tronco envelhecido

Cardeal Gonzaga

Sol! – Nós somos a saudade. O pensar que se amou, que se viveu… O amor!

– Um troco envelhecido a cuidar que deu flor!

Depois, nem embecimento

Misterioso monte é neste mundo a vida!

Todo rosas abrindo, ao galgar na subida,

E a velhice, ao descer, toda cheia de espinhos…

– Ai, tão velhinhos! (p.24) Júlio Dantas A ceia dos cardeais

A conquista era tudo; o resto, quase nada. (p.30)

Foto: Marina Pfeifer

audácia

Tem um tédio agarrado no cinza. Tem tédio preso neste tempo lento e descosturado da rotina. Falta rotina. Falta a vivacidade da rotina florida… Propósito ou amor, ou audácia, ou vontade. Falta insônia dentro do café com leite, e também a vontade. A vontade de dizer se esconde.

Em que esquisito lugar tu te escondes, meu amor. Tu te escondes da minha velhice ou da minha audácia, ou desta juventude que se aperta? Tu te escondes das minhas risadas soltas.Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

para Marta

Marta, não esqueci de lembrar. Lembro todos os dias que preciso
escrever, colocar casaco, repousar a cabeça, deixar o mal-estar passar
e desencantar…

Demorei muito para me dar conta que a tua casa não estava mais no
lugar que deveria estar: o que era um balneário se transformou numa
cidade: outras regras, outros jeitos e muitas, muitas pessoas.
Impressiona o fluxo. Sem um churrasco de vizinhança, sem os meninos
brincarem, sem os cães entrando e saindo… Mudou o ritmo, e o tempo.
Observar será redescobrir, mas, o jeito de ser de cada um parece tão
igual!, não se pode acompanhar estes estados mutantes e sugestivos.
Engraçado isso. Acompanhar o que muda sem mudarmos… Se transformo o
olhar, estranho o meu próprio olhar…

Loucura os filmes! O cinema! Pode existir maior magia
que a sensação de estar lá? E depois, como é lento o voltar para casa,
sair da tela, da experiência? O esquisito de viver é o
desconhecido / o desconhecido de ser estranhos para nós mesmos. Vemos
os outros, fazemos coisas apressadas, resolvemos, dormimos cedo,
acordamos mais cedo ainda, tricotamos, bordamos, e não sabemos nada de
nós mesmos… Uma viagem para outro, outro eu, não sou eu. Ah! Os pintores e
as telas. Um finito com limite e o infinito. Pobre de quem escreve! O
poema não termina nunca… E as palavras não se completam, completas, cheias, a transbordar. Queria te
escrever cartas, não tenho conseguido. Mas farei um esforço e
acalentarei a rotina. Um beijo carinhoso. Um obrigada. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres, sem os balões.

mal idade

a maldade da idade (do outro), não é, apenas fazer / praticar / exercer o mal,

M A S sim,

uma pitada de intromissão. um vampiro.

uma posição insistente de vigilância. o voyeur deixa a convivência incômoda, escuta o teu sonho, o telefone que , ainda, não tocou, escuta os cheiros, sabe os movimentos…

não deixa o outro ser.

Espia / vigia, e sufoca. Apaga o individual e a liberdade: eternamente, vigia. Algumas relações vão se desfazendo neste mal estar… Alguns confundem com posse, ou ciúme do amor, não. Não é amor, mas maldade. Elizabeth M.B.Mattos – maio de 2023 – Torres

minha avó

Minha avó e a sua vida murada. Uma rede de ciclos intercomunicáveis e restrita, seus atos e palavras tendem a repetir- se com variações quase imperceptíveis ou imperceptíveis. Acumulando-se. Atos e palavras, uns sobre os outros, obcessivamente. Minha avó e sua vida murada.

Amanhecer com pincelada nova: mais azul no verde. O cinzento se esparrama: alaranjados reviram na boca. Fome de laranjas bergamotas e mamãos, ou do abacate amassado, verde, lustroso.

