lembrança realimenta

Uma memória seletiva se pendura no imaginário, ou muitas estão encapitadas para florescer… Uma floração sezonal. E cada uma carrega diferente necessitade. Voraz, ou vertiginosa. Irremediavelmente, presos aos sustos e as alegrias das crianças que fomos. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023

muralha

Posso ficar sentada todo o dia: não respirar; continuar empilhando um pensamento no outro. A leitura sobre a China, Os cisnes Selvagens de Jung Chang volta. A descrição das mulheres: nada mudou embora hoje se sintam libertas (elas se sentem libertas?). Ilusão, nada mudou. Posso repetir o pensameto, o gesto, dizer que eu compreendi, tentei, mas, continuo sentada. Um dia depois do outro, outro. Reviradas feridas se avolumam… Não as minhas, mas as dos filhos, dos netos. Enormes e cinzentas elas se sentam no meu sofá. A percepção de vida. Magda deve ter razão quando se programa para ir e andar, e visitar, e olhar, e fotografar, e ir outra vez! Um baile.

Olho pela janela, a ilha desaparece com seus lobos marinhos espumada pelo mar escuro. O céu escuro de chuva e vento. Volto a olhar para as estantes. os livros. Os livros são como muralhas. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

não me perguntes com quem

a gente caminha por livros tão belos, intrigantes e poéticos! mas não me perguntes quais são, cada um tem seu motivo, sua âncora particular de beleza. E da culinária, não me perguntes com quem eu cozinhei, algumas coisas e fazeres se mexem misteriosos, como dançar… dancei muito e sempre, com pares e sozinha, eu danço, não me perguntes com quem…Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

intimidade

Quando a história espia, a vontade se sacode, os fatos se escondem. É um tal jogo de procura, procura, olha, corre, agarra e acerta. Nunca como deveria mesmo ser. E estamos todos entrelaçados pelas incertezas. E se tivesse feito assim, ou assado, cortado o dia. Sei lá. Não fizemos, somos do agora, do imediato e do arquitetado, tão artificial! Sigo a pensar que te quero, pelo hábito de pensar. Pela languidez do dia e estes aconteceres esquisitos. A novela política, a temperatura desarrumada, a loucura do piano da vizinha, o violão desafinado. Mortes certeiras, e a espera. Será que ficou tão atualidade a tal angústia apertada deste sentir. Por onde caminhamos? O que não estamos vendo? Até mesmo as roupas são apressadas, amassadas. Eu me digo / eu me conto histórias, mas não concluo coisa nenhuma. Ninguém lê coisa nenhuma, não posso escrever coisas e certezas e bonitezas arrancadas do cinzento… O sol se esconde no cinza, a pressa senta na praça, as árvores escorregam na sombra… Como posso descrever? Escrever ou pensar. Imagino. Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2023 – no meio do dia um adormecer cuidado. Troquei os lençóis e fechei as janelas.

olhar e vontade

Poderia ter salsa, pimentão, mais cebola, ou o teu jeito de fazer. Lascas de todas as invencionices. Nossas vozes gritando no prato, porque esquecemos das / as boas maneiras… As saladas deram o colorido que gostas: amarelo e todos os verdes. Como tuas visitas são gostosas e coloridas! Teu fazer! Sinto saudade continuada de brindes, dos vinhos, dos pedaços de queijo e da nossa preguiça! Te amar me dá o colorido certo! Tintas misturadas: óleo das bisnagas, aquarela no papel. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

por dentro

Fazer no detalhe do cuidado. O antes. Trabalho minucioso da escolha, lento… Oculto na evidência do bom produto. Este passeio com cheiro de madeira, no misterioso reduto das madeiras, como eu gosto!

