2014 (JCKC)

Naquelas poucas horas, quis conhecer toda a minha vida, as minhas recordações, meus pensamentos, as minhas fantasias, os meus sonhos. Tudo. E compreendia tudo com uma rapidez e uma exatidão que, depois de um espanto inicial, me deu medo, pois a sua percepção desenfreada derrubava todas as barreiras protetoras. Nos anos que se seguiram passei a fugir toda a vez que alguém começava a me compreender. Isso melhorou. Mas uma coisa permaneceu: não quero que alguém compreenda totalmente. Quero passar pela vida sem ser reconhecida. A cegueira dos outros é a minha segurança.” Pascal Mercier

Pressionada pela leitura, e, com saudades. Saudade de ti. Por que foi tanto L.? não sei explicar. Associações cabíveis, outras fantasiosas. Pessoas entram no imaginário, permanecem. Presente. Presente para sempre. Tu estás instalado dentro de mim, quando te penso volto a ser a tua Beth. Deve existir uma Beth Mattos que é apenas tua. O jeito de expectador que tens, daquele que olha, às vezes me atrapalha, intimida. Não ouso, mas gosto. Fico no meu tamanho natural. Sem magia das poções de Alice. Pois é…, queria ter ousado Não é ridículo te dizer isso depois de tanto tempo?! Ridículo. Desfocada do meu velho mundo, sem jeito, corpo pesado, roupas velhas, volto para perto de ti…(tu mereces o melhor, sempre mereces). Bebo o bom vinho italiano que trouxeste. À volta ao encontro, a possibilidade de ser acolhida, reconhecida por ti. O abraço, um beijo. Na fantasia, diferente, sou /somos os estrangeiros, então, possíveis. Volto a citar o livro: “ Embora pareça hoje que Amadeu estava apaixonado, interessado por mim, não era bem assim. Não se pode dizer que aquilo era um encontro. Com tudo que ele soube de mim absorvia a própria substância vital, de uma maneira insaciável. Para dizer e outras palavras, eu não era alguém para ele, e sim o palco da vida, um palco ao qual se agarrou como se, até ali, tivesse sido enganado.” Lembro da tua chegada de avião em Torres, no verão de recomeçar. Na minha fuga para Torres. Renascer. Tua proximidade, a tua cumplicidade. Tua presença. Mas logo a tua vida / a outra gritou e tiveste uma filha, e eu um neto.

Pensei em ti dois dias, obsessivamente, estranhezas da vida. Tanta coisa a te dizer! Não imaginas como desaparece a olhos vistos o nosso balneário, o tempo das gincanas, dos cabritos, da natureza aberta, de dançar. De te namorar, da SAPT. Rapidamente vamos a desaparecer. Às vezes me assusto, outras aperta a saudade e pego o telefone, quero falar contigo! Depois espero por nós dois na mesma esquina, de frente para o mar da Praia Grande! Um beijo. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

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