- Esta questão de olhar perturba. no entanto preciso mais do que olhar, examinar. assim posso ter certeza que os olhos castanhos são melhores do que os verdes. Mãos mais eficientes, lavadas. Os cabelos devem ser presos / simulam quantidade. As roupas deveriam ser escolhidas: serão.
- Neste momento passei para as gavetas / não tem muita coisa. a bem verdade do fato, pouca coisa mesmo… penso, se a ideia é comprar uma peça aqui, outra ali… estas teriam que ser agitadas, não esquecidas. plano, ordem, planilha. coragem. trabalho. aproveitamento de tempo.
- Ter coragem. Achar, definitivamente, que vales o tempo, o passo, a comida e o pedaço da comida. os passos atrapalhados. buscar o outro, ter o teu beijo e o teu abraço vai exigir esforço de mim. preciso dar os tais passos. atravessar o medo.
- Atravessar não deve exigir tanto, mas a coragem arrumada do dia que chega na noite com sua utilidade completa. Ser útil será limpar, ordenar, abrir ruas, espaços chamados praças, plantar árvores, e vez que outra canteiros. Com certeza a cozinha será perfumada, convidativa.
- E os livros? Amigos perfeitos, mas precisam se acomodar nas prateleiras com certa alegria e suficiência. Lagos, poças, pingos, não sei. comecei a pensar: começar me traz uma certa gratidão.
- Deixar o filme pela metade. sim. italiano, ótimo. O sono chegou, tô sem concentração? não. Apenas com sono e vou dormir. Aquela liberdade solta, desgovernada e solitária.
Autor: amorasazuis
consegui
EU consegui dizer que não conseguiria / isto é quase dizer: eu consegui / eu posso. estou conseguindo / vou conseguir voltar para mim. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres
palavras suscitam palavras
coisas de Merleau-Ponty
A linguagem jamais se ocupa senão de si mesma: tanto no monólogo interior como no diálogo não há “pensamentos”: trata-se de palavras suscitadas por palavras, e, na medida mesmo em que “pensamos” mais plenamente, as palavras preenchem tão exatamente nosso espírito que nele não deixam um canto vazio para pensamentos puros e para significações que não sejam de linguagem. O mistério é que, no momento mesmo em que a linguagem está assim obsedada por si própria, lhe é dado, como que por acréscimo, abrir-nos a uma significação. Dir-se-ia que é uma lei do espírito só encontrar o que não procurou. (p.147) Maurice Merleau-Ponty A PROSA DO MUNDO
coisas de achar sem procurar / estranho estar a cheirar os livros perdidos / encontrar o volume / esbarrar no lido, reencontrar… esta coisa das palavras… sim, a loucura de ‘puxar’ uma ideia, de escutar e responder, ou não responder mesmo escutando, ou distrair-se do significado, da palavra e olhar, olhar vendo e deixando de ver, isso acontece… o impressionismo seria um jeito derramado de olhar que os tornou tão poderosos? eles se desviaram do que era para chamar atenção / claro! estou exagerando… mas tudo isso é a magia, dos poemas, do sonoro no significado… pois é. tenho um amigo Paulo poeta e colorista / apaixonado… acho que o definiria / não, não vou definir nada… aliás / resvalo no tempo. desencontro encontrado. ah! complicado. Elizabeth M. B. Mattos / outubro, ainda, 2016 – TORRES
ainda não
a música segue sendo mágica / fantástico… e a melodia pode, de fato curar. sinto que amanheci melhor… p corpo pesa menos, o café amargo levantou a manhã e posso caminhar. no entanto, o peso, o sombrio da memória ainda me assombra: não consigo esquecer, nem perdoar, quem apunhalou, conseguiu,. estou sendo tratada. entrei em vários hospitais, chamei emergência e socorro… fui atendida. mas a memória da dor é maior do que a própria dor. o processo de esquecer precisa ser concluído. a leveza importa. amanhã começo a mudança. talvez devesse apenas pintar as paredes… acudir os cupins (eles crescem, ficam mais fortes com o veneno) ou dançar (danser) ouvir música, voltar a selecionar os discos. comprar uma agulha nova / enfim, devagar, resgatar alegria, e bons perfumes. Comprar um perfume me faria bem. Elizabeth M. B. Mattos outubro de 2026 – Torres
GEORGE SAND
Qu’ on soit pur ou impur, petit ou grand, il y a toujours vanité, vanité puérile et malheurese, à entreprendre sa propre justification. que a gente seja puro ou impuro, pequeno ou grande, há – existe sempre vaidade, vaidade pueril ou infeliz para explicar a própria justificação. uma tradução mais ou menos.
