carnavalesco

errar pode ser caminho, acertar sempre é o desejo. tantos são os nós / os amarrados que fico presa nas tentativas. ensaiar o grande gesto. agradar menos e mais, aqueles, estes, mas também me agradar… entender o espaço entre aqueles, estes e eu… navegar, às vezes, ou me jogar no mar e nadar, nadar, mas é heroismo, não sou heróica, todos os saltos foram naturais, espontâneos. abençoados, ou sei lá como foram, importa? talvez seja assim o dia de todos os dias, ventoso, ruidoso, escuro e tão claro, carnavalesco. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

tanto e tanto

escrevendo no amarelo

17 de fevereiro, uma madrugada! Dormi tanto e tanto! O sono desarrumado. Hora errada de preguiça. Imagino meus pares adormecidos. Sim, não ser dois incomoda, não ser nós… Com certeza uma fortaleza teu abraço. Comunhão com a calidez da noite! Estes amarelos me encantam! No fundo a lagoa. Posso ser menos feliz?! Tanto prazer me pertence! E, súbito, solidão guardada. Sou outra. Quero descartar, quero gritar a voz de falar/explicar! O sonho era todo povoado contigo! Há uma alegria a conversar dentro de mim. Aquela saudade infantil, juvenil que eu sinto da casa, dos jacarandás, da minha meninice! E Tia Joana a costurar! Eles nunca saíram da minha casa, da vida! Sempre imagino ou alimento o sonho: para sempre, e estou / sou tão limitada! As bordas do tempo empacotam a vida! Sinto saudade, desejo, nem sei, uma saudade a transbordar. O corpo se ajeita nas velhas camisolas como se fosse dormir, dobrado, fechado, destemido! Pois é do corpo que a saudade brota! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

buganvíleas amarelas festejam a noite, desenham a fantasia colorida

carnaval 2023

Por que o CARNAVAL se antecipa? Estou enrolada nas serpentinas. Cabelo e confetes se confundem. Não penso, saio da rotina. Divagações, mais, muito mais do que música e pulos! Desordem da idade, não sei. Ah! Se não anoto a rotina, a rotina dá nós e cortes, outros nós e me assusta. Isso se confunde no calor de, calor de verão (natural, não é?)… Os três pontinhos são confissões impossíveis. Aquelas q não dizemos/fazemos/contamos ao confessor. Incompletas, não caracterizam pecado mortal. Existem pecados? O mundo permissivo / abusivo e carnavalesco desde que iniciou janeiro: nada é pecado nem indecente, tudo lícito. Preciso aquietar o espírito, ler e ler e ler, talvez escrever, limpar a casa mais seguido e lavar os vidros, depois, caminhar, caminhar, caminhar, e caminhar, e silenciar. Excesso de conversas, poucas anotações, notas, fantasias carnavalesca. Ah! Como eram bons os nossos pacíficos carnavais naquela adolescência torrense. Súbita saudade! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

infinito

As guerras, as lágrimas caminham com o ódio, a fome e a incompreensão. Tanto vivemos e não apreendemos como povo, nem com a união. As pessoas querem ser sempre mais e melhores. Exatamente em quê? Os outros são circos coloridos, não fazem parte das pessoas. Esquisito isso!

Afinal, concluo: gosto de cada pequeno evento do meu corpo… A beleza do mar foi como um choque! Como posso estar tão perto e tão completamente alienada da esmeralda das águas, da doçura daquela água e tão longe de um prazer, um prazer absoluto. O mergulho significa dentro deste calor verão, ou do verão calor deste ano, apenas mais um ano. Cortei a vida em mar / sem mar. Deixo de ser um ser pensante e me transformo em ser caverna. Vou tentar adquirir um apartamento que me devolva o horizonte do mar e que me faça mergulhar, mergulhar, mergulhar…

Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

Praia da Cal – Torres

Ferreira Gular TRADUZIR – SE

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. […] Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma prte de mim é só vertigem; outra parte linguagem. TRaduzir uma parte na outra parte – que é uma questão de vida ou morte – será arte?

