velhas

Velhas e silenciosas histórias de estórias agitadas das/nas sombras de um dia de sol neste inverno de 2022 – esdrúxula luz invade o teclado! É o piano e as cordas! Campeira / ensolarada / cozinhando / perfumada pelo vinho e tua alegria. Elizabeth M. B. Mattos – junho de 2022 – Torres

luxo e certeza

Luxo das viagens! Deste estar de mãos dadas, descobrir o prazer organizado e o intenso. Como explicar a vida e a generosidade de respirar e dormir, e de existir!? Também o iluminado se atravessa! De volta!? Não posso ter o passado / nem planejar o amanhã. Abro as caixas (enquanto o piano toca) e vou, passos lentos, aquecida pelo sol deste junho de 2022, a me relembrar/lembrando o detalhe, respirando com cuidado! É prazer. E todas as viagens pequenas foram estupendas porque…, por quê? Atravessadas pelo ou com amor. Fiquei carioca / não desisti de ser Eu. Casei / separei / segui em frente, e, conheci pessoas especiais/outras nem tanto. Pude seguir: ganhei Montevidéu e Carrasco! Ah! lugar e casa de sonhos! E estive a viajar no ritmo bom, com espasmos entrei nos meus reinos (os que eu não conhecia), escrevi as cartas certas, e muitas estúpidas, erradas, equivocadas. Dormi nos lençóis de rainha! Como posso contar este tempo?! Era uma vez

Nada é extraordinário, mas o francês, minha França, o espanhol, os livros seguem especiais, como as pedras! Por que mencionar? Estaria na Alemanha, na Irlanda ou na Holanda! As viagens estão nas caixas, e as caixas vieram comigo para Torres. Quando o mundo desabou, eu ainda tinha Torres: o porto seguro. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

BRISER LE TEMPS

Plus loin que le regard / Au delà de l´attente / En dépit de toute vie vécue /Il n’ y a rien à voir / Sinon le singulier besoin de vivre / et ma manière de briser le temps – Bernard Mazo – Passage du Silence

vocação

A memória fraccionada de coisas/detalhes que importaram: uma vez eu quis ser religiosa / entrar para uma congregação. Aquelas manhãs, todas, na capela. A missa em latim e o ritual completo. O silêncio, o canto gregoriano. Os retiros espirituais dançavam em sintonia com o meu sentimento: eu completa. Unhas bem curtas, cabelos amarrados, austeridade. Uniforme, aventais impecáveis. Leituras necessárias. O latim. Um ritual que me fisgava e roubava todas, quaisquer outras pretensões. Hoje descobrindo o eu ansioso lembro desta idade com doçura! A ideia seria servir e fazer bem feito, da melhor forma: servir. Agregar. Teria eu conseguido, não sei. O certo é que as Madres agostinianas atravessam / dominavam minha alma, mas, mesmo assim eu me insurgi algumas vezes… Embora preferisse subir o morro pra fazer o Serviço Social em vez de almoçar em casa, eu também pegava em justiça com as /por minhas colegas. Enfim, de tudo que fizemos, eu não cheguei perto do convento. Hoje não assisto missa aos domingos. Rezar eu rezo. Rezo. E converso com certa insistência quando me preocupo já com os netos, como se as correntes não tivessem sido devidamente arrastadas. Por que alguém sofre? Eu lembro também da Beth menina, das orações, da doçura rebelde! Depois veio aquela loucura de querer me casar! Sim, eu já tinha trocado de colégio, o Bom Conselho era festa e festa e brilho! Colegas inteligentes / professores ativos, e um ir e vir que se transformou em festas e festas. E de lá foi varrida a minha vocação religiosa. Ter amigas / dar risadas / dançar e dançar já com a boa saliência / malicia de querer o outro lado. Agarrei um noivo que era o avesso dos meus amigos certos. Circunspecto! Zélia Maria noivou, noivou com o noivo de toda a vida, e eu queria ser como ela, a menina que ela era! Ora ora dona Beth! Nada poderia ser mais esdrúxulo. E claro! Não deu certo! O desvio deu todo errado. Nenhum verão conseguiu corrigir aquela obstinação. Torres era o nosso ferrolho / Torres era a SAPT / a Guarita / a Praia Grande com as barracas, o vôlei na praia: a festa de ser livre. Éramos todos livres e alegres e amigos. A vida! Bem! A vida seria a continuação de todo aquele sol, das caminhadas, dos namoricos, dos jogos de carta! Dos amigos certos! Panquecas de bananas, filés e sorvete. Fartura em tudo. Música. E por que eu me desviei? Não sei. Carregava a fantasia de escrever. Não seria religiosa, seria escritora. Conseguiria dizer o que acreditava. Reviraria o tempo para conta e defender / usar a mesma bandeira. A bondade, agregar, unir, resolver! E eu lia muito / muito / como se fosse possível formar / deformar as ideias, assimilar o mundo pelas letras. A cada livro, uma longa e inesquecível viagem. E foi tudo dando / sendo meio engraçado. Romper aquele noivado foi sorte, foi menos um casamento rompido, não tenho zero de desejo real ou melhor, zero saudade daquela figura empertigada. Teria sido um catastrófico erro! OK! Todos nós já sabemos. Mas eu atropelei o tempo ao me casar com aquele homem tão lindo! Tão inteligente, Tão tudo o que poderia ser! E já tão absolutamente carioca! Bem! Eu ira ser carioca / eu iria crescer / amadurecer no Rio de Janeiro / seria lá, longe de todas as vocações de menina, que eu me transformaria em mulher. E me transformei em Elizabeth Menna Barreto Moog – encurtando as saias, usando o primeiro biquíni, descobrindo a bossa nova e o Balaio / e os lugares cariocas onde se dançava e também se podia pensar e ousar. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

