papéis e papéis (começo)

Felicidade. O novo começo já começou. “Como posso ter certeza de que estou vendo o que fazer? Krishnamurti: Você não pode ver o que fazer, pode apenas ver o que não fazer. A negação total deste caminho é o novo início, o outro caminho. Este outro caminho não está no mapa, e não pode ser colocado em nenhum mapa. Todo mapa é um mapa de caminho errado, caminho antigo.” Acho/suponho/ penso que estas palavras ilustram bem o que devo fazer agora da minha vida. O importante é encontrar o novo caminho. Aquele lugar onde serei eu mesma sem as pressões externas. Coragem para vencer barreiras, passar fronteiras em direção ao que eu realmente quero. O difícil é desenhar/mostrar/saber/ entender o que eu quero. Escrever basta? Elizabeth M.B. Mattos – janeiro – 2021 Torres

1966 – Rio de Janeiro – quando ler seria/era/ mais do que leitura, mas compromisso acelerado com meta e descobertas

Enamorar – se

Tens razão, precisava deste encontro com as francesas. Foram três dias intensos: exercitei conhecimentos de língua, pensei francês. Discuti a pesquisa, alinhavei novos aspectos pertinentes: psicanálise, vida interior. Senti o sol. Caminhei na areia, mergulhei no mar. Deixar – se ficar para ver as pessoas. Bebericar café, comer doces, pensar sorvetes e rir / sorrir. Vi e reconheci amigos; falei com quem não falava faz muito tempo /tanto tempo! Livre e feliz. Por quê? Porque estava/eu me sentia reconhecida, integrada, dona de mim mesma a fazer aquilo que sou eu. Como é importante estar no teu próprio universo, compreender necessidades, e entender o que está por dentro, O meu conceito. Definitivamente, preciso concluir o Doutorado. As portas abrirão para novas oportunidades. Nunca mais amarrada, mas pronta, independente. Intelectualmente livre, fisicamente solta, completa. Quero encontrar a minha forma de escrever e quero te amar. Continuar enamorada. Viver a paixão como uma transgressão exemplar, de direito, como valor. A nossa paixão erótico-sexual. Pensar amor. E o prazer surge e se afirma como direito, sem culpa. Estar enamorada, desafiar instituições e buscar outro valor. A natureza do amor reside nisso, em não ser apenas capricho pessoal, mas movimento portador de projetos. Estou acostumada a medir cada coisa pelo padrão do tempo físico do relógio (com lente de aumento). Esqueço que na sexualidade extraordinária do amor, o tempo é diferente. A minha saudade não conta os dias, mas se agarra na lembrança do teu corpo, no suor, no cheiro, no desejo. Para nós dois, agora, uma noite juntos corresponde a mil ou dez mil anos. Neste estado tem-se, exatamente, a eternização do presente. O impulso vital à procura de novos e diferentes caminhos. A sexualidade se transforma, explora a fronteira do impossível. Horizonte da imaginação. Da inteligência à imaginação, ao ardor como explorou Vladimir Nabokov, direto à paixão: desejo de te beijar inteiro. Ter – te outra vez, deixar – me tocar, apertar. Beijo queima o corpo.  A fusão da paixão subverte, transforma, rompe laços anteriores. A força revolucionária de Eros restrita a duas pessoas. Assim, quando te penso eu sinto cheiros que não sentia antes, percebo cores e luzes que não via habitualmente. Ainda quero assistir o filme pictórico contigo. Nossa vida intelectual se amplia, percebo relações anteriormente inexistentes e obscuras.  Um gesto, um olhar, um movimento, percebo teu passado, infância. Sorrindo neste momento: eu te vejo arrumas as roupas para a viagem, colocar na mala os sentimentos para usares comigo. Posso compreender teus sentimentos, os nossos. Posso sangrar, mas sigo no desejo. Intuímos, tu e eu, o sincero e o falso, nos tornamos sinceros. Eu te espero. Tu me esperas. Estamos prontos, os dois. Ah! Meu querido! Desejo de estar no corpo do outro, um viver e ser vivido, fusão de corpos que se prolonga como ternura pela fraqueza, ingenuidade, pelos defeitos e imperfeições, assim amamos. Posso aceitar as desculpas, o pedido de perdão… Eu agora estou apaixonada. Identifico as mãos, a forma do rosto, a massa quadrada do teu corpo, a voz, o teu nariz, a boca, o cheiro. Os sinais. És tu, somos nós. Perdoa se te escrevo num mar tumultuado de contradições de perda e encontro. De saudade. A espera de uma hora se converte na espera de anos, de séculos. A nostalgia do instante da felicidade… Basta uma breve separação para ter certeza de que és inconfundível. Eu te quero do mesmo jeito que tu me queres, sem relógio, existe apenas a urgência do abraço, do beijo. Não há palavra, mas toque. Chegar indo embora… Então, volto a te imaginar. Divido casa, comida. Também o rádio, o futebol, a música e o meu silêncio. Estamos, os dois, juntos, lado à lado, no mesmo espaço, no mesmo mundo, diferentes, juntos, nós. Quando o fruto aparece, a flor desaparece. Nós nos propomos coisas irrealizáveis. Posso pedir felicidade, mas felicidade não é uma coisa. Posso perder minha medida. Posso comer bem se assim te agrada, mas se estou/sou apenas eu, não me importo. Para te encontrar e ficar contigo, estou disposta às viagens cansativas: dormirei nos teus braços tão logo chegue. Não comer, não dormir não importa, agora. Nada me cansa porque estou feliz. Talvez no dia a dia eu não suportasse viver assim, mas agora, agora respiro. É essencial eu te encontrar. Por isso, se me chamares por/ao telefone, tão logo leias as minhas cartas, estarei /irei correndo ao teu encontro. Não há contabilidade possível. Confissão e absolvição. Eu te amo nesta corrente. A exploração do possível, o esforço de chegar… O perfeito é estar no teu abraço, quieta. Elizabeth / Eliza / Liza M.B. Mattos – janeiro de 2020 – Torres

