A história do outro

Contar histórias é tão igual, tão igual! Elas saem de um canto escuro. O buraco da alma, o escondido, o maturado lá dentro da pessoa. E chega ao outro, invade. A palavra se retorce quer aparecer em linhas, em texto, em importância. No caso de Francisco, esta importância esbarra na vaidade prepotente da inteligência. Também, na beleza. Beleza ofusca. Impede julgamento.

Meninos que saem de pequenas cidades não querem voltar. Por nada querem voltar, por pouco se deixam ficar por conta do novo poder, do risco.

E o lugar que se ocupa no espaço desta memória fica todo tomado de sonhos, de laranjas, morangos, pedras, tijolos, barro, sarjeta, asfalto, sangue, revólveres, raiva, inveja e sonhos.

“Dizemos: afinal, somos aquilo que pensamos, amamos e realizamos. E eu acrescentaria: somos aquilo que lembramos. Além dos afetos que alimentamos, a nossa riqueza são os pensamentos que pensamos, as ações que cumprimos, as lembranças que conservamos e não deixamos apagar e das quais somos o único guardião. Que nos seja permitido viver enquanto as lembranças não nos abandonarem e enquanto, de nossa parte, pudermos nos entregar a elas.”

BOBBIO, Norberto. O tempo da memória, Rio de Janeiro. Campus, 1997. (p.30)

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O imaginado volta

Timorato menino, nascido no interior do Rio Grande do Sul, região alemã, tudesco. Gentil, magro, inquieto. Dos estudos, um caminho acompanhado de perto por mãe obstinada. Síria, a mãe, não é alta e tem cabelos claros, crespos. Para o filho, sonha e trabalha duro: menino de interior, o homem da capital. O pai, carrancudo, amargo, não se envolve. Observa com distância de olhos lavados de azul. Casa modesta e limpa. Engalanada nas festas de aniversário, e fim de ano. Naquelas ocasiões permitia-se requinte de carnes, comidas especiais, gastos extras. Na verdade, a vida cheia de parcimônias, a economia dos detalhes transforma-os em pessoas acomodadas e austeras.

Preocupação, o menino Francisco. Corpo franzino, testa larga. Joelhos vermelhos nas calças curtas, camisa aberta. Braços suados. Já no quintal administra a comunidade cooperativa. Distribuir frutas, juntar jornais. Coletar papel, latas. Vender pastéis. Levantar fundos, e sonhar.  Escreve no jornal da escola. Na parede lateral da entrada, à direita, um quadro com gravuras e discursos. Faz versos sem métrica: a voz dos desvalidos. Liberdade, justiça! Conhece conceitos proferidos pelo irmão mais velho, que já se mistura no jurídico da vida. Escuta a voz prática da mãe que o quer longe do quintal. Francisco exige um pouco mais de arroz, um pouco mais de leite, um pouco mais de atenção.

Ríspido, seco, a resposta na ponta língua arde como pimenta quente. Já o olhar, ah!, o olhar,  é derramado nas meninas loiras. Gosta de descrevê-las em poemas: tranças, bochechas rosadas, saias penduradas em pernas roliças. Com as meninas elas, riso largo, olhos úmidos. Gosta de imitar, fazer rir, armadilhas de criança. Matreiro.

Foi estudar na cidade: ensino médio, faculdade. Elizabeth M.B. Mattos  –  outubro de 2015 – Porto Alegre –

“Quem disse que a esquizofrenia é uma doença do sangue teve razão. Ela baixa nas veias e neste momento me move, estuante, na direção do galho que me acena, da lua que se entranha em mim, das vigas e ripas que cercam os escombros e lhes dão vida, pois estas ruínas em vias de reconstrução me dizem muitos segredos, me explica, me decifra, me convida a mergulhar para sempre em seus alicerces e ali deixar meu sangue, meus ossos, as seivas todas do meu ser que começa a se cansar do esforço de viver em vão.” Carlos Lacerda in A casa do meu Avô. 4 edição. Pensamentos, Palavras e Obras Ed Nova Fronteira. 1977. (p. 26)

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E deste livro nasceu um filme precioso. Esta é uma obra de amor e de paciência. Uma única mocinha, sua história, sua luta, seu esforço, seu drama. E a história do seu tratamento.

