do frio

Inverno de menina. Frio da infância. Será que as estações voltaram para o lugar certo? Encontros inusitados com conexões perdidas… Rir e festejar, renascer. Há tempo de cuidar/zelar/renovar o planeta. A terra desta quarentena, cheia de baobás… Beth Mattos – junho de 2020 – Torres

Fiquei sabendo que há no planeta do pequeno príncipe, como em todos os planetas, ervas boas e más. Portanto, há sementes de ervas boas e sementes de ervas más. Porém, elas são invisíveis. Dormem no seio da terra até que uma delas decide despertar. Então, ela se espreguiça toda e cresce na direção do Sol, como um delicado raminho. Se for uma semente de rabanete ou de rosa, não há porque se preocupar com seu crescimento. Mas se for uma planta daninha, uma erva má, deve ser imediatamente arrancada. Ora, havia sementes poderosas no planeta do pequeno príncipe…sementes de baobá.” (p.30)  Antoine de Saint- Exupèry – Pequeno Príncipe – Editora Geração – Tradução de Frei Beto

tirar férias de mim mesma, preciso

Toda matéria possui certa medida de resistência, além da qual a elevação não é possível, a água tem seu ponto de de ebulição, os materiais seu ponto de fusão, e também os elementos da alma não fogem a essa lei irrevogável. A alegria pode atingir determinado grau, qualquer acréscimo já não será percebido, e assim também
ocorre com a dor, o desespero, a depressão, repugnância e o medo. Quando cheio até a nossa, o vaso interior não absorve nem mais uma foto do universo.”(p.137-138)

Stefan Zweig – Êxtase da Transformação

As dores se instalam no entorno e transpiram. Dentro das pessoas elas se confundem/sufocam. Há que saber se livrar. Talvez toda a doçura não possa ser suficiente para reafirmar a coragem, o que deve, de fato, ser feito. Em 1988 eu escrevi: Minha mãe morreu, mas continua viva dentro de mim. Neste momento, ou sempre lamento tanto e tanto a sua ausência…Com ela, definitivamente, perdi a família. Os elos se desfazem, ou se apertam, ou…, não sei. Não são os mesmos. Não significam, se desfazem da urgência,  da dependência, perdem essência? Agora sei, eu mesma me transformei em começo: eu sou  a nova família. Caminho sem olhar para trás, e vou semeando: preciso colher novas alegrias. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020. Torres

…as referências, nesta ordem cheia de desordem das estantes empoeiradas, acordam sentimentos. Certo seria me desfazer desta ideia obsessiva dos livros. Não uma despedida, mas uma espécie de morte / ou poda / uma tinta de fundo na tela, a preparar o novo desenho no esboço. Embora eu respire, sufoco aos poucos:  preciso recomeçar. Tirar umas férias de mim mesma…, e seguir para um lugar onde não preciso costurar a sombra, nem insistir com o olhar, escutar, como Peter Pan, depois ir… à Terra do Nunca. Lugar onde eu me desconheça, isso seria viajar…

Talvez ELA possa ser eu noutra história / não soube ser/ não sabe, mas é, ou o que gostaria de ser, ou mesmo o limite desconheça,  atravesse a vida,  e o  vida do outro, e… Existe passiva, ignora o tempo. E ele, vertiginoso aperta seu corpo, exaure  seus olhos. Distraída, se esquece de amar o amor. Insana se agarra aos livros. Lombada, cheiro, colorido. Inúmeras vezes imagina que deveria morar numa casa que não tivesse livros, nem lápis, nem papel ou tintas. Para conseguir ser outra.  Sobreviveria? Talvez escrevesse em canteiros a cuidar das flores,  a pensar estações. Estaria preocupada com a terra, água, vento, sol e chuva. Faria, provavelmente, uma estufa para proteger  o mais sensível… E tudo recomeçaria. Mas saberia distinguir os perfumes no vento. Beth Mattos, ao teu olhar.