por temperamento

“Digamos que por temperamento, sí, corro sin cesar en busca de ciertos valores, mientras que mi razón me muestra siempre que ese absoluto, como usted dice, es un engaño…Y también que sigo siendo una especie de adolescente por la emoción, el sentimento, la exigencia, aspiro sin cesar a una sabiduría indulgente, irónica, la de un anciano tal vez, sin que ponga en ese término la menor amargura; una especie de tio Majluf. El punto de vista de algunos ancianos siempre me ha parecido admirable, porque se atreven a hablar y a comportarse sin temor a la opinión de nadie. Digamos también que mi eespíritu ha envejecido más rápido qui mi alma, para emplear un lenguage convencional.” (p.202) Victor Malka Conversasiones con Albert Memmi – el papel del intelectual en el desarrollo de la identidad coletiva

feira ecológica

Culinária campeira num dia de sol: inverno protagonizando. Noite bem dormida, bem sonhada, festeja, e os lençóis revirados bocejam. Não! Ninguém come o aipim a desmanchar-se, o rolo de carne bom, bom, bom ao amanhecer! Café passado arremata! Claro! Tem pão quente e geleia de Myrtilles Sauvages (sabor dos sabores). Fico com vontade de correr a me olhar no espelho! Talvez Fausto tenha razão e o prazer da juventude seja o prazer dos prazeres. Podes me convidar para dançar! Irei! Bom dia! Um beijo! Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

2014 (JCKC)

Naquelas poucas horas, quis conhecer toda a minha vida, as minhas recordações, meus pensamentos, as minhas fantasias, os meus sonhos. Tudo. E compreendia tudo com uma rapidez e uma exatidão que, depois de um espanto inicial, me deu medo, pois a sua percepção desenfreada derrubava todas as barreiras protetoras. Nos anos que se seguiram passei a fugir toda a vez que alguém começava a me compreender. Isso melhorou. Mas uma coisa permaneceu: não quero que alguém compreenda totalmente. Quero passar pela vida sem ser reconhecida. A cegueira dos outros é a minha segurança.” Pascal Mercier

Pressionada pela leitura, e, com saudades. Saudade de ti. Por que foi tanto L.? não sei explicar. Associações cabíveis, outras fantasiosas. Pessoas entram no imaginário, permanecem. Presente. Presente para sempre. Tu estás instalado dentro de mim, quando te penso volto a ser a tua Beth. Deve existir uma Beth Mattos que é apenas tua. O jeito de expectador que tens, daquele que olha, às vezes me atrapalha, intimida. Não ouso, mas gosto. Fico no meu tamanho natural. Sem magia das poções de Alice. Pois é…, queria ter ousado Não é ridículo te dizer isso depois de tanto tempo?! Ridículo. Desfocada do meu velho mundo, sem jeito, corpo pesado, roupas velhas, volto para perto de ti…(tu mereces o melhor, sempre mereces). Bebo o bom vinho italiano que trouxeste. À volta ao encontro, a possibilidade de ser acolhida, reconhecida por ti. O abraço, um beijo. Na fantasia, diferente, sou /somos os estrangeiros, então, possíveis. Volto a citar o livro: “ Embora pareça hoje que Amadeu estava apaixonado, interessado por mim, não era bem assim. Não se pode dizer que aquilo era um encontro. Com tudo que ele soube de mim absorvia a própria substância vital, de uma maneira insaciável. Para dizer e outras palavras, eu não era alguém para ele, e sim o palco da vida, um palco ao qual se agarrou como se, até ali, tivesse sido enganado.” Lembro da tua chegada de avião em Torres, no verão de recomeçar. Na minha fuga para Torres. Renascer. Tua proximidade, a tua cumplicidade. Tua presença. Mas logo a tua vida / a outra gritou e tiveste uma filha, e eu um neto.

