




O diário de família. O hábito de se fazer na escritura. Qual seria o motivo da rotina? Escrever para que ele também lesse? Na separação confiscaram o caderno, colocaram no cofre, e nunca mais lhe devolveram. Escrever era o jeito de lhe dizer … dela, dele, dos filhos. Dos sentimentos. O irmão advogado selou o desaparecimento do diário, das possibilidades…
Retomo o tempo, desconheço o verdadeiro, confundo imaginação, calúnia, e raiva.
A questão de resolver o que deve permitir que apareça no diário e o que deve ser para sempre escondido está no coração da escrita. Escrevemos para o leitor. No virtual o diário se esparrama… A verdade será a felicidade, a infelicidade, ou a média de sentimentos aflorados. Esta relação amorosa que atravessa dúvida, incerteza, coragem, e covardia está na escrita. Exposição. No entanto, escrever interfere na intimidade … Pintar interfere, a generosidade e verdade interferem. Corrupção, mentira, interferem.
Será que tem de ser tudo tão cruel? Deve haver uma forma de sentimentos e talentos coabitarem. Que os seres continuem imersos em suas respectivas explorações interiores… e se respeitem nas diferenças.
Fragmentos de excelente livro, indicado aos amigos Bento Roberto, Eduardo Costa, Caio Ribeiro, Lalo, Doca, Jan, Walter, Alcides quem sabe Jorge? Flávio Tavares, Dr Raul. Quem se interessa por pérolas, e pelo Rio Grande do Sul?
Memórias do Coronel Falcão de Aureliano de Figueiredo Pinto
“Se em cada correligionário há um dissidente futuro: é a inveja. Se em cada adversário há um detrator ou um adesista: é a ambição. Conosco não tem disso: nós nos instalamos no equador da virtude. Somos a pauta, e o paradigma.” (p.74)
“Sobre quase 30 anos de estagnação e charco, de considerar a coisa pública como propriedade particular, o sindicato municipal mamando o orçamento magrinho, teve um arrepio de surpresa. Era lá possível vir outra gente para a direção e posse dos cargos? Que esperança! Aquilo era deles. Por direito divino. […] Ninguém saberia governar uma comuna, senão eles. Ninguém tinha o direito de meter a colher ali. Assim o exigia o partido. Assim o determinava a verdadeira natureza das coisas. Um absurdo. Uma loucura desses idiotas. O Presidente do estado fora iludido. Ora, querer governar município …Quem? […] (p.76)
Entretanto, de cada querência saiu gente relinchando entusiasmos. […] Não era o programa. Não era bem a novidade o que sacudia o ânimo popular. Era uma aura de rebelião contra tudo o que estava há tanto tempo. Mudar a monotonia do estabelecido. Rajada de vento novo varrendo o tédio das instituições. Desmoralizando de vez, a manha canhestra e conhecida das raposas políticas. Dos conspícuos sujeitos que uivam pelas tradições gloriosas. Pela evocação dos ancestrais. Da gleba – heroica. – E vão palmeando, de manso, enquanto a turba lhe segue o braço eloquente para o céu da pátria, vão palmeando de manso, no orçamento ou na trampolinagem, o preço encoberto de safadezas […]. (p.77)
“Sou constante, sim, com orgulho, no caminho das minhas indefinições. […]”
“Minha indefinição me faz aceitar cada pessoa como é e leva os demais a me atribuírem uma qualidade que não é minha, é dela (indefinição). Quem me chamar de bom confundira a capacidade de aceitação plena de pessoas e coisas, com bondade. Bondade é uma ação na direção do outro. Os definidos (quando bons) o são muito mais do que eu. Mas a mansidão de minha compreensão, meu medo de ter verdades, minha expectativa ante o enigma, é compreendido com bondade apenas porque nada impõe, pede, cobra ou exige dos outros. Às vezes sou lúcido demais para ser bom. A indefinição me faz partícula de algum cristal, ou mistério alquímico feito para refletir a natureza inteira, filtrando todas as suas cores e irradiações. A minha indefinição é a minha humildade ante o cosmos. A certeza de que não o posso limitar nas fronteiras do meu pobre entendimento. […] A realidade é sempre mais ampla. Ao aprisioná-la (sempre por momentos), não retemos. Sabê-la é transformá-la. Verbalizá-la é privá-la de plenitude. A palavra não esgota a realidade. E até para pensar eu só tenho palavras. Palavras cruzadas. Jogo de palavras. (…)” Artur da Távora
Fotos – Parque Laje – Rio de Janeiro – Pedro Moog
Não suporto a rotina arrastada do ócio, nem o vagar dos que se querem importantes, sérios, e assim ocupados, imóveis. Não lavar a louça, a roupa, os vidros. Varrer o chão, e cozinhar a própria comida. Não podem. Passear os cães, beijar crianças. Não podem. Gostam de se amontoar sérios nos cafés das esquinas.