‘pensando’ num livro de memórias velhas

DA VIDA: espantos que ainda vivem, sobrevivi…

1.

Não planejei nada, não organizei nada, era feliz, aquela felicidade inconsciente dos que não tem inteligência nem inquietude. Eu era uma criança feliz, uma adolescente feliz e bonitinha. Fizeram um teste de QI na escola, parece que o meu era bom, disse, afirmou a Madre Hermínia para acalmar minha mãe furiosa por ter que me levar para casa ( de castigo ) pela baderna que fizeram ( as internas fizeram, as outras, eu dormia ). As internas se acordavam depois que as madres deitavam / ou nem dormiam… Para fuzarquear / já era a terceira noite de bagunça, eu não participei, mas fui punida como as outras, suspensão… O engraçado que as freiras sabiam, mas resolveram castigar geral, éramos apenas 24 meninas internas… Esta história é incrível, porque as que moravam no interior ficaram de castigo na escola, eu precisei enfrentar o pai e a mãe, ir para casa. Meus pais abertos e justos, sem castigos e punições, os erros, e se comete tantos, vinham com explicações e prolongados silêncios. Sei lá como foi para as minhas irmãs, mais velhas, bater não era a questão… Enfim, no meu caso, não houve punição maior do que enfrentá – los. Fiquei, de castigo, em casa. Primeira frustração!

2.

Segunda frustração, esta foi difícil! Não fui ao baile do Itamaraty. Chorei. E vi minha irmã ir no meu lugar, decisão materna. Em compensação, quando eleita para Rainha da SAPT (e foi mais ou menos ao acaso) o pai saiu, no meio da temperado, com a mãe, para buscar um vestido adequado… Teimosa, eu colocara na mala apenas o verão, nenhum enfeite, nada que pudesse vestir na ocasião. E aquele mágico, feliz verão, logo depois de ter desmanchado o tal noivado, foi o mais divertido, alegre e fantástico de todos os verões.

Aquele noivo aborrecido, distante e protocolar que tinha arrumado no ano do Bom Conselho, acabou me dispensando, e, achei que a vida começava ali, na alegria de ter outros namorados possíveis, outros caminhos! Aliás, até hoje, eu me pergunto o motivo, o pai dele resolveu romper (foi tipo século XIX, alto estilo, não foi o noivo que me dispensou, foi o pai do noivo), nossas lágrimas juvenis de nada adiantaram pro velho Leocádio, estava decidido! Bem, nem o noivo, mais tarde ou num momento de autonomia me deu explicações. O bom, foi nunca ter ido para cama com ele, eu era, desfeito o tal noivado, a mesma bobalhona de antes, imaculados sentimentos. E ainda teria que aprender a beijar. Ah! Amadurecer demora mesmo, já ia lá nos meus dezoito anos, e só pensava nas escrevinhações e nos livros a serem lidos: uma chata. Talvez tenha sido esta minha chatice e ingenuidade o motivo: ele era um bobo, e eu outra boba, manipulados. E ficou nisso. Que engraçado me dar conta de como demorei a crescer, a ficar gente, e eu ainda me pergunto, por que nunca DECIDI, mas apenas me deixei levar…?!Levar… Talvez o medo da vida, sei lá. (Prisioneira da mãe, talvez! Não fui rebelde, para crescer precisamos ser rebeldes.) Uma fantasia sobre a outra. Não era audácia, nem querer, era uma enganação! Bem este foi meu primeiro susto/tropeço! Nunca mais vi o dito, chorei. Não a perda de um amor ou de uma paixão, mais o desencanto de um fantasia sem conclusão. Este noivo foi um engôdo. Ufa! A pensar que desastre teria sido, que alívio romper com aquele cerimonial todo dos Antunes. Teria me casado sem me apaixonar? Apenas porque as moças casavam mesmo cedo? Foi uma benção que eu recebi! No fundo, sou muito amarrada, presa numa esquisitices de dentro, sem vocação para vibrar, deveria ter sido freira mesmo. Nada criativa para carregar uma vida porto-alegrense em cercado exigente. Uma introspectiva, trancada na religião. Eu era estabanada, ainda sou. Impulsiva. Ainda sou. E meus amigos de viagem são testemunhas, dançar, rir, e ponto, ir a missa aos domingos. Demorei pra ser mulher! Os milafres me cercaram, muitos. As rezas. Enfim! Todos engraçados, cheios de cercados / espinhos e limitações: eu impunha sem nenhuma consciência. Muito estranho. Reservada e tão expansiva. Limitada. A inteligência é ousar. Esta combinação existe? Bem, eu queria, afinal, ser eu mesma, e me entender. Mas, mas, mas é verdade, a mãe inventou uma ida para o Rio de Janeiro, talvez a decepção dela fosse maior, muito maior do que a minha, e tinha “que dar um vento” naquela filha tão sem iniciativa. Foi mesmo atabalhoado, a decisão de viajar parecia coisa de romance. E foi assim, sem realidade nenhuma, feito enredo de romance que eu voltei ao Rio de Janeiro. Tinha amigos cariocas, de repente, poderia ser uma boa ideia. ( Eu me consolei.) E voltei casada. Simples assim. Aonde eu encontro a tal personalidade / vontade? Não sei. As freiras já tinham feito uma lavagem cerebral de obediência. Tudo não passou de representação, céus! O antes e o depois. O que era verdade na minha vida? Os verões, as férias em Torres. Depois o Colégio. Pois é! E Geraldo morreu tão cedo. Verdade que me apaixonei. E depois, voltei a casar. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