VIANNA MOOG

Em que consiste a literatura brasileira?Terá valores estáveis e permanentes capazes de sobreviver às transformações por que o mundo está passando? […]

Em suma: uns mais, outros menos, consciente ou inconscientemente, todos agimos dentro da órbita de nossos núcleos culturais. […] Fora do seu núcleo cultural o escritor, a menos que o traga entranhado na alma, quaisquer que sejam os caminhos que a vida lhe reserve, corre o risco de corromper-se. Conserva a habilidade, extingue-se-lhe, porém, o fogo interior. O homem sem núcleo cultural, como o sem religião e o sem pátria, é uma utopia, quando não é uma indignidade. Ai dos que se deixam moralmente desenraizar, dos que não trazem em suas vestes a poeira imponderável do seu núcleo de província, essa poeira de cultura que não está somente nos livros que lemos, senão também no ar que respiramos, nas imagens que contemplamos, nos tipos humanos com quem convivemos, nas cruzes que velam o sono de nossos mortos sagrados, nos sinos dos campanários de nossas aldeias, nas virtudes e nos defeitos dos lugares de onde partimos. As ideias gerais e universais, certo, são excelentes, mas passada a hora das filosofias e das utopias – e elas passam terrivelmente depressa – sem os denominadores comuns de nossos núcleos culturais, sem o eco dos mundos de nossa formação, ficamos tateando no vácuo, vazios e sem destino.” (p.88) Vianna Moog – Uma interpretação da Literatura Brasileira

Na verdade, estupidamente, tentamos fugir da origem / do embalo da mãe, da calçada, da casa onde nascemos. Escondemos quem somos. Nós nos qualificamos para fugir da cozinha, e nos instalarmos, definitivamente, na sala do piano, atrás das obras de arte, dos tapetes persas, dos bons livros e das louças vindas da Índia. A cultivar antúrios e begônias.  A pensar nestas questões.  Apostar neste “levantar acampamento”, sair do interior para a capital, ou se interiorizar, ajuda? Cortar raízes, e podar ramos/galhos desnecessários, renovar. Calar o que não serve. Raramente agregamos. Sociologicamente o Moog  tem razão: não há saída porque seria a inconsistência. O ‘fogo interior’ está neste voltar para casa/ reconhecer as origens e desenvolver / cultivar o jardim. ‘ O ‘fogo interior’ está em descobrir/saber quem somos. Com certeza. Reconhecer o berço e o embalo dos pais/e do país. As linhagens, intelectuais ou sociais, existem, claro! Não há como esconder/nem como escolher, mas conhecer. Ou ‘passar panos quentes’.  A sofisticação está logo ali, na vivência, no abrir dos olhos, no jeito de caminhar, de servir o café, de lavar a roupa. Sutilezas do olhar. Ou ser, para sempre, o estranho do ninho. O imigrante, o emigrante. Não despatriado, estranho, estrangeiro de fala engraçada. Há que se reconhecer… Serei radical na posição? Acho que não. Atravessar um salão, enfrentar um baile, frequentar o mundo, não é fácil, nem generalizado: treino. Escrever um livro não te salva, ajuda. Pintar um quadro não te coloca nas artes, mas dá prazer. Não consigo entender o porquê deste tudo/deste todo. Parece que o vento vai limpar tudo e trazer uma chuvarada grossa. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020.

da corrente

Eu me atiro sem pensar e não espero a volta: vou a me debater, incansável, porque o dia esplendoroso atravessa meu corpo. Quero mais, muito mais, mas não me defino se vou ou fico, ou espero. Talvez eu precise correr porque a vida galopa!

Sempre que em sonhos vejo os mortos, eles aparecem silenciosos, incomodados, estranhamente deprimidos, muito diferentes das pessoas brilhantes e queridas que eram. Eu os vejo, sem nenhuma perplexidade, em ambiantes que nunca visitaram durante sua existência terrena, na casa de algum amigo meu que nunca conheceram. Sentam -se afastados, a testa franzina voltada para o chão, como se suas mortes fossem uma mancha escura, um vergonhoso segredo de família. Certamente não é nesses momentos – não em sonhos -, mas quando se está plenamente acordado, em momentos de robusta alegria e realização, no patamar mais alto da consciência, que a mortalidade tem uma chance de espiar além de seus próprios limites, do mastro, do passado e da torre do castelo. Embora não se possa ver muita coisa através da névoa, existe de alguma forma a sensação de plenitude de que se está olhando na direção certa.” (p.49)