Prefiro molhar as plantas, varrer calçadas, escutar este silêncio do mar, da montanha, das avenidas. Sol, crepúsculo, pedra quente. E frio gelado. Aqui neste mundo sem urgências, nem passado, nem futuro, o minuto.
Cortem meus pés, fico imóvel… Amarem as mãos, enxergo. Arranquem os olhos. Adormeço
Pesadelo, sonho. Fuga. Procura de refúgio no vazio, no descompromisso. O não pertencer a nenhum grupo. Um vácuo. Sem vaidade. O anonimato temerário. Sem caminho, perigosamente solitário. Sem apoio. Uma inteireza. Sem continuidade, plenitude. A consciência do grupo. Falta de ar, submeter-se…Submissão, angustia do pertencente. Lado certo, o justo? Ou equívoco. Falta de ar. Sufocar, e seguir o mesmo caminho. O diário. A rotina. Uma sina sem escolha. Seguir o rebanho. Programar. Estabilizar exige tanto!
Sem, sem, cem vezes o eu, nenhuma vez nós. O grupo corrói o sentimento de inteireza, subverte a vontade. Exige. Alerta. Os animais ultrapassam a barreira. Diferenças evidentes, outro bando. Dependência sem competição.
Estranho sono. Fantasmas, cheiros, vultos. E a morte ao final. Envelhecer tem este componente de alerta. O inimigo está na outra calçada. Libertação? Recomeço? Todos os pecados se amontoam na consciência, pesam. Trava. E tudo inicia na posse. No meio do copo com água, o vinho, depois a sede. Estranhezas…
“O público, hoje em dia, já não perdoa o autor, depois de pintar a ação, não se manifeste a favor ou contra; mas ainda, em pleno desenrolar do drama, quer que ele tome partido, que se pronuncie francamente por Alceste ou por Filinto, por Hamlet ou por Ofélia, por Fausto ou por Margarida, por Adão ou por Jeová. Não quero afirmar, é claro, que a neutralidade (ia dizer: `indecisão`) seja a marca de um grande espírito; mas creio que a muitos dos grandes espíritos repugnou bastante…concluir – e que o fato de expor bem um problema não pressupõe que ele já esteja resolvido.”
André Gide – o Imoralista
Timorato menino, nascido no interior do Rio Grande do Sul, região alemã, tudesco. Gentil, magro, inquieto. Dos estudos um caminho acompanhado de perto por mãe contumaz. Para o filho sonha e trabalha duro: menino de interior, o homem da capital. O pai, carrancudo, amargo, não se envolve com o sonho da mulher. Observa na distância, olhos lavados de azul. Casa modesta e limpa. Engalanada nas festas de aniversário. Nestas ocasiões, o requinte de carnes, gastos extras. Vida de parcimônias. A economia de detalhes os transforma, a todos, em pessoas acomodadas, austeras. Preocupação, o menino Francisco. Corpo franzino, testa larga, e vontade de mudar com o mundo. Joelhos vermelhos nos calças curtas, camisa aberta, e braços suados. Já no quintal administra a comunidade cooperativa: distribuir frutas aos amigos. Distribuir jornais. Coletar papel, latas, e vender pastéis. Ríspido, seco. Resposta, arde como pimenta quente. Opina. Já o olhar, ah! o olhar é derramado nas meninas. Gosta de descrevê-las em poemas: tranças, bochechas rosadas, saias penduradas em pernas roliças. Matreiro. Escola fácil. O perigo, o curioso está na capital.
O perigo é respirar, pensar. Somos todos meninos do interior, perigosamente vivos.
Frutíferas da lagoa: pitangueiras amoreiras ameixeiras e todas as que não conheço estão a espreguiçar folhas verdes. Amoras ruborizadas apontam. E as azuis acordam … Hoje aquele cheiro de mar dando voltas na Lagoa do Violão! O entardecer veste a lua… Doçuras de Torres. Respirar! Elizabeth M.B. Mattos – 2014 em Torres
Hoje agora quero de volta esta sensação …, por que não posso voltar?
O que eu digo penso, importa.
Afirmo explico sinto pondero, e me faço ouvir…
Esqueço do temporal das trovoadas, e dos raios.
Aquela escuridão!
É o outro … O outro que não consigo escutar. Não ouço.
África. Não Torres, não a lagoa, nem a serra. África!