encantamento ou…

Não sei explicar, certas coisas acontecem surpresa, gentileza pura. Pois quero registrar, mas não sei. Surpreendem, ou enfeitam, ou…, pois é difícil de explicar, ou de contar. Como chuvaradas de verão: alagadas e perfumadas. Um dia tu acordas decidida, não vou deixar passar, vou resolver: Ônix vai enfrentar o banho, enfrentar (detesta). Resolvo e levo. Vou comprar sabão em pó, amaciante, detergente, trazer um suco, a bacia, coca-cola (em falta). E compro isso, mais aquilo e muito mais do que preciso, vira entrega…

Ah! Manhã agitada, quente e florida. Chegou a gentileza…, pura gentileza. Não tem idade, não tem jeito, é o gesto. O quebra-cabeça se acomoda, volta o calor! Céus! Reclamo. Nem explico, sinto. Aquece por dentro, enfeita, ilumina… O encanto escorrega. Guardo. Elizabeth M. B. Mattos – março de 2023 – Torres

desorienta / empurrada…

Os pequenos e grandes textos, nos grandes gestos cansados, nas vontades desfeitas. Esta pressão de bobagens, de promessas emparedadas. Desejos desfeitos! Aonde escondi o desejo ardente que eu sentia/tinha por ti… Volta. Não me esquece. Estende a mão, ainda tenho dezoito anos: dança comigo. Elizabeth M. B. Mattos – agosto de 2022 – Torres

verão 2023

Explode a chuva. A rua transborda cheia desta luz aguada. Aguaceiro e sol. O brilho quente. Trópicos do asfalto. lagoa cinza… Flores nos canteiros redondos. E as tarturagas se espicham… Ah! Verão quente quente e quente… Eu espero que voltes, respondas, ou respires perto de mim… As histórias de sempre! Que calor! Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

aos poucos

vou largar o possível, o correto, vou deixar inverter: seguir tempo, sem ordem, uma azeitona de cada vez. Água com gás, silencio com soluço. Caminho lento, desgovernado, solto, livre – nenhuma coerência

os crimes sem sangue são empacotados em lógicas e metódicas respostas. O feito do envenenamento atravessa lento o coro da lagoa. Então, pelas mãos de crianças, ele mostra as tartarugas espichadas, leva para passear de carro a menininha e o gurizinho. Divide as balas e supõe que pode dormir – ou que está acompanhado, alguns infernos são limpos e a boa comida, o bom vinho, engana.

o desejo de agradar apaga vontade prazeirosa… amontoa-se com a vida / experências de equívocos, muitos traiçoeiros. a cada personalidade sua sobrevivência… eu sei o processo. apreendi calada, observando, e aplainando, nunca enfrentando… a pensar sobre estas questões, também ensino silenciosa, sem impor. Espalho no tapete as ideias que precisam ser costuradas

quando reviro as horas / faço do dia a noite, as horas se devoram estranhas… consigo girar girar no sentido inverso do tempo, rejuvesneço. Elizabeth M.B. Mattos março de 2023 – Torres

sair do palco

Sair do palco é a pacificação, sair, não como derrota, ou cansaço, ou sei lá o porquê de precisar sair, sair para festejar. Haja palco, luzes, vibração! Efeitos. Sair para fazer o que é preciso… Hoje, agora. Nem palco, nem platéia, deixa acontecer o espetáculo… A vida, o desafio natural: sobreviver parece uma palavra derrotada, não é… Encontrar a semente, plantar, pode ser? Elizabeth M.B. Mattos – março de 2023 – Torres

Em algum lugar estás, meu amado, estás. Porque ias chegar/ficar, então, estás. O pão, o perfume dos lençóis. Cantei para a alma sossegar, fiz exercícios de estar / ficar e te esperar! Interrompi as leituras obcessivas. Hoje, ansiosa. Deves voltar, voltar para sossegar, tu também! Mas eu te queria pra sempre, aquele todos os dias, dias inteiros, com direito ao tudo, ao todo… Ah! Sou gulosa! O equílibrio és tu.

as palavras mentem

De fato, não há/existe palavra verdadeira, todas estão fantasiadas e espreguiçadas numa dimensão pouco confiável. Mais conversamos / dizemos e explicamos, pior a verdade. Livros, documentos, leis começam a se amontoar num simulacro contínuo, e todos para ensair a verdade, a possível verdadeira verdade: agarrar uma certeza para colocar ordem no caos a que chamo de comunicação.

“De fato os romances mentem – não podem fazer outra coisa -, porém essa é só uma parte da história. A outra é que, mentindo, expressam uma curiosa verdade, que somente pode se expressar escondida, disfarçada do que é. Dito assim parece um galimatias. Mas, na realidade, trata-se de algo muito sensível. Os homens não estão contentes com o seu destino, e quase todos – ricos ou pobres, geniais ou medíocres, célebres ou obscuros – gostariam de ter uma vida diferente da que vivem. Para aplacar – trapaceiramente – esse apetite surgiu a ficção. Ela é escrita e lida para que os seres humanos tenham as vidas que não se resignam a não ter. (Através da ficção eles – os homens – conseguem ter a vida que, em vida, não aceitam não ter – a negação da negação?) No embrião de todo romance ferve um inconformismo, pulsa um desejo insatisfeito. […] Isso significa que o romance é sinônimo de irrealidade? […] Nada disso. Convém pisar com cuidado, pois este caminho – o da verdade e da mentira no mundo da ficção – está semeado de armadilhas, e os oásis convidativos podem ser miragens. […] E nesses acréscimos sutis ou grosseiros à vida, nos quais o romance materializa suas obsessões secretas, reside a originalidade de uma ficção.“(p.16-17) Mario Vargas Llosa A verdade das mentiras