era uma vez um calor

Analogia com os contos de fadas! Vivemos! A lembrança já não de alguém para alguém / não tem corpo físico, mas intensa emoção! Sensação colorida. Paciência e espaço (castelo). No hoje a colorir de vermelho, de intenso esta vida quente. Outro verão fervente. O sentir galopa. Sinto o tempo. Os anos amassam o corpo, trituram, ou eu invento a sensação?! Pode ser. O cansaço é grande, pesado! Arrasto até a memória! No entanto, mesmo sem lembrar, ou lembrando ‘atrasado’ recordo /llembro detalhes. Aquele Natal carioca, as decisões apressadas de ficar, de casar, de resolver. A vida, na vida, nada se resolve: vive – se um viver sem pensar, um viver acontecendo, e, se ‘embolando’, tanta é a pressa! Corre antes, chega depois, acrescenta, retira, impõe e depois questiona, não o fato, mas o sentimento… Ontem foi conversa pra cima, conversa pra baixo, decide na corrida. Remexe a lógica, céus! E tudo isso no verão que escalda, ou sou eu que estou a ferver por dentro e cansar de tanto dormir?! Não sei. Que seja! É preciso apagar o tempo de um dia, ou de dois dias, ou arrancar a lembrança… Que a noite refresque o verde! Acalme o fogo! Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

ontem foi dia 9 de fevereiro

faz muito tempo! 9 de fevereiro de 1968 – faz, faz, faz e faz muito, muito, muito tempo mesmo!

uma data para começar a história /uma das histórias, claro! a mais definitiva e importante história da minha vida, se, se, se fosse diferente, se fosse possível mudar tudo seria mesmo tão diferente ! não sei se eu gostaria de ter vivido outra vida, acho que não, teria que mudar em 1967 / talvez / mas se não houvesse rompido aquele noivado, o quanto de infeliz seria num casamento precipitado como seria aquele, com quase um estranho! Geraldo, o pai dos meus filhos, eu conhecia da toda uma vida! NOssos pais se conheciam, é como dar dois passos na calçada e reconhecer alguém de sempre, assim foi nosso encontro… se eu nunca tivesse me mudado da rua Vitor Hugo?! Se nós não tívessemos saído da casa… outra hstória, outra história! Beth Mattos /fevereiro de 2023 – Torres

rotina

a rotina equilibra e ilumina,

floresce jasmins, cravos,e samambaias

a rotina dança no bom ritmo

e a luz invade docemente para contar / distribuir as doçuras da história amorosa que é viver…

Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres