no sofá

Tanto tempo não nos visitávamos! Sentei no sofá de onde posso ver os verdes e o céu. Ela trouxe um cálice de vinho, um copo com água, frutas secas. O apartamento é impecável, decoração cuidada: quadros enormes, vasos importantes, alabastros, mas estranha impessoalidade. Ninguém vive naquele salão / naquela casa. Heloisa senta, olha feliz para mim, depois inquieta, depois intrigada, num sobressalto, fala. Pensei, será que posso mudar a vida? Respondo de imediato: sempre se pode. Mas, por quê mudarias agora? Largaste tanto de tudo por este homem! Estás nos túneis da vida dele, a respirar os desvios… Já é a tua vida. Agarraste a vida dele, e assim, entre idas e vindas, já tens o livrinho de colorir completo, cheio, bonito… O mundo nas tuas mãos, sim, ou será nas mãos dele? Não é limite, minha amiga, mas escolha. Entraste. Por que sairias agora?, por capricho? Ou recomeçar? Sei lá Heloisa. Sei lá. Tens razão. A cada recomeço nova / diferente vida. Por que não? Mas, não te iludas, se tu sais, ele fica, não chora, segue… Ele não desarruma nem o fio do cabelo. Aceita tu ficares, aceita tu ires. Por que não te acomodas? E ficamos a conversar sobre recomeçar, parcerias, casar ou separar. Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Porto Alegre –

revisão novembro de 2022

Acordar assustada, no meio do caminho, significa que ela dormiu no meio do caminho, ela, simplesmente, dormiu. Há uma lacuna. Fadiga, ou alucinação.

Voltar no tempo, presa, amarrada. Assim, surpresa… No hoje, circular vaidade, ou expectativa?

Bebe o café, acalma o corpo. Enche a caneta com tinta preta, os dedos ficam levemente manchados, escreve no caderno: Colégio Nossa Denhora das Graças – Cônegas de Santo Agostinho . As Madres.

Decidido, iria para o internato, as lágrimas impressionaram Madre Paulina. Aceitaram a menina que morava em Porto Alegre, da excessão, outras vieram, como a Lala e a Zênia, Cristina, Marta. Éramos poucas portoagrenses, muitas de fora. Eu me sentia recompensada. Teria as minhas histórias de colégio como a mãe que estudou em São Leopoldo no Colégio São José. Como minhas irmãs que estiveram internas no Colégio Americano em Porto Alegre. Ah! Eu tocava / materializava a felicidade.

O enxoval incluia, além dos uniformes, camisolas: lindas! De algodão / cambraia branca, rosa, amarela e azul. Muitas! Duas abaixo dos joelhos, e, as outras, mais compridas, na altura dos pés. Chinelos de couro pintado. Tênis branco. Um sapato de verniz. O bordado inglês segue movimentos variados conforme decotes e abotoados. Lençóis macios, brancos. Dois travesseiros. Cobertores eram mantas coloridas, e uma colcha toda branca. Livros permitido: uma caixa. Entusiasmada acolhendo sugestões eu fiz a seleção acatei sugestões da mãe elucidando a importância deste ou daquele autor, essenciais. O pai sugeriu biografias, ponteiam a história e caminham na geografia. A biblioteca da nossa casa era separa das salas por um biombo precioso, pintado /desenhado em nanquim de Glauco Robrigues representando A Lenda da Salamenca do Jarou. Imponente biblioteca aquecida por uma lareira em lambri mármore. As estantes, em louro separadas e decoradas com lambri entalhado, rosáceas, iam até o teto! A pequena escada de quatro degraus me ajudava. Os livros de Direito ocupam a parede principal, e a Revista Forense com lombada vermelho, tinham letras doradas, as iniciais do pai R.M.B. Mattos. Sentiria saudade dos livros, e da aventura: Eça de queirós. Gilberto Freire, Dionélio Machado, Vianna Moog, Graça Aranha, Euclides da Cunha, Antônio Tores, o teatro de Paulo Hecker Filho, Érico Veríssimo, Alcides Maia. Enciclopédia. Dicionários, e, as revistas de decoração da mãe, em estante especial. Difícil seleçao. Na caixa foi Charles Morgan, W.Somerset Maughan, Thomas Mann, Guy de Maupassant, Georg Sand. Audaciosas leituras para uma menina, Tanto devorei livros! Muitos sem entender exatamente, atropelando, voltando. Riscando (para escândalo de minha mãe) e acertando, como dizia meu pai: faça fichas. Coloque as datas das tuas leituras. E voltes e voltes naqueles que fascinam.

