inexplicável

“O tempo corre em velocidades diferentes para pessoas diferentes.”

A noite invertida se esconde. Inexplicável hábito: não estar no lugar certo/ no hoje. Fugir do tempo num tipo certo de jogo… Tabuleiro de xadrez, mas não sei jogar! Desnecessário! Desnecessário. Os culpados (se é que existem) de sermos do jeito que somos, nós mesmos. Perdidos a andar/caminhar/ procurar no escuro, tateando. Acomodados (ou desacomodados) com estranhamento. Também com irreverentes fantasmas. Neurose do fácil e certo conhecido. Ser quem sou neste personagem inventado não resolve desajuste, não funciona. Nunca serão resolvidos complicados sentimentos. Pelo/através do mais confortável… Inexplicável apaixonar – se. Estou apaixonada. E neste estado desafiador do encantamento, estremeço. Encantamento estarrecedor das palavras, às cegas. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres

“Viajar ao passado é difícil, mas viajar para o futuro é muito fácil. Faça o que fizer você está viajando para o futuro. O amanhã é o futuro hoje.” Carlo Rovelli

intimidade imaginária

Lugares e situações. Fugas. Penso que ser difícil sair do canto e caminhar, caminhar. Surgir, aparecer, voltar. O canto parece ser o lugar dos lugares, o perfeito. Para sair é preciso enfrentar quem somos, e o esforço para redesenhar reinventar um EU pode ser batalha dura. Que o desejo de amar empurre a vontade! Num prazo de afeto, carinho e paciência explodirá uma nova pessoa. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

“Mas não apagamos tão facilmente as situações de lugar. Acreditamos que em toda a retirada da alma existem figuras de refúgio. O mais sórdido dos refúgios, o canto. Recolher – se no seu canto é, sem dúvida, uma expressão pobre. […] quanto mais simples é a imagem, maiores são os sonhos. […]assegura o primeiro valor de ser: imobilidade. Ele é a certeza loca, o local próximo da minha imobilidade. O canto é uma espécie de meia-caixa, metade parede, metade porta. […] A consciência do ser em paz no seu canto propaga, ousamos dizer, uma imobilidade. A imobilidade irradia – se. Um aposento imaginário se constrói em torno de nosso corpo que se acredita bem escondido quando nos refugiamos num canto. As sombras logo são paredes, um móvel é uma barreira, uma tapeçaria é um teto. Mas todas essas imagens imaginam demais. É necessário delinear o espaço da imobilidade fazendo dele o espaço do ser. Um poeta escreve este pequeno verso: Sou o espaço onde estou (Noël Arnaud)” p.109) Gaston Bachelar A poética do Espaço

Fotos desenham, elas também, o esforço de ir adiante, vencer o obstáculo. Sair do canto para saber a vida. Chegar…

o passado de hoje

Criar / recriar/ desenhar o passado, voltar no tempo, tem qquer coisa de terapêutico, e dolorido. Alguma coisa a consertar, ajustar. E nem sempre a resposta, ou a ordem prevalece, ainda o vazio. Depois eu me pergunto, existe mesmo este passado do jeito que revisitamos? Somos assim mesmo, desconfiados… qdo eu “volto” tenho a impressão que nunca captei a viagem/passagem, esta coisa de um dia depois do outro.

Acordava cedo para assistir a missa, um ritual meu. Não éramos obrigadas. Os anos de internato definiram a vida: um mundo organizado, bonito, ritualístico e seguro. Algumas internas choravam saudosas de casa, e nunca se ajustaram. Eu não senti saudade de casa. Ou (pensando bem) senti sempre e tão intensamente que esta saudade ativada desde sempre me deixou no passado, e não existia nenhum outro para voltar. Um passado que não vivi, nem conheci, mas desejei… Escrever sobre a rua Vitor Hugo. Colégios e calçadas, aventura continuada… Minha grande viagem pelo exterior foram estes 4 anos no Internato. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres

alguma coisa fora do lugar

Cabelos escorridos. Lavanda espalhada pelas camas. Uma ordem bem a gosto da desordem habitual. No espelho aquele olhar aflito, inquietude. Tempo virado, eles dois perdidos, ou seriam eles três? Foi no final daquele ano, definiram a resiliência, não se embalariam em/por conversas acidentais. E agora esta desordem no remexido idílio. As leituras não aplacam, nem o gosto de outono invernoso. O cinzento tão do meu agrado! As decisões rompidas. E já faz tanto tempo que o dia se fechava produtivo, altivo. O jardim remexido por inventivas colorações vingava. Céus! Como acertar a pontuação, aquietar os ânimos e alcançar o que eu chamaria de produtivo, estamos perdidos nestes beijos demorados, molhados e ininterruptos. Os olhos parecem arder. As roupas me apertam. Emagrecer. As pernas doem, mais exercícios. As mãos precisam de cremes poderosos, os pés apertados no sapato desconfortável. Onde se esconde o meu senso de responsabilidade, ordem e precisão?