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As estações se misturam: pode ser verão, inverno, ou primavera…

Existe um agrupamento natural entre as pessoas que se reconhecem. Reconhecer seus iguais, beber do mesmo vinho, centralizar, escutar, falar, dizer e responder, o grupo. Tem cheiro esquisito esta falta de comunicação: abandono do antes para o depois. Falta de vontade, desânimo, incomunicabilidade. Então, a música importa. O livro importa. E a cor. Mas, estes elementos, agora fatiados num único fenômeno, a televisão. Com ela a conversa é infinitamente longa, contínua. O corpo responde com aquela dor precisa  nas costas, no lado. Olhos se apertam, e o tempo se esvazia em menos um dia, menos uma manhã, menos uma tarde, menos uma noite. Sinto as pernas repuxando, dor no calcanhar, inchaço no coração: excesso de comia, de bebida, excesso. Excedo na preguiça de viver. Insisto em leituras repetitivas, no esforço de me fazer compreender. Risco, pontuo, estabeleço analogias, conclusões, depois esqueço. Este efêmero endoidece. Nenhuma relação se pontua afirmativa. Vejo o menino exigindo atenção. Esforço para estar ali, e ser recebido por todo o meu corpo, meu olhar. Escuta, quer falar, e os sonhos se explicam confusos naquele mundo de desvendar mundos. Verão escaldante, distância. A máquina. Fico enjoada. Preciso mudar de lugar, parar de escrever, esticar as costas, mexer as pernas, sede. Raiva. Que coisa estranha estar aqui do outro lado do meu mundo, mas, irritantemente, confortável. A manhã é fresca e silenciosa. Nada a reclamar, salvo estas mazelas interiores. Vou buscar um copo com água gelada. E pensar um pouco mais em como pode ser domingo. Porto Alegre. Do outro lado dos meus olhos o rio, o lago Guaíba faz beleza. Elizabeth M.B. Mattos – 2015

Pode ser envelhecer

Outro dia de sol. Inacreditável. De alguma forma passei um mês na sombra: chuva, chuviscos e cinzento. Frio, vento, e sombrio. Ontem corri pra luz. Caminhei bastante. Tentei ver as baleias de setembro. É quando passam por Torres. Exibem cauda, esguichos, e nos assombram.

Não tenho janela com mar. Não sei se está azul, cinzento, esverdeado, agitado, ou se fazendo de lago. Então, caminho até a praia. Espio. Sinto saudade. Olho mais um pouco, e volto. A cada tempo seu tempo.

Antes que a manhã termine, e com ela meu ânimo, as notícias: sonhos estranhos e repetitivos, num ir e vir, e, logo distanciamento plácido. Durmo cedo, muito cedo. Noites compridas esticadas, silenciosas. Deveria mudar este jeito esquivo? Pondero sobre isso. Pode ser solitário, pode ser produtivo, pode ser eu mesma, pode ser doença. Não sei.

E, no entanto, gosto de pessoas, do riso, das noticias, da voz, dos gestos. De ser pessoa entre as pessoas.

Não tenho escrito, não tenho lido. E claro, não tenho meditado. Envelheci. Em alguns aspectos petrifiquei. Como explicar?  Está me faltando uma dose de ternura. Acho que é isso. A cabeça se agita querendo resolver, mas nem de gavetas dou conta. Sempre desfeitas, abarrotadas. Faço e desfaço o bordado…

Levantar da cama ao amanhecer pode exigir um esforço particular. Levanto. O dia se abre. Muito bom.

Penso: qual motivo, justificativa, ou força uma pessoa acontece no mundo? Há que retomar a coragem. Penso: isso de desenhar, diariamente, novos contornos, pode ser envelhecer. Elizabeth M.B. Mattos – agosto de 2019 – Torres

Janela de Copacabana

Janela de Copacabana, sem mar, com Cristo Redentor. Quatro árvores no parapeito: bon– vaso + sai, planta. “Deve simular os padrões de crescimento e os efeitos da gravidade sobre os galhos, além das marcas do tempo e estrutura geral dos galhos.

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Outras janelas. Prédios. Vozes, e silêncio sonoro. O frio. Faz frio neste setembro. Regata, maiô, camisão de praia, chapéu de sol, cambraia, algodão, sandálias e shorts se inquietam na mala. Faz cinza. Faz o grito da Ladeira dos Tabajaras. Copacabana também faz saudade. E o carioca sai de casa, enche calçada, não tropeça, nem reclama. Sobe a serra, coloca os pés na areia. Conversa. Sorri.

Examino as árvores do parapeito. O homem domesticou a natureza. Estranhamento meu. Penso que o selvagem fica por dentro, encostado na parede do porão. Preso. Sem escada, sem porta, nem saída. Esquisita sou eu. As árvores são lindas.

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Carrego no rosto…

Como remanso, a sombra das amendoeiras me assombra. Cinzento este Rio de Janeiro de setembro. E o vento sacode o mar. Apertada saudade, blusa com botões. Memória carregada. O fio da lembrança balança para cima, para baixo. Visualizo o quintal com amoreira. Braços estendidos, mãos azuis, boca lambuzada. E o suco corre pelos braços. Enxergo manchas desenhadas no avental. A imaginação não é a faculdade de formar imagens. Ela é antes a faculdade de deformar imagens. Transformo quintal de amoras em quintal de amendoeiras com cheiro de mar. Fio colorido. Calçadas lotadas. Cheiro de frutas. Panos, buzina, apito, crianças, cães. Casas sobem os morros, pessoas descem. O mato se esconde. Automóveis enfileirados, brinquedo do asfalto. Enxergo nos quintais das praças amoreiras vestidas de amendoeiras. Carrego no rosto o Rio de Janeiro. Elizabeth M.B.Mattos – setembro de 2005 – Rio de Janeiroimages (1)

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Da Bienal o livro de HERTA Müller: Fera d’alma.

“Nos quintais com amoreiras, a sombra caía como remanso sobre um rosto velho sentado na cadeira. Como remanso, porque eu ia a esses quintais sem ter intenção e só raramente voltava. Nesse momento precioso, um fio de luz do alto da árvore atingia, em linha muito reta, o rosto velho, uma terra distante. Eu acompanhava este fio com o olhar, para cima e para baixo. Um calafrio percorria minhas costas, porque esse remanso não vinha dos galhos das amoreiras, mas da solidão dos olhos no rosto. Eu não queria que alguém me visse nesses quintais. Que alguém me perguntasse o que eu estava fazendo ali. Eu não fazia nada além do que aquilo que enxergava. Ficava muito tempo contemplando as amoreiras. […] Havia uma terra nesse rosto. Eu enxergava um homem jovem ou uma mulher jovem deixando essa terra, levando um saco com uma amoreira. Eu enxergava nos quintais da cidade as muitas amoreiras trazidas. […] Carregamos no rosto o que levamos de uma terra. “ (p.9)

mutações

Ansiedade engasgada. Sair, ou viajar, ir. Angustia fechada, trancada. Não vou. Não consigo dominar este não ir…

Desapego da coisa pode ser fácil, mas da palavra, do sentimento, não consigo. Lenta, aflita, escorrego. Então escrevo… Esbarro no livro, na música. A desordem aumenta. Mala aberta.  Fotos, o livro de

ITACI MUTAÇÕES, o jardim da vida

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Pessoas:

Camila Matarazzo escreve: “Sombras, formas, galhos secos, folhas mortas. Tudo depende de como você vê… Da força, da atitude de quem olha. Se você for capaz olhe mais fundo; perceba as veias pulsando. A luz se expandindo. Acredite. É possível transformar.” Imagem de borboleta.

Interrompo a tarde. Entardece cinzenta. Folhear o livro me acorda: Paulo Hecker Filho diante da foto: talos da roseira de Itaci.

“As coisas.

As coisas,

que dignidade!

Não falam.”

Então escrevo, transcrevo. Volto para a mala aflita.

É apenas  mais um ir… Elizabeth M. B. Mattos julho de 2019 já com vento morno, amanhã a chuva…

Quando voltas

Cada pessoa um fragmento, mas um tudo/ um todo desaparece com ela…
A carta reproduz parcela desta exposição: pedaço com gosto de inteiro.
A chuva bate nos vidros, e passa pelas frestas. Neste mar de notícias devastadoras, sinto tua falta. Gosto quando voltas. Elizabeth M.B. Mattos – 2015 Torres

Amoras no caminho

Amoras amadurecem no jardim da lagoa. Coloridas. O vento me sacode. Desalinham folhas, cabelos, e vontade… Pelas frestas do sol, águas mexidas da Lagoa do Violão. Setembro vem batido, gritando pelo vento. ElizaBeth M.B. Mattos – 2015 – Torres

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Assustados demais

Pelo fio suspenso no equilíbrio precário movido pelo medo vivemos um dia após o outro. Escrever pode ser o arrepio da espinha como Agatha Christie descreve neste livro de memórias. Sem incluir o lobo Chapeuzinho Vermelho seria mesmo interessante? Sem maledicência, sem crime, sem responsabilidade, sem escrúpulos, sem ganância, sem poder manipulador seria o jornalismo acatado? (São mesmo perguntas?) Ouvintes, leitores, telespectadores abastecem o sanguinolento? Ou é mesmo terror, suspense.
Não tenho apenas a sensação de medo. Sinto medo. Sem metáfora … Estamos assustados demais, não é mesmo?

“[…] bastava ainda que Madge fizesse sua voz de irmã mais velha para que eu, imediatamente, sentisse um arrepio ao longo da espinha.
Por que gostava tanto da sensação do medo? Qual será a necessidade instintiva que se satisfaz pelo terror? Por que motivo, na verdade, as crianças gostam de histórias a respeito e ursos, lobos e bruxas? Será que habita em nós algo que se rebela contra uma vida com excessiva segurança? Será que é necessária à vida humana a sensação do perigo? Será que se pode atribuir o atual incremento da delinquência juvenil ao fato de existir segurança demais? Necessitamos instintivamente de algo a combater, a superar, como se fosse uma prova que quiséssemos dar a nós próprios? Se tirássemos o lobo do conto do chapeuzinho Vermelho, alguma criança gostaria dessa história? Contudo, como acontece com a maior parte das coisas da vida, apreciamos ficar assustados – mas não demais…” (p.55)
Autobiografia, Agatha Christie