inglês, francês, espanhol, português

Todas elas, todas nas prateleiras, ordenadas, intocáveis… Assim são as potecialidades e os desencontros. Se não atravessamos a rua, não apertamos a mão, ou damos um beijo, ou entragamos a flor ou … Ficamos intocáveis, ausentes, transparentes.

É preciso fazer um gesto, ou memoraziar uma conjugação no modo indicativo subjuntivo, entender os diferentes futuros. É preciso me concentrar, não alterar a voz, nem gritar, nem ensurdecer.

Não bastam as flores

Não basta a música, nem fechar as portas…

Um esforço, um mínimo esforço para chegar na paz e tocar o céu… Toda a fluidez, qualquer azul, qualquer cinzento, com estrelas, sem estrelas.

Preciso entender o mar que vai e vem, e se movimenta, irritado, ou manso, vai e vem… Sempre o mesmo, tão diferente… E estou fechada no quarto, com a janela fechada. Sem conexão, no escuro, sentada na beira da cama, sem chorar… É preciso, então, chorar. Elizabeth M.B. Mattos – abril – 2023 – Torres

um fio, um fio bem fino e a água desce…

escasso, devagar, aflito

não sei se vou conseguir matar a sede, sossegar, ou

chegar, naturalmente, vou perder

quando a energia se transforma em sono, sono, sono e descuido,

com certeza, vou perder

posso colocar um piano para tocar, talvez uma valsa, ou comece a cantar…

nada que eu faça vai aletrar a certeza de que estou perdendo…

o que pensei esta manhã desapareceu, de tarde fiz um esforço, gritei

gritei um grito rouco e tão absurdo…

estou juntando os pedaços, para fazer, extamente, o que?

não vou colar nada.

aquela tristeza seca tomou canta, desorientada, seca, sentada, ao meu lado no quarto escuro… Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

George Sand / Que tu viens a propos pour terminer ma peine!

As histórias de nascer, conviver, se repetem: encontros, desencontros, decisões que importam como faróis para que o amor e a vida possa seguir. Quanto sofrimento enfrentamos /aprendemos para seguir em frente, poucos botes se salvam no meio da tempestade… temos medos, e o medo persegue, as pessoas perseguem umas as outras. Os escudos do amor são importantes. E.M.B. Mattos – abril de 2023

Mas a história do gênero humano se complica sob tantos sucessos imprevistos, bizarros, misterioros; os caminhos da verdade se ramificam numa tal quantidade de atalhos estranhos e abruptos; as trevas que cercam essa peregrinação eterna são tão frequentes e espessas; as tempestades por tal forma se obstinam em destruir os marcos das estrada, desde a inscrição deixada deixada na areia até às Pirâmides; tantos sinistros dispersam e desorientam os pálidos viajantes, que não é de espantar que ainda não tenhamos tido uma história verdadeira livre de dúvidas, e que vaguemos nem labirinto de enganos. Os acontecimentos de ontem são-nos tão obscuros quanto as epopéias das épocas mitológicas, e somente de hoje datam os estudos sérios que lançam alguma luz a esse cáos. George Sand – História da Minha Vida (p.89) I volume ( História de uma família de Fontenoy a Morengo) tradução de Gulnara Lobato de Morais Pereira – 1945 – Livraria José Olympio / São Paulo

Estou empactada com a coragem de seguir em frente e como a doação sincera: uma autobiografia de todos nós, e história ferve, e somos nós. Os bons livros, serão sempre, os corajosos livros.

“[…]é a alma que sofreu mais que domina a outra. Se uma emoção nos empolga, não buscamos jamais o apoio do céptico zombeteiro e altivo. É para um infeliz como nós, em geral para alguém que tenha sofrido mais que nós, que voltamos nossos olhos e estendemos nossas mãos. Se o surpreendermos num momento de desespero, ele se apiedará de nós e conosco chorará. Se o invocarmos no pleno exercício de sua força e de sua razão, ele saberá instruir-nos e talvez nos salve; contudo, só poderá influenciar – nos se nos compreender, e para que nos compreenda, necessário será que tenha uma uma confidência a fazer em troca da nossa.”

A narrativa dos sofrimentos e das lutas da vida de cada homem é, pois, um ensinamento para todos os outros; seria a salvação de todos, se cada qual soubesse discernir o que o fez sofrer e compreender o que o salvou. Foi com esta mira sublime e sob o domínio de uma fé ardente, que Santo Agostinho escreveu as suas CONFISSÕES, que foram também as do seu século, e que ofereceram, a várias gerações de cristãos, o mais eficiente auxílio.” (p.15)

tu contigo

O esforço de fazer se abraça no esforço de sobreviver, como se um pedaço de você se soltasse do corpo e formace outra Elizabeth, uma boneca de ser feliz, arrastar coisas boas, cozinhar coisas boas, dizer coisas boas, apagar a tristeza ruim, colocar o indesejado na conta do caderno do envelhecer, mas não adianta, o mar está tão longe! Tenho que mudar a geografia, fazer a mala e ir embora pra São Paulo, colorindo o caderninho escondido. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres, ainda na despedida.

derrubei a faceirice

Tentativa travada e agitada: reorganizar. Possibilidade: da picanha ao fígado, e, salada verde. Estar preparada para todas as guerras.

Num lugar de entulhos, com tantos entulhos, brotam folhas e flores miúdas, corajosas. Assim se espalha o sono sem sono, um ânimo desanimado, uma preguiça arteira. Pequenas armadilhas: a calçada.

É o tempo se fazendo minuto, desassossegado, indeciso. E não faço o possível. Descosturo a velha túnica, embora mantenha os pés aquecidos nas meias, estou com os braços nus.

