utopia

Utopia: sonho, devaneio, fantasia… tais os sinônimos comumente atribuídos a essa palavra, criada, como se sabe, em princípio do Século XVI, por Tomás Morus.

Homem feliz, cujos pensamentos fora tão sedutores que a palavra, com que os designou, se incorporou na linguagem vulgar, passando a lembrar um belo sonho! “Ivans Lins Thómas Morus e a Utopia

No vento a fantasia, na música a loucura. Loucura deste vagar potente, único. Das cordas do piano a melodia doída deste dia-epidemia. Esquisito medo sem palavra agarrado no mal humor agressivo da pressa. Será que eu vou mesmo chegar? Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres e tanta, tanta ventania quente!

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forçar e pressionar

“Tentar forçar algo, entende?, forçar sempre é errado. E isso é forçar e pressionar – fazer com que todo mundo ame todo mundo, e que eu tenha que amar todo mundo o tempo todo.” (p.290) Barry Stevens Não apresse o rio, ele corre sozinho

Trazer de volta uma pessoa será sempre redesenhar / repensar/ imaginar. O paradoxo da lembrança oscila entre opostos. E vou a caminhar pela infância (aquece a alma), imaginação! Constatar a imensa/enorme solidão de dentro enquanto descreve as paredes da casa. A exata importância do beijo. Ficção, emoção sem responsabilidade. Lacunas, dúvidas preenchem o texto… Experiências passadas preenchem lacunas. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

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Perfume da goiabeira dentro da casa / prazer guloso.

estavas lá

Faz muito/tanto tempo sem me sentir atordoada, perdida no meio do caminho como estou agora…, sem respostas. Mais azedo/esquisito do que o normal. Desânimo. Sem razão. Tenho que restabelecer a confiança. Há/existe caminho. Eu nunca tinha pensado no quanto viver sozinho tem/pode/ será / é um circo de horror! Saúde sim, vida sim, sobrevivência sim, cuidado sim. Como ser diferente? O livro não me acalma, o texto não chega, e as vozes se perdem…

Graças! Faz uma semana ou foram uns dias eu pude estar contigo, e voltar para casa, e estavas lá comigo a visitar o passado…. Alguma força maior te empurra, e te abraça, e tua vida se abre… Que bom! Por favor, vem me buscar.Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2020 – Torres

Ernesto Sabato HETERODOXIA

TERROR AL CAOS.

Los Sistemas, como decía Peguy, son sistemas de tranquilidad, que amamos porque nos sentamos sobre ellos. Es una forma de vivir tranquilos, a cubierto de los peligros y asechanzas del Caos, de la obscuridad, del misterio, del más allá. Son bastiones contra angustia que se levanta apenas asomamos un poco la cabeza a esa tierra pavarosa. Nos refugiamos en los Sistemas, en las Iglesias, en los Partidos, en las Ortodoxias, como chicos en las faldas de la madre. Son, en suma, manifestaciones de la cobardia.

El hombre libre, el herético, el solitario, tinne que estar poseído de un valor casi demencial.” (p.78) Ernesto Sabato Heteroxia

A pensar sobre esta tranquilidade fabricada/ criada/ construída com endereço certo/preciso e adequado para apaziguar e proteger a angustia. Perigosa incerteza deste caos chamado terra, desta confraternização humana meio a  tantos desconhecidos/amigos… Sinto saudades doentes de meu pai e da minha mãe e do que diziam / como pensavam/ como eram -, pessoas. Quero eu mesma fugir. Covarde. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2020 – Torres

heterodoxia
substantivo feminino
  1. caráter ou condição de heterodoxo.
    • oposição aos padrões, normas ou dogmas estabelecidos (por um grupo).
    • doutrina heterodoxa; heresia.

    Vem uma chuva deste céu: a água lava e renova, e assusta. Será que o susto pode ser maior do que esta danada epidemia que me faz do avesso  e afoga no medo?

a invenção da solidão Paul Auster

“[… ] um homem morrer apenas porque é um homem, nos leva para tão perto da fronteira do invisível entre a vida e a morte que não sabemos mais de que lado estamos” […]

(p.11) Paul Auster A invenção da Solidão

22  de dezembro de 1999 e eu fui tracejando meu prazer, fechada e convicta que o mundo só tinha esta resposta, o meu neto, Beth Mattos, todo uma nave especial trazia o evento e festejar seria normal e lírico e doce…a rede de amor eramos nós.Ana e os meninos

Elizabeth Mattos / Ana Maria Vianna Moog e João V.M. Brentano e Lucas V. M. Brentano – 2020 – Torres –

outra vez Susan Sotang: constrangida

Ana e os meninos

A trajetória da vida humana deveria ser mais física na primeira parte e mais contemplativa na segunda. Mas a gente deve se lembrar que essa opção raramente está disponível e é muito pouco apoiada na sociedade. E também é preciso dizer que muitas de nossas ideias sobre o que podemos fazer em idades  diferentes e sobre o que a idade significa são muito arbitrárias – tão arbitrárias quanto os esterótipos sexuais. Acho que a polarização juventude-velhice e a polarização masculino-feminino sejam os dois principais esterótipos que aprisionam as pessoas.  Os valores associados à juventude e à masculinidade são considerados as normas humanas, e todo o resto é tido no mínimo como menos vantajoso ou inferior. Pessoas idosas têm um senso de inferioridade terrível. Elas se sentem constrangidas por serem velhas. O que você pode fazer quando é jovem e o que pode fazer quando é velha é tão arbitrário e sem muita base quanto o que pode fazer se é mulher ou o que pode fazer se é homem.” (p.28) Suzan Sotang – Entrevista completa para a Revista Rolling Stone

