desesperança

Quem mora à beira mar dificilmente poderá ter, entre todos os seus pensamentos, um só no qual o mar não esteja presente… Há quem não se alimente desta imensidão, não absorva as vozes que chegam do mar…, eu me envolvo. Tudo que se aproxima dos meus sentidos, cada tom, cada cor, cada chamada de pássaro e cada raio de sol altera meu humor. Todo eco deste/neste murmúrio me atordoa, ou acalma. Se eu me envolvo com estes sentires/sentimentos, não preciso me tornar apenas eu, mas me transformo em parte de outra coisa, estrangeira. Escorrego silenciosa.

Anos acalentando a memória: esperança de jovem, desesperança de velho. Desesperança do poder apanhar o acontecido, e o que está por acontecer, antes que seja tarde demais. Começar pela infância…, eu começo por lá, e, fico estacionada. Não parece simples a verdade. As engrenagens não funcionam… Bem! É verdade. Eu tenho o mar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 – Torres

auxílio

Nesta solidão ninguém pode contar com o auxílio do vizinho: cada um com sua preocupação incompreensível. Extremas solidões. As confidencias não ajudam. Toda e qualquer observação machuca. Falar pode ser a mais incrível aventura… Não, não está tudo bem, mas se estivesse seria mais esquisito ainda… Elizabeth Mattos – outubro de 2021 – Torres

Brinco com as ondas do mar. Enfio os pés na areia molhada. Espero o novo temporal, e a tal reviravolta…

um caso de amor

Se eu pudesse te chamar de volta / se tivesse segunda chance! Não tem. Choramingo um pouco, escuto música. Lembra do fervente? Lembro de tuas mãos geladas, tua pressa e teu medo, teu sucesso! Lembro das tuas leituras surpresas atravessadas e dos teus telefonemas escondidos, do fax, dos bilhetes rasgados. Lembro quando juntei pedacinhos… Somos surpresa, reação. O que nunca faríamos, fazemos… Ah! Sinto saudade do teu amor! Eu te amava e tu me amavas. Uma volta não pode, há que haver duas e riscos, penhascos, aquilo tudo que vivemos. Às vezes, eu me aborreço por estar ancorada neste mar. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2021 –

coração inconstante

01 de 10 de 2021 – das inquietudes, depois da chuva esplêndida, como deve ser a chuvarada, esplêndida. Da caminhada entre amoreiras exauridas, do dia sem olhar, talvez seja isso o não sentir. Reajo, mas nem tanto! Nada com a pandemia, tudo certo (risos) com a pandemia, vacinada, disposta, a brigar pelo espaço, é verdade, ah! Dizer, afirmar, se posicionar, coisa certa. Antes eu me encolhia, hoje tenho herói. Sou, estupidamente, comum. Muito engraçado isso! Uma nota na coluna social, um livro de quentura! Duas linhas, um brinde! Uma foto, a certeza. Ah! Naquele tempo as estrelas estavam no firmamento, e as festas eram festas, as pessoas, acontecimento. O caminho, fácil. As calçadas pavimentadas, sombrias ou enlouradas? Não lembro. (risos)

Flores tímidas, e tanta exuberância eu vejo nas fotos, nos jardins! Quem sabe no próximo ano, ou no seguinte estarão as minhas floridas! Preciso arejar o quarto, abrir espaço, e dormir. Acordar mais vezes como se o dia começasse, detesto o meio da tarde, o entardecer, e a noite. Não pode ser assim! Vou para a música.

Those tapes are palaying in my mead…All those silly love songs. Shopgirl sorrows, jukebox tears, low-rent rendez-vous. Where or when, September songs, the clothes you’re wearing are the clothes he wore, the smiling you are smiling he was smiling then, but I can’t remember where or when. Oh, to love again and again…” It’s always the same thing. Always the same goddamn silly thing [As fitas estão tocando em minha cabeça, todas aquelas estúpidas canções de amor. Tristezas de balconistas, lágrimas de jukebox, encontros de aluguel… Onde ou quando… Canções de setembro, as roupas que você está usando são as roupas que ele usou, seu sorriso de agora é o sorriso dele então, mas não me lembro onde ou quando. Oh! Amar e amar e amar… É sempre a mesma coisa. Sempre a mesma maldita coisa estúpida.]

Talvez eu sinta falta da rotina invertida, embora rotina, a dúvida (sentimento impreciso), que pode ser enfadonho. Estou irrita. Quero ser feliz antes de dormir, ver lua e estrelas, quero gostar do morno dia quente de verão… Com chuvas fortes e ventanias: todas elas especialidades do amor. Talvez eu já tenha esquecido: as horas, todas, as minhas. Horas possuídas, inteiras. Eu posso ir e voltar, fazer ou não fazer, na rotina do prazer, seguir… Acordar do sono e me encher de alegria terrível, de assombro sagrado e divino. Dar explicações, estou eu comigo, outra vez, apenas eu. Sem aprovação ou reprovação. Livre para realizar o trabalho e governar a natureza. O trabalho, o despertador, sem hora para voltar. O prazer de conviver. Viver. O pensado se desvia. Oh! Não, não, não, não, não, não pense nisso. Não arruinar o presente com o passado arruinado. Ficar bem, ser inteira, estar bem. Tenho um coração inconstante, mas corajoso. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2021 – Torres