Desapegar parece despedir-se antes do fim, largar antes de ser largado, resolver antes de virar problema. E vamos nos desfazer para simplificar supondo que a vida fica mais leve. Ir e vir se resolve fácil – uma filosofia atual, tão sem alma…
Estou a pensar nisso e me surpreendo, sou tremendamente apegada, apegada às coisas, ao estilo, ao tudo, e a todos: detesto pensar que tenho que deixar ficar / soltar para seguir. Ah! Se eu pudesse teria guardado tudo: os pedaços, o todo. As bonecas, os copos, as flores secas nos livros, a lembrança, eu teria tudo de antes, e o de hoje.
A música não toca igual sem discos de vinil, canecas não substituem xícaras… Uma essência se perde quando temos que escolher. Se a água fosse de fonte, se o amor pudesse ser parar sempre, se o namorado namorasse sempre, e o marido, o amigo, o tempo… Se ninguém, nem coisa nenhuma se identificasse com a passagem, se tudo fosse permanente… E liberdade fosse mesmo o sentido inteiro / sem divisão. Se não existisse ontem, mas sempre hoje:
se estivesses aqui
eu seria
eu seria
eu seria
a chuva e o sol. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 – Torres, e, não precisaria me reinventar, ou te imaginar, seríamos. Nem escolher isto ou aquilo, aquilo ou isso. Tudo emaranhado! O tempo todo misturado.
cheiro / odor, que sejam perfumados… o cheiro define, descreve. a minha imaginação aguça depois do cheiro… é o caminho que eu percorro, o sentimento que guardo, o vísivel para mim. tudo o mais funciona no rastro do cheiro. e as roupas, os pertences guardam / seguram o cheiro da pessoa. O cheiro tem formas definitivas, perfeitas ou imperfeitas. não preciso tocar para saber, pelo cheiro tenho o todo. Beth Mattos – janeiro de 2023 – Torres
Escrever para contar / dizer / fixar o que nunca aconteceu, nem acontecerá e está ali, derramado diante dos olhos como a nossa experiência, a vida que se alarga, “vida” no sentido narrativo…, pois é assim, escrever: derramar. A infância, bem como a memória, fontes de erros, enganos, ilusões. A imaginação é descaminho e confusão. Dor e envelhecer perfumam o agora, com um colorido inusitado, cheio de sol, sol de verão. E nada altera o sentimento de pertencer / depois perder / doer e depois doer / doer. Beth Mattos – janeiro de 2023 – Torres
A solidão tem ideias próprias, trajetos certos, conclusões absurdas. Não posso mudar, eu desconverso, finjo não ver nada, escuto música. Procuro pessoas, converso, dou risada. Não adianta, ela me espia, incrível, como insiste! Nem no sono ela me deixa: segura, agarra, e se explica. Não respondo. Igual, ela não vai embora, insiste. Ah! Estas coisas de não estares em casa…. Beth Mattos – janeiro de 2023 – Torres
o passado nunca está resolvido, se envolve com o futuro. o agora se remexe entre os dois: alarga, abafa ou afasta. Um agora ansioso que espia o amanhã, o tal de futuro. sopa de ervilhas com torradinhas é coisa do inverno, do frio. como faz calor! eu invento cada coisa! um sabor de infância, talvez. somos iludidos. completamente iludidos… Beth Mattos
Regávamos o gerânio esquecido desde o domingo passado; mudávamos um quadro de lugar; examinávamos contas domésticas, estávamos de volta, juntos, marido e mulher. Mas, logo, recomeça a clausura: necessidade pessoal… ah! esta vida que deve ser a dois se parte por qualquer detalhe. Beth Mattos – janeiro – 2023
“Amanhã é sempre melhor“me diz ao telefone Oracildo (quer a escritura do apartamento de Torres que está travada com o meu processo de divórcio com J.O.D.), e, acabamos comentano o ano difícil: da política, da sobrevivência mesmo, do Não francês e do nosso possível Não ao Lula.
Conseguiremos?
E eu extrapolo o sentido comum de estar viva: quero respirar /sentir o odor das rosas e ver os sabías, os beija-flores e ter luz, mais luz entrando pelas janelas. Ainda estamos com sol e calor. Coisa mais estranha esta nossa temperatura mista, embro do FHT comentando/dizendo e brigando com o descuido do mundo, descaso das pessoas. Logo estaremos sem água. O esmo serão sempre os mais necessitados, não os que gastam água deste jeito impróprio.
Coisa espremida é viver! Vamos caminhar, de mãos dadas, tomar/ocupar as calçadas para dar/fazer coragem àqueles que se escondem em casas fechadas, fecham-se no medo. Não ao medo.
Se não temos mar, temos o lago Guaiba, e, um pôr de sol, único, dizem especialistas. Árvores e calçadas limpas. Verdes sombreados de jacarandás floridos. É verão.Temos possibilidades, amor. E alegria lacrada na música, na dança, nas letras (a,b,cd, ou dó, ré, mi, fá, sol). Temos casa (lugar privado para nos encolhermos, e ou recriarmos cada dia, o dia de amanhã) e o nosso cheiro dentro delas. Temos as pequenas ou grandes alegrias misturadas, num chinelo velho, num pedaço esquecido de alma que corre atrasada…
Nada de choramingar. Alguém cita Maria Alcoforada, Cartas de Amor, menciona a controvérsia do livro, Ponho-me a rir! Sim, os assuntos precisam brotar de algum lugar. Deste livrinho que eu gosto tanto, brota porque se encaixa nos pedaços, os mais completos, pedaços de Beth, a tal moça retira pra sua coluna os Hélas! Proliferam para dar sentido/recado às reclamações e gemidos femininos. Estes precisam diminuir. Estou incluida? Estou. Chega de chorar. Mas o meu caso não é hélas?!
Soluções. Acordei querendo soluções. Terrível!? Não sei. Bem que tu poderias estar aqui comigo para me ajudar: de onde vem este apelo? Imobilidade emocional, preguiça? Medo? Onde /aonde estarei encaixada? Aliás, as caixas necessárias. O psiquiatra Lang nos explica da impossiblidade de nos livrarmos delas. Uma vez criandas somos condicionados as famosas caixas, caixas dogmas, numa mais saímos delas; pulamos de uma para outa. Ou somos como as bonecas russas, exatamente iguais, tamanhos diferentes, uma dentro da outra, e morreremos iguais ao primeiro olhar-espelho. Uauuu! Eu preciso crescer antes dos sessenta anos, antes da aposentadoria. Antes. E preciso resolver tudo:: o jardim de margaridas tem que existir. Elizabeth M.B. Mattos – janeiro de 2023 -fragmento de uma velha carta para PHF, /quase atual, como todas as cartas: espelhos.
Temo a vida subjetiva e recuo ante qualquer empresa, vontade, ou promessa que me obrigue ou realize; tenho horror da ação e não me sinto à vontade senão na vida impessoal desinteressada, objetiva do pensamento. Por que isto? POr timidez. De onde vem esta timidez? Do desenvolvimento excessivo da reflexão, que reduziu a quase nada a espontaneidade, o impulso, o instinto e por isto mesmo a audácia e a confiança. Quando é necessário agir, eu só vejo em toda parte ciladas e embustes, causas de erro e de arrependimento, ameaças ocultas e dores mascaradas, e naturalmente não ouso mover-me. (p.84- edição de Bolso) Amiel Diário Íntimo
E a citação, a memória vai pra meu amigo de tanto tempo JCKC