O balão quase entrou pela janela, assustadoramente, perto – entrou pela rua com cesta abarrotada. Pessoas fazendo sinais de festa! uauu! senti medo. Boa paz desta imaginação cautelosa, fora da vida… Ah! como as pessoas gostam de se agitar no movimeno de ir e vir, então / e por isso, seguem estacionadas… incongruências. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2023 – Torres

desafiador

A dor atrás/escpndida pelas cortinas / miúdas incertezas. O que somos (poss´vel entendimento). Também a coragem de querer ser um pouco mais, e a beleza explode domina e grita. Liberta.

Descrever a cidade / os balões e alegria latente: ato de coragem. A mordaça do medo deve ser desafiada. São Paulo / Rio de Janeiro / Pernambuco e o Rio Grande do Sul, retalhos vibrantes. Uma notícia de jornal, um livro esquecido, as fotos do passado, acordadas, estou viva.

Manter os olhos abertos não é tão natural como parece! E o demônio espreita sempre. Estar a salvo é um magia de dentro / esforço interno, mas vais / vamos conseguir porque a luz de maio te espera. Confia! Elizabeth M.B. Mattos – abril na despedida – 2013

fio de dor

no amor / o amor / com amor o fio de dor repuxa, estica. segue, abre os olhos, respira, meu amado. o trabalho faz seguir, não adianta cortar, isolar… ama igual e segue. danado fio de amor, danado fio de dor! Elizabeth M.B. Mattos – abril – 2023

pedacinho…

um pedacinho da folha de papel, um rasgo, um fiapo de imaginação descolado… alegria como água em fio, mágico, e eu engasgo! tanto amo, tanto choro, tanto sinto, eu engasgo, acredito, seguro a água na comcha da mão, formou um lago, e vejo os peixes, as algas…

confio na tua certeza, e a tua certeza se agarra naquela alegria experiente, não vamos errar, vamos tentar! com o tempo eu fui secando sentimentos, cortando raízes, os galhos secos, tiro do caminho, e durmo, amanhã vou colher os jasmins. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 –

ser agarrado

Ainda que adultos, todos com profissão e exigências familiares,filhas, filho falam como se quisessem voltar para a infância através da língua, como se o que apenas se mostra em emboços ainda assim pudesse se tornar palpápel e ser agarrado, como se o tempo não pudesse passar, como se a infância jamais se acabasse. Como se a infância suportasse o que já passou e o futuro, e que, chegaremos lá…

Aonde chegaremos? Apenas chegaremos sem noção, sem método, com pouco trabalho, revirando o jardim, replantando bulbos, consertando as cercas, regando a horta… E aconchegando o sono. O danado do sono que escapa ardiloso. Sem sono, pouco a pouco, perdendo a ideia, e a tal necessária alegria, a festejar o adulto. o adulto medroso: não faremos nada quando dormimos. Alívio do descanso.

E repetindo as mesmas mesmices sem sentindo, comendo demais, bebendo demais, subindo e descendo ladeira sem entender o que lhe perguntam… cansados. Gastando demais, perderdendo, aos poucos, a energia possível… Triste. Elizabeth M.B. Mattos-abril de 2023- Torres

Vontade arrancar a garganta, costurar os olhos, pular da cama, cantar. Brincar de roda, distribuir os brinquedos que guardei na caixa maior. Entender. Sinto calor calor, os p[es gelados, as costas doem. O tratator passou uma vez, voltou, passou outra vez e não morri… Que surpresa!

capítulo da morte

organiza e limita e as mãos que se encontram se compreendem: o bolo perfuma a sala, o abraço abafa a incerteza e o que amor é amor amor e será… Um arco de cores / brilhos e sou eu… Vampirosos. Tempo: chegar, com certeza, vamos chegar…

seus / meus /nossos e a morte / o fim.

De hoje – ou ou, ou eu. Afinal nossa voz define, acertamos!E o tempo empurra. Elizabet B. M. Mattos – abril de 2013 – Torres