sem sol

Torres, amanhece sombrio e lento, lento e esquisito como pode ser esquisito o tempo de epidemias e medos e inquietudes. Onde o bom senso e a lógica? Em círculos, enfeitiçados pelo medo… E o príncipe não chega, nem a rainha acorda, o ditador dormiu, a luz se escondeu, o sacerdote boceja. Feiticeiros gargalham… E o povo acorda, dorme e se reproduz como se a vida fosse mesmo comer, beber e copular. Esqueci a música. Voz e tempo se diluem: mais cedo termina o dia, mais depressa adormeço. E acordo estupefata. Por que outro dia? Quero outro mundo, outro caminho para ser eterna.

Impaciência e cansaço crônico. Zero vontade para limite. Cercas me aborrecem. Cercadinhos gramados, floridos irritam. Conversas fúteis e adocicadas da/na mesmice. Ah! Se a raiva explodisse a solução! Gritos com pernas, braços decidem o que fazer. Não tenho paciência para disputas amorosas, desencontros esquerdos. Quero o amor pacífico e silencioso do prazer intenso e da beleza transparente, líquida. Tintas coloridas assumem o mundo: pinceladas esquerdas, ou contínuas, interrompidas ou desenhadas e lá está…Elizabeth M.B. Mattos (10/01/2021 06:29:31)

casamento

Porto Alegre, 9 de fevereiro de 1968

Tenho desenfreada paixão pelo dia 9. Talvez por ter nascido no dia 9 de setembro (9) morado na casa 229 da Vitor Hugo, e o telefone era 32479 e o pai também tinha uma numerologia que recai no número 9… Curiosidades estranhas da memória. Em 1999…, vou contar a história outro dia.

atordoada trovoada

Atordoada! Trovoadas e voltas / perdida naquela/nesta curva, assustada. Desculpas se espalham. Esta palavra não quer dizer luz decodificada: sem cor, linha, significado. Recomeço / eu recomeço. A festa engole a voz. Foguetes, eles ensurdecem… Tanto tanto tanto calor! Sufoco. Que venham as noites, e soluções. Quietos os sonhos, vou recomeçar, devagar. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2021 – Torres

Praia de Bombinhas – Santa Catarina – 2021

REVISTA do GLOBO em caixas…

Numa caixa que deveria desaparecer, quando amontoamos este mar de papel e cansados vamos nos desfazendo….e, por que isso assim tão atabalhoado? Coisas de gente desorganizada. Não sei. As mudanças de lá para cá: escrever e ler e anotar ordenar desorganizando… Prioridades? Pode ser. Não sei. E já janeiro de 2021 e o Capitólio foi invadido por vândalos nos Estados Unidos. E o mundo se remexe revoltado por isso ou aquilo, facas e tiros, morte e gritos, assim voltou a ser viver. Beth Mattos – Torres – janeiro de 2021

01 de janeiro de 2021

“Propriedade Santos Cosme e Damião – 01 de janeiro – 11 h da manhã – quarta-feira

Aceitei o conselho do grande Dylan Thomas: Não entres docilmente nessa noite serena / porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia; / odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Volto a escrever na primeira pessoa. Apesar de todas as implicações de tolice. quando se fala no “eu”, a pessoa acredita existir…Acredita ser diversa. Não prometo, mas me esforçarei para ser menos elusivo, embora tenha por princípio que nada tem se repetindo ou explicado. Como Hamlet, sou naturalmente camaleônico veio – me a tendência do berço ou das entranhas de algum ancestral desconhecido ou mesmo fictício, como o príncipe da Dinamarca – e, na realidade, também “um permanente comediante”, na opinião de Nonato.

