Caderno vermelho

Garagem de Arte – Luciana de Abreu – primeira vernissage sob minha responsabilidade: Vitório GHENO, sucesso!

Elizabeth M.B. Mattos – (3h:36) 19 de abril de 2021 – Torres Eu tive/vivi os mimos possíveis – sempre. Sempre pode ser uma palavra FORTE e GRANDE e PODEROSA, mas, de repente, sempre pode ser a única possível em se tratando dos maridos, da juventude, o que nos parece F A L T A pode ser resolvido com um corte / uma ruptura definitiva, e, adequadamente, costurada: a memória colada assimila…

1984/1985 – caderno vermelho.

Epigrama Número 8

Encostei a ti, sabendo bem que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei – me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar, quando caí.”

Cecília Meireles

26 de dezembro (12) de 1984 – quarta-feira – Santa Cruz do Sul

Espero pelo Jorge. Acordei cedo para terminar atividades da Escola Estadual Petituba, até o dia 29 estou comprometida com a escola…, não encontrei o Jorge em casa. Fiz almoço para nós dois e o espero. Uma hora da tarde. A casa organizada. Gosto da Travessa Canoas, não da fábrica de óleo inconveniente perto (odores/cheiros se atravessam em horários surpreendentes). Gosto da goiabeira que me acorda cantando bem cedo. E os cães se agitam… Consegui vender um dos cachorrinhos da Pitica. Botei anúncio para vender os outros. Quem sabe!? Escrevi carta para Ana Maria e outra para a mãe. Comi um milho, e espero. Ele não sabe dos horários, terei que voltar para a escola de tarde. Por onde andará? O possível e o impossível para ter a casa no lugar certo, o perfeito. Deve estar na obra. Orgulho. As pedras se amontoam no terreno. Emocionante, lindo… Os campos de golfe, o lago e a cidade: a casa de pedra. Ontem consegui conversar ao telefone com as meninas, estavam em Petrópolis, Pedro na casa da tia Lygia no Rio de Janeiro. Saudosos. Dona Frigga adoentada, espero que eles possam conviver com os avós nestas férias. Ana e Joana choraram com o cartão de Natal… Bons filhos, amorosos. Para nós, Jorge e eu, isso importa, o equilíbrio. Este ano passaremos o Natal sozinhos. Optamos: sem as crianças, ou festa, apenas nós, e a paz do campo. Estamos felizes, em nenhum momento lamentei a decisão. Seria / teria sido bom abraçar o pai e a mãe, mas estamos/ficamos cada vez mais longe, saudade. Espero que tenham Natal alegre co as filhas. Nós os convidamos, não quiseram viajar, compreendo. Eu teria enfeitado a casa e montado a árvore de Natal par eles. Para nós dois apenas as imagens do menino Jesus, Nossa Senhora e São José, três velas e um fio prateado, este presépio no canto da mesa…

Jorge molha o jardim enquanto preparo o jantar. Abrimos os pacotes, rezamos e bebemos um vinho. Os discos de Hendel e Bach na eletrola. O messias, orquestra e coro. Comprei três anjinhos de porcelana branca, meus anjinhos… Lamentei não termos um filho. Sinto emoção forte, buscamos força para reconstruir, abrir caminhos. Meia-noite fomos deitar e rezamos um Pai Nosso de mãos dadas… Foi um lindo Natal, Santo! Que deus nos abençoe! Hoje, mais um dia de trabalho. Vou ver o relógio. Que terá acontecido!? Ele ainda não voltou…

17 horas

Cheguei em casa e não o encontrei. Nem um bilhete. Penso em ir até a obra da casa (deve estar lá, almoçado em Rio Pardo), mas posso me desencontrar…Ele deveria “registrar” uma multa de quando fomos a Lajeado, será que lembrou? Foi para Rio Pardo sem tempo de me avisar. Quero ir a padaria, mas ele pode chegar. Coloquei mais roupa na máquina para lavar (a segunda). Tomei mais uma coca cola. Recolhi a roupa seca do varal. Vou tomar uma ducha, deitar um pouco, depois organizar as aulas. Trabalhar. Mas estou ansiosa. Jorge anda tão preocupado! Tanta falta de dinheiro! Esforço incrível, nós nos impusemos sacrifícios pela casa.