Sempre oculto o segredo, mesmo quando eu revelo, ou conto, explico, digo… vira sombra. Muda de lugar o aperto do amor. O cheiro do teu abraço sacode forte mesmo quando cuidas para ser leve e doce, ah! Teus braços! Em movimento eu sou outra. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

Estou no lugar que devo estar: caminho pelas certezas. Não vejo como gostaria, mas sinto o cheiro, escuto as vozes e acrescento… Viajar tansforma, altera. E voltar para dentro movimenta o sentimento. Viajar agita aquele vermelho, traz o verde. Misturado ao marrom do tronco. O amarelo se insinua iluminando, como gosto! As tintas!

Para o Pedro.

ouvir

Ouvir / escutar / entender / prestar atenção ao que o outro diz, sem julgar, sem açoitar nem questionar, apenas, ouvir. E, de alguma forma, acolher. Acolher o cansaço, a fome, abraçar os sonhos derramados, as lágrimas nos/aos soluços… Como é difícil ouvir, escutar e entender sem polêmica, sem palavreado – impulso, apenas escutar…

Será que atravesso os oitenta anos sem entender nada de amar? Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2023 – Torres

leitura

Ler pode ser respirar e falar ao mesmo tempo. Pensar, pensar, para conseguir entender o voo do pensamento. Estas algumas coisas me fazem ler, obstinadamente. Leio para conseguir entender quem eu sou, como se eu fosse a réplica, ou um pedaço de quem já foi… Ou para entender o outro, como ele é. Complicado saber quem sou, quem és, como nos damos as mãos, como me ajudas, como eu te ajudo. Um jogo de perseguição… Um jogo a trazer de volta a casa. Os pais dentro da casa, os irmãos, os cães, na casa. E com este puxar de tempo vem o perfume dos frascos enfileirados, o cheiro de bolo, o suor do verão… Ah! Quero os vidros perfumados dos perfumes!

Observar o outro na conversa distrai. Entro, sorrateiramente, no sorriso, na não compreensão. Depois as acertivas, ou a conversa se gruda no prazer de olhar, depois de tocar, depois de abraçar e também separar… Desbaratinar. Este fazer completo joga logo a pessoa para escrever, não basta explicar no atropelo da conversa, distraída ou sonora, com a voz, ou com teus olhos azuis, eu me distraio. Digo muitas sandices.

O que eu quero te dizer agora? Todos os livros se costuram dentro da pessoa, como uma super roupa de poder, e o hábito de ler, ou de reler os livros, os amados, é um exercício de domínio interior… Eu preciso me entender…

Quero ficar falando/conversando / dizendo uma tarde inteira. Comer o bolo de milho, ou o bolo de chocolate ou os teus sanduiches de festa, beber o chá e falar falar falar… Minha filha querida, era certo que dormirias no meio da minha conversa, então, eu puxava as cobertas, e sabia que nunca seríamos tão felizes como naqueles preciosos tempo de ler em voz alta. Dormias com a cabeça apoiada nos meus joelhos.

Não tem estudo mais intenso e delicado do que a grande literatura para quem se interessa por/em psicologia dos seres humanos, não tem outro caminho… Ah! Queria te explicar como foram estes anos todos! Um dia! Elizabeth M.B. Mattos maio de 2023 – Torres

de volta

Uma rua preferida, sempre passos lentos, procuro tesouros: tampinhas, vidrinhos coloridos, também restos de azulejo para serem polidos, a cor a ser recomposta, os pedacinhos o jogo. Este pensamento agitado, mas manso de criança, não invadido mas pontilhado pelo perfume do jardim.

Ah! O tempo desta leveza! Na desordem do dia, dos cinzentos, da rotina, mergulho ora num filme, ora num livro aborrecido, ou numa possível desordem, na vida de um filho, do outro, dos netos e danço valsa com a Valentina. Esqueço a água do chá… Ouço música de rádio, logo canso. Desligo. Desligo a comunicação varrendo as folhas! A poeira se acomoda incômoda. A perfeição, vou mesmo encontrar a perfeição! Sem caminho, avanço em todos… Coisas do tempo! Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

Estas viagens intermináveis de temporadas alegres!É o gosto do verão que foge deste inverno quente do Rio Grande do Sul.