se eu lembrar como foi

Esta memória esfarelada, ‘agarrada’ em detalhes, ou picotada. Fotos. Palavras soltas. O fragmento de uma carta. O parágrafo de um livro. Quando eu conto/explico, estou presa. Depois a falta de ar. Sufoco. Qual o sentido disso? A cada resposta cruzo a emoção: desenho um detalhe, o definitivo.

A sensação era de ausência de liberdade, de que nunca estamos em paz, de que estamos o tempo inteiro sendo vistos, de que já não existe nenhum lugar onde podemos estar sozinhos. A dramaturgia empregada na apresentação desses acontecimentos criava uma intimidade com tudo aquilo que acontecia. O outro acontecimento não tinha dramaturgia nenhuma, era apenas uma coisa que eu tinha visto, sem qualquer tipo de mediação, não havia intimidade nenhuma, e tudo permaneceu completamente enigmático. A partir disso tirei a conclusão de que a escrita deve buscar a ausência de intimidade, aquilo que conhecemos, mas não sabemos o que é. Na verdade isso valia para tudo, pois mesmo que tudo fosse explicado e compreendido, as coisas seguiriam existindo como fenômenos, contidas em si mesmas, fechadas, herméticas.” (p.822) Karl Ove Knausgard Minha Luta 6 O FIM

Ficamos as três quietas depois de um tempo, acho que resolvi comer todas as bolachas do prato, e enchi minha taça com chá, repetidas vezes. E resolvi olhar o céu que eu podia ver pela janela. Elas continuaram a conversar. Os pontos se cruzam, a satisfação de conclusão positivas deu um bom coroamento. Na bolsa eu carregava um maço de cartas, fotos, um quebra-cabeça afetivo. Mas eu não me senti autorizada a ler / nem mostrar as fotos. Não importavam minimamente, nenhum valor. A colcha que nos cobria eram narrativas soltas daquela pessoa, daquele tio, daquela misteriosa assertiva. As fotos da minha vida. Eu podia dizer como eu sentia como eu via, o que tinham me contado era insignificante. E assim, o passado está atrás do muro. Elizabeth M.B. Mattos – julho de 2022 – Torres

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