Garopaba

Meu querido: tu escolheste perfeito. Perfeito lugar para estar. Os ventos quentes e este mormaço, este ar raro te leva pro mar. O melhor mar. Eu perdi teu jeito, tuas palavras, e não sei mais dos pequenos prazeres, nem das aventuras de caçar, ou namorar. Da mesa farta… Nem pastel nem sonho. Perdemos o jeito de conversar. Estamos, ficamos amordaçados. Eu, eu sigo pensando em ti. Tenho aquela vontade saltitante de te dizer coisas… tanto quis te ver! Polir a casa, lavar os cristais, encher a geladeira com coisinhas surpresas, lençóis perfumados… Por que não ousamos? Faz tanto calor que estou a delirar, desculpa. Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

Romain Gary

Au-delà de cette limite votre ticket n´est plus valable

” Et j’ai toujours eu le goût des jardins secrets et des mondes à part. J’aimais cette complicité profonde à deux où personne n’ est admis. Tout ce qui est ‘réputation’ dans ce domaine est fin du merveilleux. La vraie maison de l’amour est toujours une cachette. La fidéliteé n’ était d’ ailleurs pas pour moi un contrat d’ exclusivité: elle était une notion de dévouement et de communion dans le même sens des valeurs.”(p.9)

sempre no escuro

a gente consegue decidir, e até se esquivar, dirigir aqui e ali… comprar um vestido, escolher um lenço, comer beterrabas, embalar, amamentar, mas depois, depois, depois…

qualquer coisa define a noite, o frescos, o pânico, e o sol. não sei o porquê estou solta assim, desorientada. preciso ser empurrada.

…ou a força é de dentro, faz sentido esperar tua palavra? nada muda nada

o impulso da mágica… se eu pudesse te explicar, bem, eu encheria teus bolsos de sementes, empacotaria o possível. Aos poucos, surpresa após surpresa! Vais descobrir que vale! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

Escribo. Escribo que escribo. Mentalmente me veo escribir que escribo y también puedo verme que escribo. Me recuerdo escribiendo ya y também viéndome que escribia. me veo recordando que me veo escribir y me recuerdo viéndome recordar que escribía y escribo viéndome que recurdo haberme visto escribir que me veía escribir que recordaba haberme visto escribir que escribía y que escribía que escribo que escrevía. Salvador Elizondo, El Grafógrafo janeiro de 1978 – Montevidéo –

in La Tia Julia Y el escribidor Mario Vargas Lhosa

madrugada

Uma delícia o ar da noite! Se pudesse ficar no jardim, seria a melhor hora… Acordei de um sonho com as amigas da Tânia: chovia e nos divertíamos muito. Hospedadas num lugar de campo, confraternização! (detalhe curioso, as amigas da irmã) Risadas. E penso que moramos juntas. Foi colorido!

Ah! Perfeito quando a noite entra pela janela! A Ônix foi se refestelar…Falei com o João… As preguiças das noites! Mas já está descendo outro sono! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

Foto diurna.

fio esticado com luz

Obviamente, escrever cartas quase nunca é um ato inteiramente solitário. À excessão do nacisista, que na verdade escreve para si mesmo, o outro está sempre presente – uma fotografia sobre a mesa, uma flor seca entre as páginas de um livro, uma imagem guardada na memória -, esperando ser informado, corrigido, agradado – acima de tudo agradado. Como vimos, não há dúvida de que para a literatura do século XIX, modernizando Cícero, escrever uma carta era praticar um tipo de conversação. Mas seria uma conversa verdadeiramente espontânea? […] Qual o preço da sinceridade? Uma vez que alguém adquire conhecimento suficiente e experiência do mundo, as fórmulas usadas para agradar os outros se tornam uma segunda natureza, tão automáticas que não exigem hesitação ou reflexão. Contudo, isso não significa que uma fórmula habitual seja um gesto de hipocresia, uma emoção manipulada. Tampouco obscurece o espírito de quem escreve uma carta. […] Há uma pergunta antiga, só em parte engraçada: ‘Como posso saber quem sou antes de ler o que escrevi?’ Ela contem uma verdade importante: escrever cartas pode ser um exercícop de autodefinição. Por isso, qualquer que seja a forma dessas cartas, natural ou afetada, elas podem ser fragmentos de uma grande confissão.” (p.356-367) Peter Gay O Coração Desvelado – a experiência burguesa da Rainha Vitória a Freud

encantamento ou…

Não sei explicar, certas coisas acontecem surpresa, gentileza pura. Pois quero registrar, mas não sei. Surpreendem, ou enfeitam, ou…, pois é difícil de explicar, ou de contar. Como chuvaradas de verão: alagadas e perfumadas. Um dia tu acordas decidida, não vou deixar passar, vou resolver: Ônix vai enfrentar o banho, enfrentar (detesta). Resolvo e levo. Vou comprar sabão em pó, amaciante, detergente, trazer um suco, a bacia, coca-cola (em falta). E compro isso, mais aquilo e muito mais do que preciso, vira entrega…

Ah! Manhã agitada, quente e florida. Chegou a gentileza…, pura gentileza. Não tem idade, não tem jeito, é o gesto. O quebra-cabeça se acomoda, volta o calor! Céus! Reclamo. Nem explico, sinto. Aquece por dentro, enfeita, ilumina… O encanto escorrega. Guardo. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2023 – Torres

desorienta / empurrada…

Os pequenos e grandes textos, nos grandes gestos cansados, nas vontades desfeitas. Esta pressão de bobagens, de promessas emparedadas. Desejos desfeitos! Aonde escondi o desejo ardente que eu sentia/tinha por ti… Volta. Não me esquece. Estende a mão, ainda tenho dezoito anos: dança comigo. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2022 – Torres

verão 2023

Explode a chuva. A rua transborda cheia desta luz aguada. Aguaceiro e sol. O brilho quente. Trópicos do asfalto. lagoa cinza… Flores nos canteiros redondos. E as tarturagas se espicham… Ah! Verão quente quente e quente… Eu espero que voltes, respondas, ou respires perto de mim… As histórias de sempre! Que calor! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

aos poucos

vou largar o possível, o correto, vou deixar inverter: seguir tempo, sem ordem, uma azeitona de cada vez. Água com gás, silencio com soluço. Caminho lento, desgovernado, solto, livre – nenhuma coerência

os crimes sem sangue são empacotados em lógicas e metódicas respostas. O feito do envenenamento atravessa lento o coro da lagoa. Então, pelas mãos de crianças, ele mostra as tartarugas espichadas, leva para passear de carro a menininha e o gurizinho. Divide as balas e supõe que pode dormir – ou que está acompanhado, alguns infernos são limpos e a boa comida, o bom vinho, engana.

o desejo de agradar apaga vontade prazeirosa… amontoa-se com a vida / experências de equívocos, muitos traiçoeiros. a cada personalidade sua sobrevivência… eu sei o processo. apreendi calada, observando, e aplainando, nunca enfrentando… a pensar sobre estas questões, também ensino silenciosa, sem impor. Espalho no tapete as ideias que precisam ser costuradas

quando reviro as horas / faço do dia a noite, as horas se devoram estranhas… consigo girar girar no sentido inverso do tempo, rejuvesneço. Elizabeth M.B. Mattos março de 2023 – Torres