Não apenas em sonhos  vemos os mortos, aparecem ruidosos na memória a preencher espaços, cadeiras vazias, e se encostam nas paredes a nos espiar e surpreender…, – porque estão vivos na nossa memória. E também aqueles amados que um dia deixamos para trás num arrufo de mal humor ou capricho e depois orgulho. E nos perdemos deles. Como posso explicar que um casamento acabou, o outro também e o FT que veio me deixar menina e socorrer e amar eu também abandonei. E nesta sede de querer o completo e o perfeito, ninguém. Toda a história de amor, ou de amizade precisa de perseverança. Eu volto pra casa, estupidamente, encolhida com se pudesse entrar na concha, apegada as fitas e  aos cristais, deslumbrada com a saudade, esquecida do hoje. Que enorme tolice! Que mistério o encontro com Gustavo, numa floração vibrante que antecede a morte. A despedida do Geraldo, a morte da Sônia, os livros perdidos, a mãe e o pai presentes, a biblioteca que conversa, o meu jeito distraível de levar a vida. Os vivos. E agarrada aos setenta anos silenciosos num tempo de pandemia (provação) a certeza que existe “a sensação de plenitude de que se está olhando na direção certa.

Das aulas de pintura e desenho que desejo ardente, o olhar deslumbrado: “Eu adorava o jeito hábil com que ele molhava o pincel em múltiplas cores com o acompanhamento do rápido bater produzido pelos recipientes de esmalte de onde eram recolhidos os ricos vermelhos e amarelos que o pincel ondulava; e tendo assim recolhido seu mel, parava de mexer, de bater, e com dois ou três toques de sua ponta luxuriante, encharcava o papel ‘Vatmanski’ com uma uniforme camada de céu laranja, sobre o qual, quando o céu ainda estava úmido, uma longa nuvem negro-púrpura era aplicada.”(p.87-88)

Leio o devaneio da tela, deste aprendizado, desta loucura das cores paralisa a beleza da descrição e o luxo: Vladimir Nobokov transporta na sua autobiografia – Fala, Memória.

[…] um jeito particularmente silencioso, como se temesse me assustar daquele meu estupor versejador. Ele me fazia reproduzir de memória, o mais detalhadamente possível, objetos que eu de certo havia visto milhares de vezes sem visualizá – los de fato: um poste de luz, uma caixa de correio, o desenho de tulipa do vitral de nossa porta de entrada. Ele tentava me ensinar a encontrar as coordenações geométricas entre os galhos esguios de uma árvore sem folhas da rua […] (p.87)

Largo o livro com displicente cuidado. Dou dois passos em direção a mim mesma a procurar o cuidado de apreender. A se perder, eu nunca me importei com o detalhe, fui casual e descuidada. Por que não me perdoo? Lembro do acidente da mãe – ela ficou entre morrer e viver, e morrer era uma dor constante, mas sobreviver, a coragem… E tive o carinho atento com ela, ajudei a recuperação com massagens e paciência. Recuperou parte do movimento do braço. Ela voltou para a vida com seu talento ardente mas, aos poucos, enterrava e desviava os olhos. Talvez, como ela eu penso que nada mais pode ser feito. E  logo eu fui para o internato num descuido de matrícula, num acaso, para as Cônegas.  Vida e memória se encaixam nas páginas lidas.  Os livros escondem outros/ mas os mesmos pedaços / versões, as que não conhecemos, e também nos pertencem. Curiosas autobiografias. Elizabeth M.B. Mattos – junho de 2020 – Torres

André e Ricardo

Eu penso: escrever é um esforço de reconciliação antes de perdermos pedaços importantes, afetivos e alegres que estão guardados para nos reabastecer, eu acho. A síntese, ou o desvio que ilumina. Uma ideia. Eu me debruço nos livros da estante pessoal do André e vou, curiosa, a divagar sobre as possibilidades, as minhas, perdidas noutros galopes… Precioso sentido! Beth Mattos (tia Beth) e eu fico jovem e forte outra vez… 24 de Junho de 2020, aniversário do Ricardo! Viva!

