alguma coisa fora do lugar

Cabelos escorridos. Lavanda espalhada pelas camas. Uma ordem bem a gosto da desordem habitual. No espelho aquele olhar aflito, inquietude. Tempo virado, eles dois perdidos, ou seriam eles três? Foi no final daquele ano, definiram a resiliência, não se embalariam em/por conversas acidentais. E agora esta desordem no remexido idílio. As leituras não aplacam, nem o gosto de outono invernoso. O cinzento tão do meu agrado! As decisões rompidas. E já faz tanto tempo que o dia se fechava produtivo, altivo. O jardim remexido por inventivas colorações vingava. Céus! Como acertar a pontuação, aquietar os ânimos e alcançar o que eu chamaria de produtivo, estamos perdidos nestes beijos demorados, molhados e ininterruptos. Os olhos parecem arder. As roupas me apertam. Emagrecer. As pernas doem, mais exercícios. As mãos precisam de cremes poderosos, os pés apertados no sapato desconfortável. Onde se esconde o meu senso de responsabilidade, ordem e precisão?

Desceu do pavilhão dos quartos arrastando os passos. Os ônibus das externas e semi-internas não estavam no pátio. As Madres se movimentavam ventilando as salas. Hoje a professora de francês daria suas sonolentas e cansadas aulas. Será que eu trouxe o livro de Gide com aquela carinhosa dedicatória da Lúcia! E a encadernação tão bonita! Detalhes do afeto. Acho que estes toques de mágica afinidade me fazem falta. O caderno azul do diário. A lua esteve tão bonita ontem a noite! Demorei para conciliar o sono. Tenho uma pesada preguiça, estou com olheiras. E os lápis de cor para a aula de desenho!? Sem vontade de conversar atraso um pouco o passo. O burburinho das vozes já subia devagar, estavam todas elas com seus aventais impecáveis, o meu tem sempre uma mancha de tinta no bolso.

Lembranças misturadas, afetos comprimidos no espaço de lembrar: sentido amor, vontade de respirar. Foi assim que aquela menina entrou na sala, curiosa, linda e gentil sem gostar de ser gentil. Rebelde. Experiência carinhosa, o sempre. Extraordinário viver. Aquelas trocas engraçadas de escola, do Grupo Escolar ao Colégio Santa Inês na Avenida Protásio Alves; poderia ter sido para sempre, importantes colegas, como a Maria do Carmo com quem a dividia merenda, a dela sempre era a mais gostosa. Vestígios de cuidado e carinho. Num lapso, lá me fui para o Nossa Senhora das Graças choramingando o internato que não recebia meninas de Porto Alegre. Eu consegui e foi conquistar independência organizada. Não é esquisito isso! Queria tanto!

Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2021 – Torres

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s