Pensei em ti dois dias, obsessivamente, estranhezas da vida. Tanta coisa a te dizer! Não imaginas como desaparece a olhos vistos o nosso balneário, o tempo das gincanas, dos cabritos, da natureza aberta, de dançar. De te namorar, da SAPT. Rapidamente vamos a desaparecer. Às vezes me assusto, outras aperta a saudade e pego o telefone, quero falar contigo! Depois espero por nós dois na mesma esquina, de frente para o mar da Praia Grande! Um beijo. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres

Espera – Attente – Bernard MAZO

La joie de te reconnaître dans une ombre qui passe / Il faudrait remonter plus loin que toute attente / Retrouver la voix qui te ressemblait / Le visage qui était le tien tien sous l´epaisseur des rides / La vie chemine à fleur de peau difficilement /Plus lourde chaque jour de cette attente obstiniée. (Paris, Natal de 1964) – este livro, um presente de Flávio Xavier

Livre a tradução: Alegria, alegria de te reconhecer na sombra/no vulto que passa / Seria necessário remontar/voltar mais longe que a espera / Reencontrar a voz que se assemelha a tua / O rosto / a imagem que era/ tua atrás/através das espessas/ grossas rugas / A vida caminha pela superfície da pele / a flor da pele, com dureza/dificilmente? Mais pesada cada dia desta espera obstinada.

Mãos duras, marcadas: a pele?! Uma casta frisada / embora suave, encolhida e obstinada no seu desenho de pele… Este mapa desconhecido que te espera. Quero segurar a vida, mas, como diz o poeta, a vida caminha pela pele redesenhada. E o amor obstinado, a expectativa viva, a história que não te contei salta festiva e animada, queremos te ver. Que chegues logo! Elizabeth M.B. Mattos – 2022 – Torres

mudança

Tua carta trouxe a sensação de estar em casa! A sensação que estou precisando acrescentar a essa mudança. Cada vez que entro no velho apartamento para buscar ainda alguma coisa, acertar o que lá ficou /dar destino, as lágrimas chegam…Tu sabes o que é a casa voar? Espaços se abrem como buracos fundos, o vazio toma o lugar /cresce. Silêncio pendurado nos pregos das paredes. Sujeira pelo chão. Aquele cheiro de casa abandonada.

Sim, alegrou-me tua carta.

Os prazos explodem: empacotei o que vai para o Rio de Janeiro, para os dois filhos que moram lá: louças, quadros, livros, os pedaços. Esta parte está pronta.

Computador funciona sem telefone, a linha ainda não veio, vou instalar para conectar. A minha Luiza já mudou para sua primeira casa de Verona – Itália, careço conexão com os filhos. Trouxe a mobília, o que não vendi, mas ficou no apartamento, ainda, parte das roupas, livros pelo chão, cestos, restos. Entranhas da mudança. Antes ia tudo para um mesmo lugar, agora é dividir, apartar (expressão campeira). Amanhã empacotar. Uma dor doída meu amigo. Elizabeth M.B. Mattos julho de 2005 – Porto Alegre

Arthur SCHOPENHAUER

Sobre o Ofício do Escritor

4[275]

A vida real de um pensamento dura apenas até ele chegar ao limite das palavras: nesse ponto, ele se lapidifica, morre, portanto, mas continua indestrutível tais como os animais e as plantas fósseis dos tempos pré-históricos. Essa realidade momentânea da sua vida também pode ser comparada ao cristal, no instante da cristalização. Pois, assim que nosso pensamento encontra as palavras, ele já não é interno, nem está no âmago da sua essência. Quando começa a existir para os outros, ele deixa de viver em nós, como o filho que se desliga da mãe ao iniciar a própria existência.” (p.14) A. Schopenhauer

5[276]