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Mensagens vão, chegam, voltam: alegria e companhia.

Schiller – Maria Stuart

“Aos vinte e um anos Schiller já é considerado um ‘gênio’, no sentido pré-romântico do termo. e um ‘gênio’ é todo aquele que tem coragem de se libertar das regras sociais e literárias, de colocar o  sentimento acima da razão, de recusar aquilo que é ordenado e racional.”

Quem me falou de uma mulher prostrada

Profundamente? Encontro é uma orgulhosa

De modo algum dobrada ao infortúnio.” Schiller (1759-1805)

Orgulhosa, dobrada ao infortúnio, como se pode medir e pensar nestas palavras. O significado se mostra assustador. Não sucumbir, não aceitar os desígnios e lutar. O orgulho, a altivez são as soluções encontradas. Nunca passividade, mas a vida a revirar… Beth Mattos – junho, num inverno que se veste de verão e confunde o corpo, também os sentimentos que se remexem atrapalhados. Os sinos repicam ao meio-dia, um som de aldeia e de vida e de ordem. Afinal, a vida continua, e sobreviveremos desta praga e de todas as maldições, não todos é verdade, por isso o luto.

SCHILLER

 

GOG de Papini – escavando

Tens razão neste ir e vir ficando no mesmo lugar. Detalhes de um grande/enorme vazio. Na verdade um ponto, um texto. E todos juntos, a vida. Variantes ou limitado?  Tela preta, um ponto branco, pode ser nada, ou o começo. Um bule de chá vermelho pintado. E a descrição…, o começo. E nada. Tens razão. Parece ruim, mas nem tanto. É o olhar sob o objeto, sob o texto, ou perdido. Afirmações na entrevista de Philip Roth com O’ Brien me fizeram pensar, e te escrever. A leitura é uma das voltas… Como ir ao baile de fantasia todos os anos com a mesma fantasia… E nunca o mesmo. O livro. Ou ir ao baile trocando a fantasia, o autor. Nós diferentes e os mesmos. Confuso. Que bom teres escrito!

Hoje vi o filme francês Entre os Muros da Escola: impressionante.

Voltei (entrar na história/estar no meio da emoção/ doer junto faz parte) estupefata! A imigração, a integração na vida do outro, adaptação cruel… Violenta, cruel é a palavra certa. Todas as adaptações se assemelham… Como a banal relação de homem e mulher: nem sempre falamos/dizemos/temos a mesma língua, a comunicação, os princípios: há que encontrar o ponto comum para começar… Adaptar, retomar referências. Encontramos barreiras, às vezes, intransponíveis como mostra o filme, e também soluções e leveza ao final da batalha.

Não somos diferentes. Tu e eu nos sentimos menores porque não temos o resultado em cifras, o dinheiro importa sempre. Sabes o que encontrei dentro do livro GOG de Givanni Papini?  Nove mil cruzeiros… Dinheiro das aulas de francês em Santa Cruz do Sul. Naquela época acuada pelo mau casamento eu trabalhava para poder ir embora. O preço foi maior do que todo o dinheiro que consegui guardar e o que perdi: deixei enterrado naquela casa juventude, alegria. Levei comigo coragem. Não sei quanto em valor perdi, quantos reais… E o quanto tenho deixado para trás. Com pouco dinheiro consegui sair da casa, daquela vida. Um preço. Sempre estamos etiquetando. Tens razão, eu estou sempre a me colocar na liquidação. Os outros são os melhores resultados. Repensando a vida e na outra: carros, casa, restaurantes, etiquetas. Eu sigo entre o quarto e o quarto. Não contabilizo, ainda. Assim mesmo, ao te escrever, eu me sinto ótima. Por quê?  Está amanhecendo. Acho que as pessoas que admiramos tem melhores preços, lucros. E talvez sejam melhores do que nós ou não. Mais felizes…  Como escreves: No fim somos nós mesmos. E diferentes. Não sei se melhor ou pior. Apenas diferente. E sem dinheiro parece que não saímos do lugar – e vive-se a supervalorização do dinheiro como medida de boa vida.