justificar o medo, a saudade, a vergonha ou a coragem em determinada situação / o que eu posso ou o que eu não posso fazer… fracassar ou ter sucesso // ganhar ou perder // mas a gente perde sempre / perdemos, então, prosseguir é um ganho / já deve/é / com certeza / a medalha como tu sussurrarias pra mim…
quando volto aos livros de Marguerite Yourcenar / pois é, ali está o medo, de como mulher, se revelar / será mesmo permitido? elas, as poderosas, grandes mulheres, salvo Cleópatra (sempre), são reservadas… eu não, a história, sim. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

fazer pelo outro / para o outro, sim, certo // mas não deveria fazer por mim antes?
aborrecida, chateada
eu não queria que fosse assim, ou sei lá… deveria não me importar, mas eu me importo: aborrecimento da idade / ou com a idade / aborrecimento instalado / instalou-se. será que escolhi errado quando a decisão foi ficar eu comigo? ainda bem que me mandaste um beijo. careço deles. aborrecida com a ideia de perder /perco / extravio / sei lá! enumerar o perdido. / sinto falta de ti / mas me acostumo // esquisitices de viver. coisa complicada viver / escrever / um vício estar viva / tudo bem. digamos que sempre escrevi, sempre respirei / ou tentei escrever, teclar… até agora, estou viva. acreditei na observação, levar a sério a droga do escrever (que sofrencia!)/ mas agora… agora / neste momento tenho os tais 80 anos pra aceitar / atropelam, consomem… redondos / poderia já ser logo 83 anos ou 85 anos… será que seria melhor? violetas ou rosas, papoulas / hortênsia estou estremecida, sem tempo. quero flores. Elizabeth M. B. Mattos – outubro de 2026 – Torres

sinto saudade da ÔNIX
por que não vai embora
por que o frio estacionou? / por que não estou lá, estou aqui? rota estranha… neurastenia floresce. esquisito assistir no camarote este humor enraizando… brota temperamento esquisito: o espetáculo. hoje vou começar a história / a tal novela encroada… sem plano, engasgada mesmo. Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 /Torres
cupins / tantos!
devoram: fazem ruido, cada vez mais audaciosos.
eu? cada vez mais negligente / sim, medo de fazer / ser julgada, o que significa isso? medo de ser eu?! uauuu! como vou mudar isso? amanhã. amanhã eu começo a escrever / amanhã… imagino um leitor / minha filha sugeriu / enviar direto para ela… ser ela a leitora. será? a coisa de imprimir desaparece /
sei lá / era bom quando conseguia pensar uma história / quando imaginei Isabel / quando não tinha nome a/o personagem / quando era Ela. Ela se movia… que entusiasmo! uauuuu! não posso desistir ANTES da hora. que a hora desista por mim… amanhã é quarta-feira. amanhã compro pão e coca-cola. compro laranjas, sei lá… não tenho tomado limonada, nem feito bifes, nem cozinhei as batatas. nenhum cálice de vinho. não caminhei. preguiça, descaso, não sei. ainda bem que estás vivo, aí. ainda bem que eu te penso, não me mexo, não te escrevo. eu te sinto. amanhã vou estar melhor. um beijo. amanhã estarás aqui. que seja. Elizabeth M.B. Mattos / outubro de 2026 – Torres / perdi / perco coisas preciosas dentro de caso, e o dia fica movimentado. eu procuro. sinto tua tua falta. um beijo.
não é frio
coisa esquisita / tá partido o sentimento, a voz estranha, leio atravessado.
escrever / pensar, desejar, deixar o dia terminar. dormir não é solução, o sono sacudido não resolve. tempo demais na cama a revirar… vontade de voltar a dirigir / sair por aí ser eu antes / é… não envelhecer, claro! tô revoltada com esta coisa de envelhecer. tudo pesa e tudo rodopia: coisa esquisita. sim, uma novidade. se é que se precisa de novidade. envelhecer é uma novidade! Elizabeth M.B. Mattos – outubro de 2026 – Torres / chuviscos, mas vai chover bastante, muito