A ida para o Internato, uma conquista pessoal, meio a lágrimas: teria, finalmente, um quarto só para mim, meu quarto, minhas coisa entendidas secretas, e a independência presa/pendurada nos horários obedientes. E toda a altivez das Madres francesas. Educadoras que nos preparavam para a Filosofia. Aulas de piano e solfejo, jardinagem, costura, culinária, cerâmica, desenho com Madre Santo Ambrósio. Caberiam minhas leituras…E o silêncio da mata. Os eucaliptos. ah! Eu estava/era/fui feliz. Gostava dos aventais fechados, como vestidos de verão: blusas brancas, impecáveis. E meias brancas, sapatos pretos. As saias com pregas largas de lã. As passadeiras que da cintura iam para os ombros e finalizavam atrás, permitiam identificar pelas cores a série escolar, o ano que estávamos. Verde, azul, amarelo, branco com risca vermelha, branca (acho que esqueci algumas).

o bule

O BULE

O bule de chá vermelho.

O desejo de consumir me persegue: formato, cor, o bule branco inspirado no Buda. As canecas pequenas: folhas de chá flutuam sobre escultura, reproduções de Buda. Sinto o perfume da erva…

Ontem de tarde sai com a ideia de comprá-lo: examinei, olhei e larguei. Pensei nas xícaras, onde eu beberia o chá depois da infusão? Entrei na loja ao lado… Comprei fronhas, uma vermelha outras brancas. Em casa recostei-me.

Hoje acordei pensando outra vez no bule vermelho. Contabilizei. Não posso comprar pelo simples prazer de olhar… O formato? A cor, ou o desejo de beber chá? Não sei exatamente. Pensei no bule branco com o Buda… Peça exclusiva, tu me disseste, sem te sensibilizar com o meu olhar de cobiça… Olhar aguçado para o interior do objeto. Não apenas cor, formato, utilidade, mas antes de tudo, beleza. A matéria sustenta a forma, como o olhar persegue o belo.

Os bules de chá…

Claustrofóbica, sem acalmar a sensação de peso, aborrecimento que sentia sai outra vez. Não fui buscar o bule, queria ir ao cinema. O filme francês. A sessão já tinha iniciado. Dei meia volta, entrei na livraria. Separei três livros: pensei nas contas, comprei apenas um.

De volta ao quarto. Estiquei as pernas, e comecei a folhear o livro Entre Nós de Philip Roth: conversa de um escritor com seus colegas de trabalho. Iniciei por Mary McCarthy, correspondência. Depois, Conversa em Londres com Edna O’ Brien. Mulheres. Instinto ou magnetismo? Roth inicia descrevendo a rua, o prédio e depois o lugar onde ela vive.

“No escritório há uma escrivaninha, um piano, um sofá, um tapete oriental de um tom cor-de-rosa mais escuro que o papel de parede marmorizado, e pelas janelas à francesa que dão para o jardim vê-se uma quantidade de plátanos suficientes para encher um pequeno bosque”.

Volto a visualizar o bule de chá vermelho. Mentalmente o coloquei sob uma mesa imaginária naquela sala. Na descrição Roth ainda cita a famosa foto de Virgínia Woolf. O volume de obras completas de J.M. Synge aberto no capítulo de The Aran Islandme. Menciona um volume da correspondência de Flaubert aberto numa carta para George Sand. Em seguida cita uma epígrafe escolhida pela autora:

“Antes de mais nada, quero dizer que não perdoo ninguém. Desejo a todos uma vida atroz nos fogos do gélido inferno e nas gerações execráveis que hão de vir”. Malone Morre, livro de Samuel Beckett que li neste verão em Torres… Diz ele que não encontra esta aspereza na sua obra. O’Brien justifica e explica.

