amontoado de escombros / resíduos

Sou lenta, tu sabes. Certos termos, explicações flutuam, voltam, e me cercam… Persigo. Talvez tenhas razão quanto a minha distância do mundano, e do frívolo. (ainda estou a pensar) Procuro olhar com insistência. Quero devagar. Abro mão do que não seja essencial, mas me perco nas palavras. Cometo equívocos. No bonito dos desenhos coloridos da tua voz, no jeito amistoso, generoso do teu carinho sensual eu… Esta coisa da beleza atrapalha, e o tempo e o pensar se esgota numa tarde, ou acorda no prazer/gozo/tesão, mobilidade, fantasia do querer, ou desaparece porque é raso. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

Na verdade, porém, a futilidade é uma coisa lúgubre. Não sei se você já viu estas chagas medonhas que roem o nariz, que abrem um buraco no rosto. Vistas sem levar em conta o rosto, o nariz, a boca, a expressão humana, enfim, essas chagas têm um luxo de cores a que não recusaríamos uma certa beleza exótica. Postas no homem são um horror. Pois assim é a frivolidade. / O que existe na frivolidade é mais doença do que saúde; mais fixação do que mobilidade; mais morte do que vida. Eu disse fixação. Explico – me melhor: todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê – los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras de meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilapidação da vida. / O frívolo, ao contrário, é aquele em que o resíduo das experiências encaroçou. Tem pontos sensíveis, botões, teclas de comando, e são movidos de fora para dentro, como os mecanismos. Aperta -se um botão e ele diz ‘bom dia’ encarquilhando os músculos da face. Aperta -se outro botão e ele faz um discurso, se é ministro, ou atira os cabelos para trás, se é moça de vinte e cinco anos.”(p.127)

[…] “Agora eu vejo que é com amor que a gente conhece as coisas, separando – as, distinguindo – as, mas trazendo – as todas unidas e banhadas na mesma atmosfera. E se não existe o amor? Então o universo inteiro se torna um heteróclito amontoado de escombros.”(p.131)

E agora, Miguel, eu te pergunto, onde, como, e por que tiveram os homens pela primeira vez a ideia de ver aquele fluido azulado um símbolo de felicidade eterna. Sinto hoje, pensando no céu dos santos, a mesma vertigem. Antiga. A felicidade precisa de um chão. A felicidade precisa de uma ancoragem nas coisas. Queria um céu com esta mesa, aquela cadeira, o retrato de mamãe. O céu com Eunice. Com o vestido novo de Eunice. / Como fazer agora, se é o próprio chão, e as coisas que nele se firmam, que me dão vertigens, e uma desesperada sensação de vazio? O mundo inteiro está em crise. Tudo é nuvem, e passa, e se transforma. A única coisa que me parece sólida e palpável é a dor que carrego dentro de mim. / Miguel, eu tenho coragem de dizer: se esse céu dos santos existisse, eu não o quereria! Eu seria profundamente infeliz, infeliz ao quadrado, infeliz como um danado, neste transparente lugar onde não coubesse a paixão da minha dor. / e foi isso que fez de mim a futilidade, que dona Alice acha pouca coisa. Foi isso que Eunice conseguiu fazer. Matou em mim o próprio desejo de felicidade. Não sei se exite céu; mas inferno existe. E eu já estou no inferno.” (p.133-134) Gustavo Corção Lições de Abismo

Significado de Mundano

adj.
1. Diz-se de quem não possui virtudes;
2. Diz-se da pessoa que se entrega ou tem tendência para se entregar aos deleites e regalos do mundo;
3. Respeitante a mundo (numa perspetiva material e efêmera); que é terrestre ou profano;
4. Referente à vida que se opõe à espiritualidade, dando maior relevância aos prazeres e recompensas materiais;

Significado de Fútil

adj.m. e adj.f.
1.
Característica de quem ou do que é irrelevante; particularidade de quem é insignificante; que dá relevância a coisas sem importância ou vãs;
2. Diz-se do que ou de quem possui uma aparência que provoca desconfiança; que possui características ardilosas, que é enganador;
3. Que é desprovido de âmago ou de princípios; de caráter infantil ou tolo; que é superficial ou frívolo. Google

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