subidas íngremes

Um dia, estávamos caminhando por uma estrada que subia íngreme, perto de casa, provavelmente, minha memória está cheia de subidas íngremes, devo confundi-las todas.” (p.123) Samuel Beckett Malone Morre

Fotos, lembranças, objetos, coisas. Enquanto limpo um livro, troco de lugar. Volto a ordenar a minha contínua e particular desordem. Eu me encontro com o passado / ou ainda no presente? E caixa de fotos!? Dentro do vento e desta chuva, da luz, a lembranças desfiadas, arejadas. Ah! Este esforço enorme para saber onde eu estava quando me senti extremamente feliz? E depois, infeliz, traída. Como consegui agarrar tudo, e fazer outro lugar ser meu, não sendo? Como foi mesmo estar na Garagem de Arte, e, depois ser despedida sem dó nem piedade, na surpresa surpreendida. Bem, afinal, era um possível precipício antes de ser arrematada. Foi tão inconsequente largar o magistério! Resolver interromper o trabalho de um concurso, de um tempo laborioso. E, ser, de/num repente rio cascata! Sou grata também de ter sido acolhida / surpreendida! E foram anos de marchand , muitos bons. Fiquei a mudar de casa de lá pra cá, pra lá, até chegar em Torres com as caixas, os livros e a metade das coisas. As que eu guardei comigo, ou que, ficaram apesar de (relembrando Lispector). Remexida nas lembranças de livros lidos. Ah! Frenéticas leituras estimulantes. Antes e depois.

Samuel Beckett in Malone Morre : “Só são minhas as coisas cuja situação eu conheço para poder me apossar delas, se precisar, essa é a definição que adotei para definir o que é meu e o que não é, senão, não terminaria nunca, o que, de qualquer forma, eu nunca terminaria mesmo. (p.98)

Algumas leituras não terminam, autores definitivos, lidos, amassados e triturados, esta voracidade eu sempre tive / e certos, específicos livros (como este que estou citando) me devolvem a hora, o momento, o ar do momento em que li. Curiosa sensação!

Sinto estar, talvez, me atribuindo coisas que não possuo mais, e dizendo que estão me faltando coisas que não me faltam. Eu sinto que há outras, por fim, lá no canto, que pertencem a uma terceira categoria, a das coisas sobre as quais eu ignoro tudo e sobre as quais, portanto, há pouco perigo de eu estar certo ou errado. Eu me permito lembrar que, desde a última vez que conferi meus pertences, muita água correu debaixo da Ponte Butt, nas duas direções. Pois já morri o suficiente dentro deste quarto para saber que algumas coisas saem e outras entram, não sei graças a que poderes. E entre as coisas que saem, há algumas que voltam, depois de uma, mais ou menos, prolongada ausência, e outras que nunca voltam. Com o resultado que, entre as que entram, algumas me são familiares, outras não. Não entendo. E, mais estranho ainda, existe toda uma família de objetos, que parecem nada ter em comum, que nunca me deixaram desde que estou aqui, mas que ficam quietinhos no seu lugar, no canto, como em qualquer recinto desabitado”(p.99)

Eu já perdi o fio. O que eu pretendia escrever escapou. Distraída com as fotos do filho, do neto, da casa, da boneca, do tempo. Esta coisa de insistir em prender o tempo…, perdida em encontrar o ano certo para o evento certo. A tal memória emocional se agarro no sentir. As boas sensações, as lembranças ruins brotam para deixar nascer as boas. E enquanto tentava contar vou me dando conta, ou reafirmando que a coragem de viver existe na hora de viver. O fertilizante deve ser alegria. Ah! Lembrei! Eu ia / vou transcrever uma carta do FT em resposta a uma carta minha, no tempo dele estar lá e eu aqui. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2022 – Torres / Torres agarrou tantas histórias boas! Porque sempre existiram os verões. No tempo de Santa Cruz do Sul e Rio Pardo eu não vinha pra Torres / dois verões em Armação da Piedade – Santa Catarina, no Continente. A carta / as cartas / a seguir…

2 comentários sobre “subidas íngremes

  1. Amei esse post… gostaria eu de ter escrito entre descidas e subidas… De uma vida desarrumada que hora parece se organizar outra está ponta cabeça.

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