Uma vez, saí de Carrasco, carona de uma moto possante até o Floreal: Punta del Este. Fervia: noite de verão e velocidade. Lembrança incrível que merecia cuidado especial. Tempo de viver o melhor. Pocitos entre tudo e o mar, um restaurante pequeno, apenas filés…, e o bom vinho, meu espanhol misturado com o italiano. As melhores lembranças de Montevidéu, das livrarias perfeitas, das meninas a pedalar, saias xadrez, voando, mochila às costas… E tardes de sol: manteiga, leite, pão, céus! Boas e extraordinárias lembranças. Beth Mattos
Quando eu te vejo (não consigo deixar de te espiar): eu te fotografo, mentalmente. És lembrança num agora do imaginário / num antes, e, neste depois silencioso. Não és, eu sei, mas tão completamente inteiro! És tu sendo apenas meu, assim como Barthes explica, o texto se alarga. Sinto teu cheiro, levanto as pedras para desobstruir teu caminho, e, sinto no teu beijo, o inteiro, não apenas a tua boca. Beth Mattos – julho de 2021 – Torres
” Eu queria, em suma, que minha imagem, móbil, sacudida entre mil fotos, coincidisse sempre com meu “eu” (profundo como é sabido); mas é o contrário que é preciso dizer: sou “eu” que não coincido jamais com a minha imagem; pois é a imagem que é pesada, imóvel, obstinada (por isso a sociedade se apoia nela), e sou “eu” que sou leve, dividido, disperso e que, como um ludião, não fico no lugar, agitando-me em meu frasco: ah, se ao menos a Fotografia pudesse me dar um corpo neutro, anatômico, um corpo que nada signifique! Infelizmente, estou condenado pela Fotografia, que pensa agir bem, e ter sempre uma cara: meu corpo jamais encontra seu grau zero,[…]
Ver-se a si mesmo (e não em um espelho):” (p.23-24) Roland Barthes A Câmara Clara
Significado de Ludião. substantivo masculino Figurinha, que flutua numa garrafa cheia de água, e que serve para demonstrar a teoria da aerostação. Lúdio – Google
Manhã de boa caminhada, luz e luz, tanta luz! podia ser todas as estações concentradas: prazer, gozo de alegria boa. Sem ler jornal, sem ler…, cada susto! Também as notícias certeiras e lúcidas, mas nada se explica. E se tu não te agarras no cipó certo te verás nos braços de um tigre cheio de fome! Selva é selva! Tanta beleza! Tanta insanidade, mas o Fantasma, o Tarzã estão por perto…, e eu me sinto segura. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021
Gosto de dormir em horas engraçadas, e estar acordada quando todos dormem…, e fica maior o dia de viver / o tempo de sentir. OU apenas ilusão, apenas ilusão, deve ser. Beth Mattos
Começar / refazer / ordenar pelas gavetas parece banal. Não penso que seja, ao contrário, ouso acredita em criatividade. De dentro para fora, e sem pressa de terminar… Ah! Quantas gavetas a serem surpreendidas! O cuidado pincela / ajusta o ânimo, e a força volta ao corpo. Este inverno sem defeito me deu um susto, educou meu jeito estabanado de entrar e sair refestelada nos desejos alegres. Afundada na cama, espiando o dia, desacomodei a dor e o susto. Deu certo. Não seguir confiando, ou melhor, confiar com cautela, a possível, reavaliar. Bonito de escrever, difícil de fazer. A sensação de equívoco volta: os erros serão iguais…, repetidos. Esquerdos. Se quero ser outra / nova / ou apenas Eu do jeito que sou, há que cortar memórias, sacudir lembranças. Doloridas ou excelentes, as ótimas são armadinhas. A cada escolha um nó de marinheiro… Curioso! Quero/desejo/imagino vidas, mas em todas elas me coloco/imagino /penso ser outra, sou eu, apenas eu, plantada em novo canteiro. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2021 – Torres num dia de sol, sol entrando / ou se instalando na sala.
[…] entre as coisas indispensáveis à raça humanam, figuram, necessariamente, alguns desejos insensatos, não existem homens sem o amor. E o desejo nos guia / leva. E será sempre para o melhor caminho do prazer e da alegria necessária, suportamos o mal / a maldade por amor, e curamos a florir o caminho. Beth Mattos
“[…] parmi les choses indispensables à la race des hommes, figurent quelquer désirs insensés, Il n’y aurait pas d’ hommes sans l’amour. E d’où penses-tu que nous ayons tiré la première idée et l ‘ énergie de ces immenses efforts qui sont élevé des villes très illustres et de monuments inutiles, que la raison admire qui eût été incapable de le concervoir?” (p.26) Paul Valéry Eupalinos ou O Arquiteto
Para que os dias não sejam iguais: Devem ser reais, brutos, vivos, originais. Aliás, não devem nem mais nem menos. Não devem ser amenos, não devem ser pequenos. Necessitam da extinção do pudor, da escassez, da avareza. Que deixem pra trás o rancor e a dramática novela mexicana. Que sobre à mesa a flor e o frescor da verdade. Que exista fartura de alegria, o não exagero da dor. Que a lama seja mais importante que a fama. Que a cama seja macia e sincera. Dias de consciência e resistência. LMD
Transparente finitude! Existe / tem / há decisão a cada hora / tempo. Vontade de correr, também de imobilizar, mas eu te digo: logo socorre o alívio: terminou…, ou se cristalizou, ou morreu, ou se resolveu, verás. Nem sempre azul, nem verde, talvez alaranjado, castanho. Amarelas ou arroxadas…,transparentes esperanças. Corajoso suspiro! E já é/será outono. Elizabeth M. B. Mattos – julho de 2021