Onde estarão nossos tesouros?

Mundo pequeno, ou somos nós a coisa pequena…, a pensar. Tuas palavras, teu texto tem a convicção que eu procuro: o real. Acredito que pode acontecer, mas não tenho as mesmas certezas. Consigo ver, enquanto leio a carta, tanto tu quanto eu, somos felizes: talvez esta seja a verdade, a alegria perfeita, o dinheiro chega e desaparece: como brincar com areia. Tomei a liberdade de encaminhar para o Sérgio e para a Joana o que escreveste. Perfeito. Estranho reencontro o nosso. Como se as experiências no colégio fossem o menor pretexto para termos nos conhecido, mas foi lá nas famosas medres francesas que nos encontramos. E a Lúcia? Afinal não nos vimos mais – ficou a boa lembrança – com ela eu convivi mais, tu saíste logo do colégio, no entanto, mesmo morando na mesm cidade não provocamos um encontro. E tu, tu estás perto.

[…] “lindas cartas mandaste – mas gostei mais ainda do que escreveste tu, no final, sobre tua casa, tua mãe.”

O que escrevi? Circular, sempre a infância presa neste fio que define quem somos, mas seguimos sem saber. Sabe – se pelos avós: o amor, nós deveríamos buscá – lo no mesmo quarteirão. As referências seriam as mesmas, e a vida correria, então, lisa, compreensível.

Reencontrei o Sérgio, marcados pelas lembranças de meninos. E certos, os dois, que as famílias (avós, pai e mãe) nos aproximam, definitivamente: não importa sermos ou não sermos namorados, definitivo como tempo vivido, reencontrado. Éramos / somos os meninos de antes com as cabeças brancas: vidas em pedaços, perdidos e agora ali um diante do outro, estupefatos. Sabor novo. Nas nossas lembranças não nos demos conta que convivemos, de fato, pouco tempo: da Vítor Hugo seis anos entre música, dança, conversa e visitas. Nada sabíamos de fato um do outro, tão natural era estar juntos, enfeitiçados pela ideia das crianças que fomos, dos jovens…, na mesma calçada. Apreendi no mesmo piano que ela tocava o dó re mí , o solfejo, as mesmas notas. Não progredi. O mistério do passado que não se completa na nossa lembrança Beatriz, escapa.

lembranças são meio assombrações, às vezes me entristecem e me fazem pensar em tantos ‘turning points, escolhas, rumos tomados, inflexibilidades, doçuras… são os contrastes que nos permitem viver, já pensaste? se tudo fosse só bom, a vida seria chata demais, se fosse só ruim ou quando a gente só enxerga pelo filtro da depressão ou da tristeza, da saudade, quase intolerável.

Os contrastes, com eles esclarecemos os desencontros: nos perdemos e nos reencontramos, circularmente. Sequer fizemos escolhas, apenas respiramos, minha amiga. A vida nos aconteceu… Fizemos escolhas? Não tenho convicção.

O dinheiro, realmente, é o que dá peso, os filtros (da tristeza, da alegria etc.) são trocados pelo dinheiro – não que ele seja a coisa ‘mais’ importante da vida, mas é a coisa que regula…

O dinheiro define, tens razão. Fugir dele não resolve, não pensar, muito menos, negar – nada finda, nada começa sem passar pela moeda, os talentos bíblicos explicam isto ( a Parábola dos Talentos, lembras? ) Repensar todos os significados possíveis, redimensionar o valor deste condutor de vida. Sempre foi ele quem conduziu o mundo.

“sempre tô caraminholando algum jeito de abrir os cofres da fortuna, só preciso achar aonde estão…

Onde estarão os nossos tesouros? Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Porto Alegre – 2005

…intenso. E as Madres agostinianas importaram: amigas, correspondentes. Cartas pontuam a vida: Madre Maris Stella, Madre Paulina, Madre Hermínia… E o tempo enrola tudo. A correspondência encerra, no papel, mundos entrelaçados, esquisitices e tanta amorosidade…

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