A pena é para o pensar o que a bengala é para o andar, mas o caminhar mais rápido é aquele sem bengala, e o pensamento mais perfeito vai por si mesmo sem a pena. Só quando começamos a envelhecer é que preferimos nos servir da bengala e da pena!” Arthur Schopenhauer [p.15}

Então, eu corro, atropelo o pensamento para que faça palavra escrita, depois, devagar, mais tranquila, vou alterando o cimento e a quantidade de tijolos que usei, planto margaridas, e faço o gramado, sento, deito ao sol. Eu uso todos os truques. E quando escuto a tua história, vou vivendo, vou vivendo, assimilando, incorporando, então eu te digo o que sinto: dividimos.

E como não quero aceitar, trocarei todas as palavras, e deitarei no sofá enquanto o filósofo explica o que me parece inexplicável. Depois, o que importa as minhas considerações se eu estou presa em todos as palavras do meu grande Arthur! Derramo lágrimas. Aceito os fotos. Avanço. Eu te encorajo porque seguir seguir seguir seguir é surpresa. Elizabeth M.B. Mattos;

Nunca hei de saber se contou a história a minha mãe.

Termina aqui a narrativa de Trápani, com quem jamais voltei a encontrar-me. Na história dessa mulher que ficou só e que confunde seu homem, seu tigre, com aquela coisa cruel que lhe deixou, a arma dos seus feitos, creio entrever um símbolo ou muitos símbolos. Juan Muraña foi um homem que pisou minhas ruas familiares, que soube o que sabem os homens, que conheceu o gosto da morte, que foi depois um punhal e agora a memória de um punhal e amanhã o esquecimento, o comum esquecimento.” (p.60) Jorge Luis Borges O informe de BRODIE

Borges ditou seus escritos, sua obra que nunca termina. Não vai terminar porque se movimenta com intensidade, leveza, quase cruel / obsessiva ou, apenas, magnífica! Eu volto ao mesmo, a memória da memória pequena, porque, tola / descuidada. Esquisito ficar a querer, ou a imaginar o possível de continuar… Continuar exatamente o quê? Sigo, assim, às cegas, sem nunca ter visto / sentido o mundo como ele é. Apenas imaginei, e vejo fadas, príncipes, duendes. Caminho pelo subterrâneo, pelo interior da terra que equivale ao interior do corpo humano, e por toda a rede secreta por onde circula o ar e a água da imaginação.

Como el dormir, el cuento de hadas nos libera del imperio de la necessidad.

Era uma vez, o rito mágico necessário. Era uma vez uma menina curiosa, intrigada, amorosa e inquieta, que de tanto ir e vir / sair e entrar / perseguir e dividir, não cresceu, ficou, para sempre menina. Não cresceu porque o mundo lhe causou susto! Menina-velha. Velha, inquieta e assustada. Agora, ela escuta a terra, os pássaros e vê sinais no céu. Não é loucura, mas presença. Um emaranhado de vozes que contam/explicam/desenham um hoje colorido.

Agarrava-se a mim como alguém que sente o abismo sob os pés. […] Talvez a gente só viva uma hora dessas uma vez na vida, e entre milhões de pessoas só uma tenha essa experiência – e sem aquele tremendo acaso eu jamais teria imaginado com que ardor, com que desespero, com que incontrolável avidez um ser humano perdido suga mais uma vez cada rubra gota de vida, e vinte anos depois, longe de todas as demoníacas forças da existência, eu jamais teria entendido como a natureza por vezes se concentra em alguns poucos momentos, grandiosa e fantástica, em seu calor e frio, morte e vida, encanto e desespero.” (p.63-64) Stefa nZweig 24 HORAS NA VIDA DE UMA MULHER

Qualquer lembrança se afoga naquela específica memória: a de uma escolha definitiva, não tem volta. Afagada, sufocada sobrevivi como que revivi, retomei, ressuscitei a jovem que tinha cumprido o rito, e agora, finalmente, se libertava. O meu pai segurava o meu punho, e a mão inteira enquanto caminhávamos pela praia, foi ele quem me disse: ‘Agora, minha filha, estás livre para escolher o jeito / o modo / o caminho, não precisas mais te curvar a vontade de ninguém, e já cumpriste todas as obrigações impostas, serão apenas as obrigações escolhidas que te conduzirão.” Os meus olhos ardiam com lágrimas, e aquele verão em Torres se desenhou enfeitiçado pela liberdade, o sonho. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2022 – Torres