para Francisco, carta derramada

Alter ego ou alterego (do latim alter = outro egus = eu) pode ser entendido literalmente como outro eu, outra personalidade de uma mesma pessoa. Para a psicanálise, o alter ego é um outro eu inconsciente.

Assumo que estremeço. Assumo que deixo de ser natural. Assumo que conversar contigo é…, indizível. Antes do amigo, professor. Professor de uma nova disciplina. O homem dos pássaros, da terra, do jardim, e dos livros, da literatura, da teoria, meu professor, e ponto. Um ser/pessoa diferente. Bloqueio. Sinto medo, alguma coisa esquisita em relação ao que escreves, ao que escrevo para ti, ou compartilho contigo, ou imagino dizer e nem digo. Bloquear o pensamento, e me assombrar contigo. Não consigo estabelecer diferenças saudáveis, nem mesmo nas leituras. Até o teu francês grita superior ao meu, e sabes da minha formação… Existe o muro, a parede a ser derrubada / transposta / atravessada cada vez que te encontro nova sensação. Esquisito. Mergulhei na análise detalhada deste sentimento, que sejas, então, o terapeuta. Demoro um tempão pra relaxar, pra ver, olhar, para sentir que estou a conversar, afinal, com Francisco, o velho amigo! Em tempo, pois tão jovens és! Que dificuldade! E me sinto vigiada. Esquisito isso. Um jogo estranho. Sim, como se existisse um tabuleiro, e eu precisasse jogar, inferir, negar, ir pra direita, ou pra esquerda, atacar. Defender. Recuar. Esconder-me. Como se te escrever, ou responder me levasse para um terreno minado, cheio de bombásticas incertezas. Leio. Releio. Não respondo. E quando, espontaneamente escrevo, recuo. Outro mundo. Outro planeta. A vida acadêmica que eu queria / desejava pra mim? Um jeito de pensar, uma inteligência como a tua, não a minha? Não, mas não sou assim, penso. Tenho a minha própria história e trajetória, diferente, apenas diferente, mas,… Não é o algoz nem o juiz. Apenas o Francisco! Esquisito! Politicamente diferentes, e, tu és homem, e eu sou mulher, tu moras em Jacarepaguá. Curiosamente /estranhamente Jacarepaguá. Era onde pretendíamos morar, um longe agreste, hoje tão povoado, diferente. Estou a colocar todos os pronomes: excessivos em português, mas tão ‘naturais’ em francês! A doença, a perda, a morte. O fixo e o rígido. Neurótico. Algumas perdas me escapam, ou se acomodam no necessário. Luto prolongado quando perdi a mãe (atritos e divergências), conversas sem ponto final. Três anos depois o pai morreu, e, a minha tia Joana, aumentou a lista em cascata já sem lágrimas. Perdi as raízes, ou finalmente, brotou uma árvore?! Não sei. Não sinto mais nada agora. Não somos eternos / nem para sempre. Eu te digo que estou atrapalhada. Sofro para dentro, num lamento inútil, pesado e ansioso, tropeço na dor e avanço: tudo passado, e, ainda hoje/agora. Engolir a coisa sozinha. Afinal, morrer ou viver não deve ser filosófico, mas real, da vida / na vida, a morte depois do viver. Que loucura! Morrer é difícil! Desaparecer é como não ter vivido. O que resta é a memória na lembrança de outra pessoa. Uma ironia! Ironia fantasiosa! Enfim! Não era da morte, mas da vida o meu escrever. O que queria te dizer, ou o que confesso, agora, neste momento, descreve a minha confusão emocional diante dos teus julgamentos literários que me atropelam antes de serem proferidos. Não acreditas, mas enquanto leio, antes das letras, imagino teu julgamento. Teu julgamento me inibe antes de acontecer, sem existir. Não é ridículo? É louco. Escrever demorado para leres mais demorado ainda, parece um desenho pontilhado, do impressionismo, sair às pressas dos pincéis molhados no preta e mergulhados no vermelho, ao expressionismo. Por que, num repente, alguém se agiganta desta forma? Agora estou lendo Trem Noturno para Lisboa, (começou com o pedido do oficineiro: ver o filme, depois o livro, ou vice-versa. Fui atrás do livro, comprei, e gostei. Mas não sei fazer crônicas, e não consigo escrever, nem entender da coisa. A burrice me imobiliza, nem pra frente, nem pra trás. Então o livro começa a me aborrecer. Sem esmiuçar repetições, dizendo o mesmo… O truncado, o obscuro, o filosófico, mais do que o romancista. Depois me apaixono e mergulho. Tropeço, depois gosto, gosto do texto de Peter Bieri (o inventado). O filósofo com o pseudônimo de Pascal Mercier, ou o autor do romance com mais de 2,5 milhões de exemplares vendidos… Como O mundo de Sofia de Josten Gaarder. Nem ia te contar desta aventura. Habitas o planeta Terra, não sei bem o nome do meu planeta. Sofro influências, e logo desanimo, tu segues sempre. És metódico, sou desorganizada. És absolutamente claro, objetivo mesmo quando te propões subjetivo, sou confusa. Um sentimento de inferioridade acentuado. É isso? Não sendo objetivamente. Confuso. Tudo que preciso, ou imagino necessitar se refere a tua AVALIAÇÃO, a Beth aluna, (discípulo seria demais), se apresenta, um pouco sob o encantamento, outro tanto, timidez, mas certamente com inferioridade. Eliza, ou Liza? Tua posição em relação a vida, escolha, profissão, e até amor parecem seguros. E eu tropeçando… Tudo para te dizer que comprei um volume de Aureliano de Figueiredo Pinto, porque ainda não o conhecia. Quanto ao mineiro, não consegui. Quanto ao Tabajara Ruas, nem lembro mais qual livro, não sei. Estes livros descartados, com dedicatória e tudo, assombram as estantes dos meus filhos que os receberam, assim, aos montes sem terem escolhido. A ideia de os guardar, e de que um dia lessem os que não li, ou redescobrissem os que gostei, pura fantasia minha. Joana ia se desfazer e o fez, lembras? Apenas se desfazer. Esta partilha aleatória e necessária, fiz antecipada, antes de me mudar pra casa da minha irmã. Eu que zelava por grande parte da biblioteca da casa da rua Vitor Hugo. Livros encadernados pelo pai, pela mãe… Nome de família na lombada. Outros doei também para a biblioteca pública de Cambará do Sul! Quem deve ter aberto um livro? As traças. Literatura, jurídicos, e livros em francês! Esta coisa da perda! A biblioteca inteira do Paulo Hecker Filho que ocupava já um apartamento foi doada para Paulo Betancour. Este vendeu aos sebos. Contam que Paulo fez consciente para ajudar o amigo. Pode-se vender livros assim, aos magotes. Graças! Tu és feliz nestes encontros! E guardas os teus livros. Como te agradeço! Por todos os que amam livros. Também és agraciado pelo prazeroso destas leituras, escolhidas ao acaso. Deste jeito. E sempre, eu vou querer te seguir. E leio tão pouco! Um beijo e bastante saudade. Desculpa a carta derramada. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2021 – Torres – a ser revisado

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