Desceu do pavilhão dos quartos arrastando os passos. Os ônibus das externas e semi-internas não estavam no pátio. As Madres se movimentavam ventilando as salas. Hoje a professora de francês daria suas sonolentas e cansadas aulas. Será que eu trouxe o livro de Gide com aquela carinhosa dedicatória da Lúcia! E a encadernação tão bonita! Detalhes do afeto. Acho que estes toques de mágica afinidade me fazem falta. O caderno azul do diário. A lua esteve tão bonita ontem a noite! Demorei para conciliar o sono. Tenho uma pesada preguiça, estou com olheiras. E os lápis de cor para a aula de desenho!? Sem vontade de conversar atraso um pouco o passo. O burburinho das vozes já subia devagar, estavam todas elas com seus aventais impecáveis, o meu tem sempre uma mancha de tinta no bolso.

Lembranças misturadas, afetos comprimidos no espaço de lembrar: sentido amor, vontade de respirar. Foi assim que aquela menina entrou na sala, curiosa, linda e gentil sem gostar de ser gentil. Rebelde. Experiência carinhosa, o sempre. Extraordinário viver. Aquelas trocas engraçadas de escola, do Grupo Escolar ao Colégio Santa Inês na Avenida Protásio Alves; poderia ter sido para sempre, importantes colegas, como a Maria do Carmo com quem a dividia merenda, a dela sempre era a mais gostosa. Vestígios de cuidado e carinho. Num lapso, lá me fui para o Nossa Senhora das Graças choramingando o internato que não recebia meninas de Porto Alegre. Eu consegui e foi conquistar independência organizada. Não é esquisito isso! Queria tanto!

Elizabeth M. B. Mattos – maio de 2021 – Torres

alegria de amanhã

“Maldito sejas tu, se dizes que és infeliz porque desejavas uma felicidade diferente da que tens… O sonho de amanhã é uma alegria – mas a alegria de amanhã será outra – e nada felizmente se parece ao sonho que se teve, porque cada coisa tem o seu valor diferente.“(p.216) Roger Martin du Gard cita André Gide (Frutos da Terra) no livro Os Thibault.

O que completa a citação da página 212 do mesmo livro, Os Thibault, ainda Gide: “Ousadamente lancei mão de cada coisa e me criei direitos sobre cada objeto de meus desejos…“(p.2012)

Então, eu me encolho um pouco, feliz e tomo toda aquela alegria de ser desejada num gole apenas, mesmo que a fantasia e o tempo nos afaste, eu me autorizo a ser feliz no meu pequeno/voluntarioso desejo. Beth Mattos – maio de 2021 – Torres https://amorasazuis.com/2021/05/23/vantagens/

Ler e escrever ou se apaixonar ou trançar amizade e confiança, tesão, encontro desencontrado, caminha/vai/se atira na releitura dos livros lidos e amados, também no tempo… É confiança intimidade e segredo. Um passo, um passo no nosso pequeno caminho. Beth Mattos

Ana Maria M. B. Vianna Moog – maio de 2021 – Praia da Cal – Torres

Daphne du Maurier

Tantas vezes falei / contei / escutei e supliquei…, depois de gastar o que tenho, depois de mendigar, vou atrás da palavra / dos dizeres já dito, explicar.

“Falta-lhe confiança; a não ser que lhe incutas. No caso dele tu é que tens a responsabilidade, querida. Que foi que disseste?…Oh! Só o tempo mostrará. Para nós não foi assim? pois então! Onde estarias tu sem mim, e eu sem ti, querida? Claro que há que ter tenacidade. Foi o caso de muitos, foi o teu, foi o meu…Só há duas coisas que importam no mundo inteiro; tu me ensinaste isso. Talvez nos tenhamos ensinado, mutuamente… Quando tudo mais falha, resta o trabalho. Pelo menos isso incutiremos nos três…(p.82)

E depois, meu querido, somos os anos que passaram, voamos como o PATO JUCA. Chega manso o que Du Maurier escreve:

