltar! Vou voltar para a cama.

Tu já pensaste nisto? Todo o dia arrumado / engomado a repetir o mesmo, sem susto, repetir / repetir / repetir. Organizar a próxima viagem: entrar em todos os cartões postais, beber os melhores vinhos, o sol… Deve ter um mistério que desconheço, sou eu a repetir os mesmos textos, a repetir a repetir… Pensar como seria entrar no tempo perdido, igual e repetir. Já pensaste nisto? Beth Mattos – maio de 2021 – Torres

“Sim, o que te escrevo não é de ninguém. E essa liberdade de ninguém é muito perigosa. É como o infinito que tem cor de ar. O que sou neste instante? Sou uma máquina de escrever fazendo ecoar as teclas secas na úmida madrugada. Para te escrever eu me perfumo. O que faço por involuntário instinto. O que eu estou fazendo ao te escrever? estou tentando fotografar o perfume.” (p.85) Clarice Lispector –Água Viva

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