“Quando tenho uma explosão, depois me sinto na obrigação de ser conciliadora. Isso tem acontecido ao longo de toda a minha vida. Não sou uma pessoa naturalmente dada ao ódio implacável, como também não sou uma pessoa naturalmente dada ao amor incondicional, e em consequência disso muitas vezes entro em choque comigo mesma e com os outros!”

Logo a seguir.

“Eu reclamo da solidão, mas ela me é tão cara quanto a ideia de me unir a um homem. Já disse muitas vezes que gostaria de dividir a minha vida em períodos alternados de penitência, gandaia e trabalho, mas como você certamente compreende isso não funcionaria muito bem num casamento convencional.”

Senti o prazer da leitura…

De forma direta a escritora irlandesa reforça sentimentos que eu conheço.

Somos todos tão iguais! Ou nos buscamos a cada nova leitura?

Esqueci por um momento o bule de chá vermelho.

Estou no escritório de Edna O’ Brien em Londres, escutando a conversa.

Volto a te escrever amanhã.

Elizabeth M. B. Mattos – 2012 – Porto Alegre

rêveur

” Je n’ ai jamais été un rêveur. Ce qui semble rêve aux autres, plus crédules, me paraissait à moi aussi réel que le fromage au chat, malgré la cloche de verre. Pourtant la cloche existe.

La cloche se cassant, le chat en profite, même si ce sont ses maîtres qui la cassent et s’y coupent les mains.”(p.8) Raymond Radiguet Le diable au corps

brinde

intensidade se paga caro, até mesmo em um mundo frívolo. conversar pode estar em desuso, mas ainda é o principal…o acerto no ar.

aconchego de amigos. ternura do que chamamos/nominamos família = sentido mais amplo de agregar.

ah! escrever pode ser uma conversa silenciosa, e o/a outra voz se entrelaça. O prazer de estar no mundo, um brinde! Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Torres

FT – FHT

quero te perguntar das cores do céu, ou como o vento soprou ontem. quero saber se estás feliz e se a vida te cuida e abraça. quero saber se bebes café vez que outra, ou se comes um pedaço de carne, com certeza apenas legumes e saudades?! não sei. pessoas especiais, únicas, vivem numa esfera  multicolorida, quase transparente e obscura para os seres comuns. nunca saberei das cores, muito menos das nuances, soube do Camilo porque estava na televisão exibindo novo filme, arrasta a verdade, difícil verdade! bem, eu não sei como te encontrar, nem onde estás, ou se estás…

te conto que estou do jeito que sempre fui, velha, transparente, triste, e,  cheia de alegrias súbitas (como teescrever), ou a sorrir, triste. paradoxal? não. minha natureza é assim mesmo, mais a rir: enfeitar e sorrir, e, inventar.

se me escreveres vou acordar. um beijo, um abraço, outro beijo e aquele silêncio bom, próprio dos que se amam…

depois, sabes, vou falar sem parar, sem respirar, como sempre Elizabeth M.B. Mattos – novembro de 2022 – Torres

P.S. seduzido por um sorriso

P.S. olhos

P.S. um prato de arroz macrobiótico

P.S. ou, o inucitado:

uma professorinha perdida.

Cruzes! Que história!

resposta

tem sempre uma coisa errada na coisa certa, uma verdade na mentira, uma luz no escuro, obviedades como estas, repetidas e pensadas do mesmo jeito / formato,

e, as drogas dos sentimentos intensos estão cheios de negações,

e o inverso: negamos, sapateamos, mas seguimos sendo a criança que fomos…

as marés vão e voltam, ora venta ora chove,obviedades…

e as pessoas não saem de dentro delas mesmas, uauuuu!

quando se imagina, pronto, agora vamos trocar ideias, desenvolver uma questão, encontrar a cor certa da parede certa, e rir, vamos rir de nós mesmos… não.

não consigo, eu implico, eu me irrito, não sei apenas ouvir, ouvir, ouvir, eu canso.

preciso me punir, recomeçar. Aquela coisa de Sísifo! Levar a peda até o alto, saber que ela vai rolar, e que terei que voltar a fazer! Viver tem destas coisas! Elizabeth M. B. Mattos – novembro de 2022 – Torres – ser mais leve, mais lúdica! céus! eu tento!