E a gente fica a pensar nestas coisas todas porque, afinal, pensar pode ser uma coisa boa para explicar a vida. Ou a gente escolhe uma vida cheia de vida, com cães, gatos e todos os animais que nos ensinam a fazer isso e aquilo. Ou a gente conversa, ou num monólogo a pessoa se repete e vai se explicando ou dizendo o que nunca pode dizer porque as falas nem sempre se misturam, mas se chocam. Por que me apaixonei súbito por F.T. – importa? Talvez por ele estar ali sentado naquele momento de aflição a se fazer presente junto a Iberê Camargo que morria…, ou porque me olhou e sorriu. E disse que estava procurando uma casa em Torres (todos adoram isso de morar beira mar ou no lugar das férias e ou da juventude, perto de sol), ou porque nunca entendeu como o Iberê e eu podíamos ser amigos, ou porque eu olhei nos olhos dele e sorri. Tinhas olhos azuis e era tão magro que até podia não ser/não existir como real. Um risco. A natureza dele sempre foi ser magro, magérrimo. E eu me apaixonei pelo Flávio. E eu estava ali. Por que me apaixonei outra vez por um estranho? Porque ele me contou toda as aventuras juvenis que viveu e, sei lá. Porque me disse que eu importava. E derramou fantasia erótica. E eu quis ser menina outra vez. Por que Gustavo morreu assim de repente sem que ao menos eu entendesse se era amor ou… Que não era nada, nem muito, apenas um encontro de dois setentões acreditando… Pois é estranho tudo isso de se apaixonar, de pensar, de se entregar. Ou dizer não quando deveria ter sido sim. Ou de se expor e querer quando já não é mais o tempo de querer como diz/explica Susan Sotang na entrevista. Envelhecer deve ser meditar/polemizar e pensar, pensar e pensar ou embalar netos nunca querer sexo. Será assim, envelhecer? Envelhecer deve ser estender a mão e ter amigas e beber chá, ou limpar a casa. Aquietar. Embalar os netos. Colher margaridas, não / nunca se despir ou inspirar ou dizer / ou imaginar/ ou olhar para os lados. Envelhecer… Ah! Quando somos jovens vamos em frente, e nos jogamos no rio para atravessar a nado a correnteza. E temos certeza de conseguir. Pois é. A cada amor uma certeza absoluta.  E agora se eu espero, não faz sentido, apenas esperar porque tudo o que te rodeia já é mesmo um amontoado razoável de vida. E devo me acomodar no meu mundo de violetas e livros. Ah! OK. Estou, levemente, deprimida porque não podemos nos ver, tomar café juntos nem rir. Depois, eu penso: nem vais imaginar ou querer me ver, envelheço, vertiginosamente, enruga a pele,. Tenho vínculos, ou já sulcos. Sim. Temos a vantagem do escuro. O escuro reduz o olhar. Estás rindo? Apenas tu sabes que te escrevo diariamente. Elizabeth M.B. Mattos –  2020 – Torres

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Carta escrita  no dia 09 de novembro  – Ana Maria foi para Porto Alegre. A barriga linda nos seus sete meses, com o meu neto, o João. Estou emocionada ao vê-la na beleza que transborda… Os cabelos crespos espalhados pelos ombros, os olhos maiores do que já são; rosto marcado pela intensidade necessária da expectativa. Tudo nela, definitivamente, transborda. A boca entreabre na fala, todo o corpo é amanhã. Tenho vontade de chorar quando penso o que penso. O mundo continua e a a rede se faz lenta e mágica. Não pode ser diferente. Não posso parar para reter tudo como está acontecendo agora: pura limpidez e graça porque não dizer felicidade. Enfim, lá foi ela encontrar – se com a irmã: tranquila, amorosa. Estão felizes eles os dois, o casal. Agostinho chegou em casa depois de uma semana de plantão e o abraço era de pura ternura e alegria. Vê -los é vislumbrar a paz. Uma sensação de quietude prazerosa. Que perfeição podem ser momentos como este! […] É bom estar assim merdalha na maternidade. Os filhos esteio: força interna que nos faz ser homens (seres) num mundo de vulgaridade em que as pessoas se escondem em cavernas… Estou sendo incisiva? É que perdidos os valores esbarramos nas aparências: beleza, dinheiro e poder. Estes fazem mesmo a máquina girar. Suponho que perdemos as referências interiores, perdemos a individualidade…, ou a necessidade dela. O espetáculo é o mais importante, não a vida.; precisamos é representar…, ou nem existimos. Há que haver a manchete, a televisão, as vozes e o microfone, e o palco. Pobres! Lamento este pequeno homem que vive debaixo dos holofotes e esconde a sua essência na caverna. Mas a emoção da gravidez é a semente. Rejubilo. Acredito que o mundo pode se renovar e tenho prazer, muito/tanto prazer! Expectativa. Estou, como eles, feliz.  Elizabeth M.B. Mattos – 1999 – Torres

Curiosa correspondência que vou encontrando aos pedaços. Sempre atraída por este colorido das cartas. E estás na outra ponta. Como eu gosto de te pensar! És o hoje.