22 de abril de 2021 – dia de sol, bonito, bonito demais. Ontem terminei a arrumação da cômoda e das estantes onde estão (o presente não se fez passado, permanência dos danados dos cupins…, já sei que é tempo perdido, guerra perdida, paliativo, os pozinhos voltam/voltaram/voltarão… Toda a manhã em função da faxina dos vidros, faz a diferença, muda o cheiro. Depois, dormi um pouco, o corpo doí, preciso emagrecer. Tirei a mesa preta (agora na garagem), o apartamento aumenta, móveis pesados, grandes. Espaço, no meio da casa, alecrim dourado. Ainda estou cansada. Escrever me animaria, não. Vou caminhar um pouco com a Ônix. Com ela/para ela foi um dia corrido (as faxinas são novo jogo de esconde-esconde, ela tem horror!) e de estranheza, amanhã a segunda dose da vacina. Ana virá bem cedo.

Vacinada. Etapa vencida, brotam ideias de ir e vir, necessidades prementes, desejos urgentes: deveria ter comprado mais flores, e doces. Acertei no peixe. Delícia! A facilidade e o gosto. Na minha pequena lista incluirei temperos. Diz minha amiga que a cozinha, o meu laboratório, traz sempre surpresa boa interessante, vou ensaiar um bolo amanhã… Agora, voltar a dormir. O tempo ficou misturado, um dia com a noite, com o vento: pode ter cota misteriosa de multiplicação, ou a ideia pequenavoluntariosa de ordenar / organizar fica tomada de poder por meses e meses… Mas nada aconteceu: penso em ti todos os dias, provo os vinhos sem entusiasmo, caminho menos, faça planos para resolver aquilo e isso, leio menos, muito menos, limpo, limpo, limpo e a vontade de mudar, ir pro Rio ou pra São Paulo se aquieta. Vejo filmes. E gosto. Ouço música e me entusiasmo. Tudo passa pelo entusiasmo… Tenho que espichar as manhãs. Beth Mattos – abril de 2021, ainda bocejando em Torres, inquieta.

Junho e 2021 TORRES inverno GRANDE e frio como os invernos longos da infância. Lembro das lareiras (as três, queimando nós de pinho), e aquela sensação de vida, o cheiro peculiar, e a dança das chamas! A vida tem estas fatias de gozo espalhadas no tempo. Os nós faziam uma enorme pilha ao lado do que chamávamos quartinho do jardim… Tempo da grama bem verde e as folhagens coloridas abertas… Logo o colégio. Lá também mudava o colorido. O Beco do Carvalho!

18 de julho de 2021 – 75 anos da Magda, logo serão os meus – sim, perto dos 80: rimos / nós brincamos, energia. Acabei de falar com ela. Encontrei uma carta de 1968 – ela fazendo preparativos para uma viagem a Europa, e eu grávida… Sim, história enorme/grande a resgatar, ou a lembrar.

Organizando as cartas do pai, das madres, da mãe, dos filhos, da minha irmã Suzana, dos tios, amigos, do Carmélio Cruz, do Iberê Camargo, fotos da galeria Garagem de Arte repleta / lotada com fazíamos ser. Depois / ou foi antes / a cronologia me escapa. Quando conheci o Jorge, e seu ciúme. Quis apagar tudo para acertar, acertar e recomeçar. E eu, tola, num acesso, coloquei fora muitas cartas da mãe, muitas. Estúpida! Eram diárias as que ela me escrevia quando morei no Rio de Janeiro. Preciosas. Uma angustia se apoderou de mim, era já o ciúme dele, a presença tão constante, exigente. Olhos vigilantes. Achei que poderia sumir com o passado. As cartas da mãe voltavam ao meu casamento com Geraldo, aos filhos pequenos. Ao Rio de Janeiro, ao meu noivado desfeito, outro tempo. Não podemos apagar nada. Somos uma soma. Sempre mais, que pena! Tanta imaturidade minha, medo, vontade de recomeçar do zero, mas não existe zero. Se, de fato, tivesse entrado para o convento, não, estes meus recomeços estranhos. Eu não poderia reduzir destruindo as cartas, precisava carregar a liberdade de ser eu no mundo. Tudo muito bastante tanto demais confuso.

Encontro com cartas datas, e vento gelado em Torres. Sol e luz, e mais… Envelopes e desordem, fotos e juventude.

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