“Fechou os olhos e estendeu os braços; e foi como se uma grande onda de calor subisse do chão e a tocasse; havia um cheiro de terra e de musgo; sentiu o aroma dos gerânios do jardim, atrás dela. / Teve uma sensação de felicidade. Uma sensação que veio de repente e que a envolveu, sem nenhuma razão. Vinha da boca do estômago, subia – lhe até à garganta, quase a sufocando; e não sabia nunca por que era que lhe vinha tal sensação, que era que a ocasionava, por que motivo acabava logo tão depressa quanto nascera, deixando – a ofegante, curiosa, feliz ainda, mas não mais em êxtase.” (p.83) Daphne Du Maurier Os Parasitas

Juca Pato nunca teve uma existência de carne e osso. Foi um personagem criado pelo jornalista e caricaturista Belmonte -nascido a 15 de maio de 1896 com o nome de Benedito Bastos Barreto, na Liberdade, bairro de São Paulo.

Pato Juca

JUCA PATO

“Soube que no passado houve um pato chamado Juca. Morava numa lagoa linda. Um caraterística especial: voava para trás. Único e inigualável. Lembrei de te apresentar a ele […] Outra razão, não menos importante, linkada no nosso pato aí atrás, é sugerir que, sem desafiar o relógio que vai sempre andar para a frente e será frustrante, empreendas voos para trás em todos os horizontes: do físico, do emocional, dos tabus… as pedras dos mandamentos, símbolo da humanidade cristã, foram quebradas e restauradas a novos costumes. Segue  o Pato Juca. Voa para trás como uma fonte de sabedoria e experiência. Brilha. Despe vestes pesadas e aprisionadoras. Curte a plenitude que quem por ser UNICO sabe voar para trás.

Sou apaixonado pelo Pato Juca desde os 6 anos de idade. Acho que fazem 66 anos. Me esqueci de te dizer que ele sofre ameaças, dos que também moram na mesma lagoa. Os jacarés Alcides e Héracles. Ambos querem jantar nosso Pato Juca. Eles são conhecidos pelo codinome TEMPO.

Pato Juca segue lépido, ÚNICO e jovem. Já os jacarés… estes lagarteiam ao sol e se tornaram vegetarianos… o ÚNICO nocauteou o TEMPO.” JMCLKYZ (maio de 2021)

Preciso das tuas histórias. Preciso do teu tempo. Preciso desta alegria. Das tuas caminhadas. Das tuas idas e vindas. Do desaparecer, e depois chegar num repente. Deste tudo que me dás, desta alegria de viver. Das tuas cartas, deste teu jeito. Dos teus castanhos ‘olhos azuis’. Beth Mattos maio de 2021 – Torres – na beira da Lagoa do Violão

O nome dado originalmente a Héracles foi “Alcides“, em homenagem a seu avô Alceu, pai de Anfitrião. O nome alternativo de Héracles (que quer dizer “À Glória de Hera”) foi uma tentativa sem sucesso de apaziguar o ódio de Hera, louca de ciúmes pelas infidelidades do marido.

Minha madrinha Vera na casa da rua Vitor Hugo – Petrópolis – Porto Alegre –

Lagoa do Violão – Pato Juca

não tens olhos azuis

Quereria se pudesse querer, quereria te amar de amar. Quereria te ver… Inventei vento, chamei palavra: apreendi a me despir, vestir. Pintar a boca, desenhar os olhos, puxar o cabelo. Dancei. Troquei flores de lugar…Desarrumei a cama, inclinei o corpo. Consertei o tempo, fiz preguiça, aprendi amornar o leite, fazer o chá. Abracei o cheiro do teu corpo. Entendi o disfarçado e guloso olhar… Apago vírgulas, retiro reticências, abro parênteses, deixo exclamações. Não tens os olhos azuis. Nem encabulado jeito de tocar… Recuo. Já sei, não vou / não posso nascer outra vez / pensar outra vez. Começar recomeçar. Riscar, apagar… Com certeza também tu inventaste / imaginaste a leveza de ser e não ser: o limbo. Somos a brincadeira de gostar / de querer desejo… Teus olhos não são olhos azuis. Eu não tenho olhos azuis… Não sou eu, nem és tu. Não somos.

Saudade sinto de ti, meu querido! Aquele aperto com lágrima de chorar, despejo na floreira. Toco piano, pincelo verde, esparramo vermelho, o azul, não tenho. Fecho o sol. As escalas se repetem organizadas. Escrevo histórias perfumadas de tristeza. Apenas hoje, eu prometo. Amanhã volto pra mim… SAUDADE daquela esquisita dependência de só te querer.

