por quem eu me apaixono

“,…por quem eu me apaixono“, tu perguntas? Pelos homens inquietos. Pelos reflexos, pelos desvios. Pela doçura de um filho. O som de um piano, de uma voz. Eu me apaixono pelo sonho das filhas. Também pelos sorrisos, e por todos os olhos azuis que se arregalam. Eu me apaixono pela dificuldade do caminho, depois pelo gosto dos morangos. Eu me apaixono pela saudade, também pelo desejo de sonhar o sonho, o gozo. Toda e qualquer imaginação, eu me apaixono. Choramingo as perdas, danadas e tristes. Todos os abandonos, voluntários, involuntários. Eu me apaixono…Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021- Torres

damasco com ameixa

“tornar-me parceiro para contribuir “vou abrir o céu das janelas, apagar a luz, quero tocar /desejar e sentir “viver esta fantasia” e assim, dobrar o prazer de ser tu menino e de ser eu, tua menina – juntos, acreditar

Assombra, e me espanta. Hipnotiza e seduz. Surpreende! Este querer facetado… Escondido, escancarado, outras vezes, aflito…

Desajeitada amizade a sacolejar… Sacolejar festiva. Alegria de seres tu, e de ser eu.

(sem pensar no como, nem no porquê)

Respiras no teu campo de anêmonas o meu jardim de jasmins e margaridas.

Na tua boca o sabor de chocolate, e na minha o damasco com ameixas…

Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – o vento sossegou, brotou sol, e o frio se aquietou

vantagens

“Há vantagens nos desejos, e vantagem na satisfação dos desejos – porque eles se tornam maiores.” Roger Martin du Gard cita, p.212 André Gide – Os Thibault – A Primavera

eu te amo

quando eu digo eu te amo tem o recheio inteiro / completo da confidencia, do cuidado, do urgente e do sem tempo que se encaixa em dois minutos da tua vida apressada, dois minutos roubados. Quando me dizes te cuida eu me completo e sinto / e sei do claro e lógico querer, prazer alegre do gozo… Eu me faço forte, livre e solta, sem amarras. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 no meio da ventania que grita

por que

Por que não escuto melhor o tempo de fazer coisas… Por que não organizo as horas de te amar e deixo invertida a vida… Sem rumo, no rumo certo, ansiosa e calma/tranquila a te esperar, sou eu.

Nada é melhor do que o hoje feliz; nada é mais alegre do que a tua voz-palavra que me abraça…

E a vida se completa, e a vida se desdobra livre e forte. Nada é mais perfeito do que esta distância medida e calma de te amar. Elizabeth M.B. Mattos – maio ventoso de 2021 – Torres

abrir a porta

22 de maio de 2021 sábado – Depois de boa chuva, dia bonito. Cinza o céu, mas brilhante. O frio saiu devagar. Dormi bastante. Um pouco aqui no quarto grande, outro pouco na cama do quarto pequeno, aperto. Angústia diminuí. O medo me espreita. Conflito entre ser e não ser eu mesma: esquisito o que eu sinto. Deves estar atento a tua rotina, também a fazer isso e aquilo. Fico a imaginar tua vida. Os cães, o verde, a granja, o gramado, as mãos. Exóticos voadores, e tu, claro, tua vida… Por que gostaria de sempre te encontrar aqui: eu me sentiria / eu me sinto a salvo em casa. Transgredir dói /surpreende. Qual o sentido, como explicar. Exasperas. Quieta, eu te espreito. Lembro do carro estacionado. Do noivado desfeito. Da professora. Dos estudos escabelados. Dos voos milionários, de ousar…, e depois, inúmeras recuadas. Dos não vou, não posso, não… Por que a casa protege, nem sei exatamente o quanto. O quintal, os espinhos das buganvílias. E o certo é medo. O neutro? Lugar neutro. Precisamos ir tão longe para beber outro café? Eu te convido para almoçar. Jogo uma toalha e peço uma comida do bom restaurante. Os vinhos já temos. Podemos logo sentar com cerimônia, mesa posta. Compro flores. Prometo não ficar/ser ansiosa. Falar pouco, e escutar. Ligo o rádio / ou Mozart, talvez violinos. E se quiseres ir ficando ficar… A caverna não tem portas para fechar, não posso te prender. Deixo a bagunça como ela é, coloco os óculos para te ver melhor, minha roupa de inverno, fico com as meias de lã, e te conto histórias, ou leio em francês. Gide e seu magnífico “Les Nourritures Terrestre” : […] embrasse la vie comme qualquer chose qu’il a faille perdre (abraça a vida como se fosse qualquer coisa que fosse escapar/ perder naquele momento mesmo)/ Agir sans ‘juger’ si l’action est bonne ou mauvaise. (Agir/fazer sem julgar se esta ação é boa ou ruim) Aimer sans s’inquiéter si c’est le bien ou le mal. (Amar sem se inquietar / angustiar por ser o bem ou o mal) Nathaniël, je t’enseignerai la ferveur. (eu te ensinarei o fervor/ o entusiasmo / ímpeto ou a impetuosidade) Mes émotions se sont ouvertes comme une religion. (Minhas emoções se abriram / estão abertas como uma religião que inunda toda a alma) Peux-tu comprendre cela: ( Tu podes compreender isso:) toute sensation est d’une ‘présence’ infinie. (sensação, a sensação como uma presença infinita)/ Nathaniël je t’ enseignerai la ferveur. Nos actes s’attachent à nous comme sa lueur au phosphore. ( os nossos atos / o fazer se ‘agarra’/ se prende a nós como a luz fluorecente/ eles estão ali todo o tempo) Il nous consument, il est vraie, ( eles nos consomem, apertam, agitam, é verdade) mais ils nous font notre splendeur. (mas eles são o nosso esplendor) / On n’ est sûr de ne jamais faire que ce que l’on est incapable de faire. (difícil traduzir: não temos certeza de que somos incapazes de fazer,) ASSUMER LE PLUS POSSIBLE D’HUMANITÉ, voilà la bonne formule.“( ASSUMIR, (presumir) sempre que possível, humanidade (o jeito humano de ser). Estou divagando e apostando no teu francês, tirando o meu do bolso. Quero ter dez anos mais do que tu, ou quinze e ter certeza que podes chegar, não importa a hora, e entrar sem bater. Faço um café, sou menos inglesa, ou um chá, ou bebemos uma taça de vinho, ou água com limão. Vens / chegas para fazer uma visita porque eu gosto de ti e porque tu gostas de mim: aprendemos a rir juntos. Rir de nós mesmos. Ou apenas ficar perto, por ficar…Um beijo Elizabeth M.B. Mattos

brincadeira

…, não sei se nós brincamos com a fantasia, ou se a fantasia brinca conosco. Leio o que escreves, escuto o que me dizes. Posso te tocar ou não: imaginar. Estares perto ou longe…

Nada fica cinzento nem frio, nem triste, nem incômodo, nem mais ou menos. Por dentro, por fora: estou inteira, completa e feliz e tão absurdamente tua / contigo, feliz. Homem versus menina ou Mulher versus menino. Que importa?!! Ou apenas nós dois do jeito que somos / estamos entre o nublado e a cozinha, entre passar as roupas e as panelas. Dançando ou sem dançar, cochilando, ou correndo… Ouvindo rádio, ou no silêncio. Te cuida. Cuida muito. Beijo, um beijo, ou dois, ou ainda saudade picada, ou tesão / vontade de estar / escrever e ficar enrolada nesta grande confusão de te amar ou te perder. Dizer tudo e nada. Elizabeth M.B.Mattos – maio de 2021 – Torres