Ufa! Um desabafo. Por que estar sempre a explicar, ou voltar ao fato? O que aconteceu é objetivo. A narrativa se esfacela pelo caminho, as explicações resvalam em percepções e emoções diferentes! Não extamente mentirosas. Diferentes. Um copo de vinho, um dia ensolarado ou a chuva de uma tespestade, pronto, mudou. O ciúme brota onde nos sentimos insatisfeitos, inseguros (inseguros, exatamente, com o quê?)… Acredito naquilo que preciso acreditar com a mesma petulância que posso colocar em dúvida o sentimento de amor, raiva ou sei lá o quê. Os motivos desta ou daquela atitude se não foi pincelado, colorido, visualisado numa tela / num fixo efeito de ponto / de terminou, céus! a dúvida. Qual era/seria extamente o BOM término? A minha vida precisa deste ponto final? Pois é. Acho que não…Elizabeth M.B Mattos – março de 2023 – Torres

Foto de Pedro Moog

a pimenta / aquela ardida pimenta

Os dias se arrastam incorretos, pequenos. Aquela racional e perfeita hora de trabalhar desaparece. E o necessário some como sombra alterada pelo sol, desaparece… A tal das férias permanentes / floridas e vazias se arrastam… Nada é urgente, apenas ser feliz. A tal felicidade aparece tão completamene despida, nua, disponível que não parece a possível… Quero outra. Vou cavocar um pouco de alguma coisa que tenha a pimenta do compromisso. Da urgência. Que se levante como necessária, mais importante do que a minha vontade. Esquisitices de aposentados – dos disponíveis – dos jovens… Pedalar para chegar no ponto. Pedalar importa.

E um dia desaparece, some dentro do outro. O anterior foi espetacularmente movimentado. Deslize da loucura, deste sombrio estado permanente de vento festivo, noites frescas e o diurno calor do verão. Escrever pode ser ofício, vício. Teimosia, imaginação e experiências pessoais. El23izabeth M. B. Mattos – março de 2023 – Para Laura Rangel – admiro seu trabalho e força.

perder aos poucos

” O reencontro com este livro perdido clareia o passado e joga luz no futuro. As coisas mudam, passam. Os sonhos acontecem. Não há mal que dure para sempre. Os mortos vão, mas as palavras que eles deixam, se encharcadas de amor, são indestrutíveis. Por isso é imperativo transformar solidão em palavra. Vida em palavra. É a única forma de viajar no tempo e reencontrar quem nos faz tanta falta. Somos três solidões” (p.34) Socorro Acioli

a grande solidão se trata mesmo do poder –

a ponta que desejamos deste poder –

o ponto essencial –

a força deste poder – consciente ou inconscientemente, carregamos a vontade,

e perseguimos a coragem para chegar ao poder –

em todas as idades, não nos desvíamos nunca.

parece tão inútil! mas não é. uma jornada de uma vida. Elizabeth M.B. Mattos – fevereiro de 2023- Torres

obcecada e apaixonada por tuas memórias esquecidas

Vivi contigo, enlouqueci de amor e alegria. Acreditei no sol, enfrentei a tempestade. Abandonei o mar e a praia, obcecada por tuas histórias, teus olhos, tua magreza. As histórias que escreverias /as tuas histórias/ me faziam flutuar/afundar, amar mais e mais. Simbiose e expectativa: o mundo a nos dar repostas, entregar a paz… Merecíamos. Tínhamos a chave. De repente, no meio da chuveirada, desperdício amaricano de tanta água, atravessada pela literatura, a pensar nos afazeres, nos filhos, no tempo, e no envelhecer = entregar o infinito ao finito, uma dúvida. Terás dito a verdade? Qual foi mesmo o mote, o que de fato aconteceu? Estas memórias esquecidas estavam engaladas pela literatura? Por que escrever? O vício, o poder, a obsessão pode paralisar quando se pretende surpreender e pegar a onda com palavras e textos e poemas. Perguntas. Embora estejas aí do outro lado, embora possas responder e pensar, contar a verdade, não sei perguntar olhando nos teus olhos. Foi verdade? Ou a invenção da omissão não te permitiu dizer, enfrentar tudo outra vez. A versão oficial te engoliu. Por que somos assim aprisionados nas histórias? O que seria de fato enfrentar / dizer / ou derramar… Passados os anos, os castigos, o dilaceramento, sobrevivemos e resgatamos o sonho de liberdade… Nunca é hora de morrer, hoje continua, continuará… Elizabeth M. B. Mattos – fevereiro de 2023 – Torres

P.S. Claro, escreveste sobre a verdade / eu sei – estou a questionar as verdades (são tantas / tantos focos!) que nos perseguem, amarram e devoram… e nos fazem mentir. Duvidar da memória seletiva que pode nos afogar.

Petrópolis / RJ – Luiza Pedro e eu – 1990 ou 1991 (não lembro bem)