“Só os míopes conhecem o contraste prodigioso que existe entre a visão confusa e a visão nítida”

Tu e eu, nós dois na embriaguez… lentes invertidas, perdidos anos. Vontade louca de… Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

amontoado de escombros / resíduos

Sou lenta, tu sabes. Certos termos, explicações flutuam, voltam, e me cercam… Persigo. Talvez tenhas razão quanto a minha distância do mundano, e do frívolo. (ainda estou a pensar) Procuro olhar com insistência. Quero devagar. Abro mão do que não seja essencial, mas me perco nas palavras. Cometo equívocos. No bonito dos desenhos coloridos da tua voz, no jeito amistoso, generoso do teu carinho sensual eu… Esta coisa da beleza atrapalha, e o tempo e o pensar se esgota numa tarde, ou acorda no prazer/gozo/tesão, mobilidade, fantasia do querer, ou desaparece porque é raso. Elizabeth M.B. Mattos – maio de 2021 – Torres

“Na verdade, porém, a futilidade é uma coisa lúgubre. Não sei se você já viu estas chagas medonhas que roem o nariz, que abrem um buraco no rosto. Vistas sem levar em conta o rosto, o nariz, a boca, a expressão humana, enfim, essas chagas têm um luxo de cores a que não recusaríamos uma certa beleza exótica. Postas no homem são um horror. Pois assim é a frivolidade. / O que existe na frivolidade é mais doença do que saúde; mais fixação do que mobilidade; mais morte do que vida. Eu disse fixação. Explico – me melhor: todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê – los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras de meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilapidação da vida. / O frívolo, ao contrário, é aquele em que o resíduo das experiências encaroçou. Tem pontos sensíveis, botões, teclas de comando, e são movidos de fora para dentro, como os mecanismos. Aperta -se um botão e ele diz ‘bom dia’ encarquilhando os músculos da face. Aperta -se outro botão e ele faz um discurso, se é ministro, ou atira os cabelos para trás, se é moça de vinte e cinco anos.”(p.127)

[…] “Agora eu vejo que é com amor que a gente conhece as coisas, separando – as, distinguindo – as, mas trazendo – as todas unidas e banhadas na mesma atmosfera. E se não existe o amor? Então o universo inteiro se torna um heteróclito amontoado de escombros.”(p.131)

E agora, Miguel, eu te pergunto, onde, como, e por que tiveram os homens pela primeira vez a ideia de ver aquele fluido azulado um símbolo de felicidade eterna. Sinto hoje, pensando no céu dos santos, a mesma vertigem. Antiga. A felicidade precisa de um chão. A felicidade precisa de uma ancoragem nas coisas. Queria um céu com esta mesa, aquela cadeira, o retrato de mamãe. O céu com Eunice. Com o vestido novo de Eunice. / Como fazer agora, se é o próprio chão, e as coisas que nele se firmam, que me dão vertigens, e uma desesperada sensação de vazio? O mundo inteiro está em crise. Tudo é nuvem, e passa, e se transforma. A única coisa que me parece sólida e palpável é a dor que carrego dentro de mim. / Miguel, eu tenho coragem de dizer: se esse céu dos santos existisse, eu não o quereria! Eu seria profundamente infeliz, infeliz ao quadrado, infeliz como um danado, neste transparente lugar onde não coubesse a paixão da minha dor. / e foi isso que fez de mim a futilidade, que dona Alice acha pouca coisa. Foi isso que Eunice conseguiu fazer. Matou em mim o próprio desejo de felicidade. Não sei se exite céu; mas inferno existe. E eu já estou no inferno.” (p.133-134) Gustavo Corção Lições de Abismo

Significado de Mundano

adj.
1. Diz-se de quem não possui virtudes;
2. Diz-se da pessoa que se entrega ou tem tendência para se entregar aos deleites e regalos do mundo;
3. Respeitante a mundo (numa perspetiva material e efêmera); que é terrestre ou profano;
4. Referente à vida que se opõe à espiritualidade, dando maior relevância aos prazeres e recompensas materiais;

Significado de Fútil

adj.m. e adj.f.
1.
Característica de quem ou do que é irrelevante; particularidade de quem é insignificante; que dá relevância a coisas sem importância ou vãs;
2. Diz-se do que ou de quem possui uma aparência que provoca desconfiança; que possui características ardilosas, que é enganador;
3. Que é desprovido de âmago ou de princípios; de caráter infantil ou tolo; que é superficial ou frívolo. Google