Ela chegou fora da hora combinada. De algum modo, deve ser parte do estratagema das mulheres jovens e belas, isto é, fazer – se sempre esperar. Não atino com a razão que me fez lembrar a semelhança do seu corpo perfeito […]” Diário de Francisco Brennand O NOME DO LIVRO Volume III – 1990 – 1999 (p.227)

30 de dezembro de 2020

Torres – 01 de janeiro de 2021 – outro ano, outro jeito de dizer eu fiz / eu pensei / eu não fiz / eu deveria ter feito, cuidado… Não sei o que importa mais ou menos, ou ter dezoito anos, vinte anos, sessenta ou setenta anos e cavar no passado. Contagem regressiva = viver / respirar e, claro, amar parecido com muito. Pouco? Igual recomeço e te espero. Amanhã não será como foi, entrares com flores, e alegria. A que merecemos. Volta logo. Não importa: não vai ser nunca como imaginamos e desenhamos quando estamos longe. Somos / sou esta imaginação gorda! Elizabeth M.B. Mattos – Torres – 2021 um pedacinho de Diário cansado, persistente. Água.

palavra e doação

O corpo tem uma ‘fala’ única e ele nos representa no silêncio. Quando o movimento interno e dinâmico dos sentimentos e da inteligência nos remexem/violentam ou acalmam, o corpo nos protege O corpo transborda e encolhe. Resolve o que não podemos dizer. Não é o corpo sozinho que ama ( ele arranca, dos que gostariam de viver apenas dele, gestos de ternura que vão além), ele é nós e não é nós, ele faz tudo e não faz nada. Nem fim nem meio, está sempre envolvido em empreendimentos que o ultrapassam, sempre cioso de sua autonomia, bastante poderoso para se opor a todo fim que seja apenas deliberado, ele não tem nenhum fim a nos propor e nos voltamos para ele e o consultamos. às vezes, e é então que temos a impressão de sermos nós mesmos, ele se presta verdadeiramente ao que queremos, deixa – se animar, aceita uma vida que não é somente a sua, então, ele é feliz e espontâneo, e também o somos. Neste jogo de compreensão / aceitação / neste risco tatuado de significação, pode – se compreender o todo. Ninguém comando, ninguém obedece, ao falarmos ou ao escrevermos, não nos referimos a a algo a dizer que esteja diante de nós, diferente/distinto de toda a fala, o que temos a dizer não é senão o excesso do que vivemos sobre o que já foi dito.

O que vivemos e o que dizemos, transborda no excesso. 2020 nos amordaçou, amarrou, adulterou. Cansados de respirar, mas não desistimos. 2021 chega sem festa/ silencioso e manso, consciente… eu espero que seja para libertar. devolva alegria, certeza e confiança, não o tempo…,não o tempo, eu sei, mas posso acelerar: acordar mais cedo, falar mais, caminhar mais, acreditar mais e beijar, abraçar, beijar outra vez. Segurei todos os gestos, segurei o corpo, e nesta tensão acabei quebrando sentimentos perfeitos! Ah! Que 2021 devolva o canto e as minhas certezas pequenas. Devolva a paz remexida, leve o medo e a angústia aflita. Quero me sentar sem hora e conversar…Elizabeth M.B. Mattos – 2020 – dezembro – Torres

Várias vezes contestamos que a linguagem estivesse ligada ao que ela significa apenas pelo hábito e pela convenção: essa ligação é muito mais próxima e muito mais distante. Num certo sentido, ela vira as costas à significação, não se preocupa com ela.”[…]

Num certo sentido, a linguagem jamais se ocupa senão de si mesma, tanto no monólogo interior como no diálogo não há ‘pensamento’: trata-se de palavras suscitadas por palavras, e, na medida mesmo em que ‘pensamos’ mais plenamente, as palavras preenchem tão exatamente nosso espírito que nele não deixam um canto vazio para pensamentos puros e para significações que não sejam de linguagem.” (p.147) Marurice Merlau-Ponty A Prosa do Mundo