fala interna e identidade

Como? Por quê? E se…

Aos cegos / aos que de alguma forma se sentem menos e terminam por se completar com este diálogo interno, precioso e necessário para sermos nós mesmos. A viagem vida…,e, já estou perdida, tantos são os elos de um único sentimento, compartilhar / dizer/ ou se fazer ouvir. A cada autor, seu tema / seu gosto / seu temperamento, o que de alguma forma persegue, sua cisma. Ciúme / infância / sexo / tropeço, rua ou cidade, leis, ou ética ou traição, morte ou vida. O seu monólogo interior materializado. A minha truncada e esquisita memória que acelera quando perco um livro, esbarro no outro:

“É preciso começar a perder a memória, mesmo que a das pequenas coisas, para percebermos que é a memória que faz nossa vida. Vida sem memória não é vida […] Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nosso sentimento, até mesmo nossa ação. Sem ela, somos nada.” Luis Buñuel

O diálogo impulsiona a linguagem, a mente; mas, depois que esta é impulsionada, desenvolvemos um novo poder, a ‘fala interna’, e esta é que é imprescindível para nosso desenvolvimento mais amplo, nosso pensamento. ‘A fala interna’ explica Vygotsky, ‘ é uma fala quase sem palavras […] ela não é o aspecto interior da fala externa, é uma função em si mesma […] Enquanto na fala externa o pensamento corporifica – se em palavras, na fala interna as palavras morrem quando dão à luz o pensamento. A fala interna é em grande medida, pensamento em significados puros.’ Começamos pelo diálogo, pela língua que é externa e social, mas depois, para pensar, para nos tornarmos nós mesmos, temos de passar para um monólogo, para a fala interna. Essa é essencialmente solitária, profundamente misteriosa, tão desconhecida pela ciência, escreveu Vygotsky, ‘quanto o outro lado da lua’. ‘Nós somos nossa linguagem’ costuma-se dize; mas nossa verdadeira linguagem, nossa verdadeira identidade, reside na fala interna, no incessante fluxo e geração de significado que constitui a mente individual. É por meio da fala interna que a criança desenvolve seus próprios conceitos e significados; é por meio da fala interna que ela conquista sua própria identidade; é por meio da fala interna, finalmente, que ela constrói seu próprio mundo. E a fala interna (ou sinais internos) […]” Oliver Sacks Vendo Vozes na (p.84-85)

Um elo traz outro elo, a generosidade de um voz, de uma conversa flutua com a mesma medida da agressividade, movimento modular. Este monólogo, esta vontade insana de escrever para dividir, para entender o próprio pensamento pode ser uma jangada em alto mar, sem direção / definitivamente perdida da minha vontade genuína ser pianista / escritora / cantora. Escrever sem eixo nem foco ou certeza, uma fala interna a querer se comunicar, tal qual a a foto de um rio, de uma flor. Traduz um/o mundo, mas /porque atrás da imagem um olhar, da lente, o desejo solitário. Eu querendo dizer/querendo sentir/ querendo comunicar: o grito de uma janela, de um não sei aonde…, perdido a ecoar grita por socorro! Tão solitário… O que se pode fazer?! Não sei. Somos todos, estranhamente, solitários e perdidos. E achados. Encontrados na voracidade da leitura, ler traz/produz uma identidade. Ler pode ser aquela conversa / monólogo-diálogo. Os IGUAIS /SEMELHANTES se aproximam…, sem mesmo poder dizer. Os surdos / os cegos / aos que de alguma forma se sentem menos e terminam por se completar com este diálogo interno, precioso e necessário para sermos nós mesmos. A viagem vida. Lembrei de um autor que adoro Ernesto Sábato (nascido em 1911 em Rojas, na província de Buenos Aire) e do seu Informe / Relatório sobre os Cegos, parte de Heróis e Tumbas. Não esquecer de ler O túnel. E…, já estou perdida, tantos são os elos de um único sentimento, compartilhar / dizer/ ou se fazer ouvir. A cada autor, seu tema / seu gosto / seu temperamento, o que de alguma forma persegue, sua cisma. Ciúme / infância / sexo / tropeço, rua ou cidade, leis, ou ética ou traição, morte ou vida. O seu monólogo interior materializado. E o luxo de escrever, aos meus escritores preferidos / aos esquecidos / aos interlocutores, aos pintores pintores, aos amigos missivistas (com Paulo Hecker Filho e Antônio Carlos Resende), aos jornalistas amigos e amantes amados. Obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – setembro de 2021 – Torres

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