A descrição parece esdrúxula e os sintomas deste pequeno desacerto do certo possível se arraste inquieto a procurar o lugar definido. Sou eu acomodada na situação de ser com desânimo. Haja vida desavisada e contínua. Haja francês, alemão, inglês ou espanhol. O sonoro destas línguas todas, não esquecer o italiano, se mistura num gozo completo.

Acordo afogada na angústia de ter me esvaziado: derrubei a faceirice, o cuidado, a delicadeza que eu tinha comigo como se pudesse assim aliviar a angústia. Penitente, desfaço toda e qualquer alegria para ressuscitar. Impossível mecanismo. As leituras se desfazem, a casa não está limpa. E o mundo parece outro, não o meu. Sinto uma saudade desgovernada de minha mãe: passo meu tempo a pensar nela. Como vivia. Tenho que inventar o meu próprio jeito, não tenho parâmetro. E as vozes desapareceram dos telefones… Desapareceram das calçadas. E os hábitos que enfeitavam os dias foram embora. Esta reconstrução minuciosa e difícil desgoverna o pensamento.

Tenho que escrever mais, tenho que ler mais, tenho que voltar a trabalhar mais, talvez viajar. Preciso começar por Porto Alegre. Vencer a barreira, administrar este ir até a casa da irmã. Testar a calçada. Não enlouquecer. Trata-se de manter a lucidez, a coragem e bocejar antes de dormir. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

Foto: Pedro Moog – Ibirapuera – abril de 2023 – São Paulo

diga quem amas e te direi quem és

A narrativa dos sofrimentos e das lutas da vida de cada homem, é, pois, um ensinamento para todos os outros; seria a salvação de todos, se cada qual soubesse discernir o que o fez sofrer e compreender o que o salvou. Foi com esta mira sublime e sob o domínio de uma fá ardente, que SAnto Agostinho escreveu as suas Confissões, que foram também as do seu século, e que ofereceram, a várias gerações de cristãos, o mais eficiente auxílio. (p 15) George Sand A História de Minha Vida

amor do amor para amor

Estás junto a mim, minha mão está envolvida

Pela tua. Meu corpo firmemente apertado contra o teu.

Minha boca grudada na tua…

Somos um único ser, inseparáveis.

Será a batida do teu coração ou do meu que sinto?

Não será o que soa e se avoluma em meu sangue

Um eco do teu sangue?

Não existe eu, nem tu. Benditas sejam as fronteiras.

Profundamente submerso, como todo o mundo

Está o que sempre nos separou. – E até que

O doce milagre se renove, e o sonho

Também seja devorado pelo fogo – torrente de desejo,

Imagino que somos, fomos e seremos – para sempre – um.

1914 – Melanie Klein – (p.77-78) O mundo e a obra de Melanie Klein – Phyllis Grosskurt

amor pesa

A literatura descreve, a nossa mestra, este peso de morte. Grita, faz escândalo. Evidências da vida sacodem o homem, mas, embora seja aliada, não consegue evitar /impedir que morram e sofram ou sejam mutilados… A inteligência, como o amor, vai roendo devagar as pessoas. A consciência empurra… Esquisitices que não consolam os inteligentes, ou os menos dotados. Respirar pode ser assim difícil. Ser o escolhido também: a disputa do amor quando se está desavisado é maior / perigosa. Envolvido com as benesses de ser amado / o escolhido… A inveja pegajosa destrói, mesmo a criança. Concorrer! Haja músculos! Escudos e lucidez. Ás vezes, o excesso de amor amolece… ou se transforma em armadilha. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres

movimentos irregulares

O amor nos torna surdos. E da lua aos porões da terra pode-se sambar e desejar, outra vez, o poder – ah! este gosto amaldiçoado do poder está na pele e se sacode, dança e reconduz o letreiro da vida… Respirar, viver, suportar e chegar, viva, ao poder.

Je n’ai certainement pas assez de sport dans ma jeunesse pour supporter ainsi les mouvements irréguliers de mon coeur. Cela fatigue tellement, ce mouvement perpétuel du bonheur ao malheur. Avec Alice, j’alternais sans cesse entre les mouvement d’euphorie où je voulais l’emmener en week-end sur la Lune et les moments de violence intersidérale où je l’ aurais enfouie au coeur de la Terre. Je pense qu’ elle ressentait exactement la même chose. Habituellement si douce et si chuchotante, elle était capable de crier subitement, de déverser des sons stridents dans mes oreilles amoureuses. Nous étions dans la valse des tonalités. Et je n’ étais pas loin de penser que l’amour rend sourtout sourd.(p.24-25) David Foenkinos

O amor nos torna surdos. E da lua aos porões da terra pode-se sambar e desejar, outra vez, o poder – ah! este gosto amaldiçoado do poder está na pele e se sacode, dança e reconduz o letreiro da vida… Respirar, viver, suportar e chegar, viva, ao poder.

Este ensejo de seguir, dizer, escrever, e não imobilizar… Faço um esforço enorme para seguir acreditando que amanhã deve ser amanhã ensolarado, fresco, corajoso e não sonolento e ardido. Imagino flores, sinto o gosto dos chocolates, perfumo o tempo e os jasmins se acomodam míudos na janela, respiro. Respirar é preciso. Abro as pequenas gavetas, reordeno, descubro cadernetas e mistérios empilhados, reencontro a desordem numa calamidade triste… penso nas caixas, preciso voltar a investigação das fotos, dos desejos. Acordar a vida, não deixar o tempo ir contando regressivo, ou amordaçado. O cheiro dos equívocos devem se misturar aquelas alegrias certas de acreditar. Elizabeth M.B. Mattos – abril de 2023 – Torres porque São Paulo pode ser um tempo definitivo, será?