Se morássemos numa cidade de pescadores… Numa ilha: pescaríamos, entraríamos no mar, dormiríamos na rede… Seria como o homem que ascende o farol… E acordaríamos com o sol… Parece igual, mas não é… Outras pessoas atravessam ruas, enfrentam o trânsito, comem às pressas, olham e conversam com as mesmas pessoas, equacionam e resolvem outros problemas… Nós pescamos o peixe. Para eles não basta o peixe, querem o peixe limpo, cozido… Trabalham de sol a sol para comerem o mesmo peixe. Dificuldades e escolhas diferentes.

 

Existe a grande história, o grande romance, o sucesso ou o fracasso na ponta da vida…

Adaptação sufoca. Somos todos sobreviventes. E sabemos que não tem pote de ouro pra pegar no fim da rua, não na nossa rua…Todos os dias já, já dia vencido. O tempo atropela…

Ainda não compreendi a diferença entre comprar o bule vermelho porque é belo (beleza, aliás, q só eu percebo), e comprá-lo como utilitário, para fazer a infusão? ou ainda não comprar, apenas ficar desejando…Esta coisa de não valorizar o fazer. Enfrentar os mesmos problemas num tempo determinado de tempo, não toda uma vida do mesmo jeito… seria simplificar demais, a questão da circular. Acorda! As vitrines, não têm todas, os bons produtos. Parece, mas não é… para saber isto, e nos dar conta precisamos conhecer…, absurdo, mas antes de ver, saber. Acho que tu tens apreendido muito sobre qualidade.

Eu te amo. Como vês pela hora, perdi o sono. O filme me agitou… Tanto quanto o livro do Roth… Um beijo. Beth

 

despovoar

Nunca pensei, nem no momento de maior perda ou angustia, pensei solidão, ao contrário, precisava me despovoar para respirar, arrancar laços e abrir todas as janela… A luz das conversas, e a generosidade alegre das pessoas bastava. Espaços, caminhos e tempo preenchido. Nada me faltava… E agora este estrangulamento! Não sei como explicar, tenho poucas palavras. Escrever e dizer ou gritar pode ser o melhor…, ao mesmo tempo, parece tão fácil, tão rápido! O outro está em todos os lugares ao mesmo tempo, como Deus! Não se trata de espiar, ou imaginar, o som nos acompanha por todos os lugares e ao mesmo tempo o sentido de solidão. Ah! Esta solidão completa e absoluta se agigantou no meio da multidão, da informação, do medo, e deste desespero. Que eu consiga dizer, encontrar uma saída num laço de veludo, num barbante, ou no cheiro do pão, céus! Estou perdida! E tu não me escutas. Elizabeth M.B. Mattos – Junho – Torres

o idiota e nobocowoutro livro o mesmo no chão 2

inverno

22 de junho de 2020 segunda-feira, invernosa? Não, ainda outonal. Ontem fez um calor de verão abafado. Temperatura do planeta, surpresa e contração.  Preciso me adaptar e reagir conforme o dia amanhece. Acordo, cada vez mais, com menos vontade de levantar e fazer qualquer coisa… Desânimo. Nem o café da manhã, um dos meus antigos prazeres, entusiasma.  Talvez se eu comprasse flores, ou se pudesse pintar a casa, trocar um lustre horroroso que comprei por engano, aliás,  mais de um. Talvez se eu pudesse caminhar mais sorrir melhor ou… enganos aborrecidos. Se eu pudesse voltar aos mais queridos. Conversar com Fernando ou com Nilton, Magda, Ana Helena, Suzana, amigos: comer balas de gomas e ser alegre outra vez. Talvez eu pudesse conversar comigo mesma sem reservas. Não. Não consigo progredir, estou atravessada naquela angústia caseira mal acabada. Estou doente. Doente do mal maior,  o que chega silencioso e se instala no centro da sala colocando tudo em desordem. É vou indo pelas beiradas… Elizabeth M.B. Mattos